A relação entre o uso de hormônios e o surgimento de trombose sempre gerou receios em muitas mulheres. Contudo, evidências científicas recentes ajudam a desmistificar esse assunto. Uma ampla revisão publicada no prestigiado periódico The New England Journal of Medicine traz dados valiosos sobre o tema.
O estudo reforça que a relação entre métodos hormonais e a coagulação sanguínea é bem mais individualizada do que se pensava. Nesse sentido, a cirurgiã vascular Dra. Aline Lamaita traz um ponto central: “Esse é um dos exemplos de trabalhos recentes que têm ajudado a colocar esse risco em perspectiva e mostrar que a relação entre terapias hormonais e trombose é muito mais complexa e individualizada do que parece”.
Além disso, a médica reforça uma distinção fundamental para quem busca segurança: “É importante lembrar que essa discussão trata de terapias hormonais prescritas e acompanhadas por médicos, em situações clínicas específicas, e não do uso indiscriminado de hormônios, especialmente com finalidade estética”.
O que os números e as estatísticas realmente indicam
Embora a possibilidade de complicação exista, a interpretação dos dados precisa de contexto clínico. O uso de contraceptivos hormonais combinados pode elevar o risco em aproximadamente 3,5 vezes. Contudo, em termos de risco absoluto, o número final continua pequeno.
Em números práticos, isso equivale a apenas 6 a 10 casos anuais para cada grupo de 10 mil mulheres. Segundo a especialista: “Esse dado costuma assustar quando apresentado de forma isolada, mas precisa ser interpretado dentro do contexto clínico. Os autores ressaltam que o risco absoluto permanece baixo para a maioria das pacientes”.
Atualmente, sabe-se que diferentes fatores mudam o cenário drasticamente. A indicação depende da finalidade da terapia, como:
Anticoncepção convencional e tratamentos ginecológicos;
Processos de reprodução assistida;
Terapias de afirmação de gênero;
Reposição hormonal na menopausa.
A médica reforça essa diversidade: “E cada um desses contextos envolve combinações distintas de substâncias, doses e vias de administração, com perfis de risco específicos para cada uma delas”.
A forma de administração altera os impactos no corpo
Outro ponto determinante destacado na pesquisa científica é a via de aplicação escolhida. Na reposição para a menopausa, o estrogênio oral combinado ao progestagênio associou-se a um risco 2,4 vezes maior. Por outro lado, o uso do estrogênio oral isolado apresentou taxa inferior, de 1,4.
Já o estradiol aplicado via transdérmica, como adesivos ou géis, não registrou aumento perceptível quando utilizado sozinho. A Dra. Aline Lamaita detalha o motivo dessa diferença: “Hormônios administrados via oral passam pelo fígado antes de chegar à circulação, o que pode ativar mecanismos relacionados à coagulação. Já formulações transdérmicas, como adesivos ou géis, tendem a ter um impacto menor nesse processo”.
Fatores individuais que pesam mais que o próprio tratamento
A trombose é uma condição de origem multifatorial. Por essa razão, os hábitos cotidianos e a herança genética possuem um peso considerável no diagnóstico.
A especialista enumera os fatores de atenção mais relevantes:
Idade e peso corporal (obesidade);
Tabagismo e estilo de vida;
Histórico familiar direto e presença de trombofilias.
A médica explica: “A trombose é uma doença multifatorial. E, em muitos casos, idade, obesidade, tabagismo, histórico familiar de trombose e presença de trombofilias podem pesar mais do que o próprio tratamento hormonal”. Ela também ressalta: “A avaliação precisa ser individualizada. Existem opções com perfil de risco mais favorável, mas elas só fazem sentido quando indicadas com critério. Em mulheres com fatores de risco mais elevados, por exemplo, é possível optar por formulações mais seguras ou até por alternativas não hormonais”.
Nem demonização, nem banalização do tratamento
O maior perigo atual reside no excesso de generalização das informações de saúde. Por causa do medo infundado, muitas pessoas abandonam terapias indispensáveis para a sua qualidade de vida. Do mesmo modo, outras utilizam medicamentos sem nenhuma supervisão adequada.
Sobre esse cenário, a cirurgiã vascular é direta: “Muitas mulheres deixam de usar hormônios por medo e acabam abandonando tratamentos importantes por receio de trombose. Outras utilizam sem avaliação adequada. Os dois extremos são problemáticos”.
Em suma, a medicina moderna caminha para decisões compartilhadas entre paciente e especialista, alinhando necessidades e segurança de forma consciente. “Em resumo, a mensagem é simples: hormônios não devem ser demonizados, mas também não podem ser banalizados. O uso seguro depende de análise, critério e acompanhamento médico adequado”, conclui a Dra. Aline Lamaita.
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