Por Dr. Leandro de Paula Gregório – Cirurgião Plástico, Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
Durante muitos anos, quando recebíamos no consultório um paciente que havia perdido 20, 30 ou 40 quilos, havia uma história bastante comum por trás daquela transformação: cirurgia bariátrica, mudança radical de hábitos ou um processo longo de emagrecimento.
Hoje, estamos começando a receber um novo perfil de paciente.
A popularização dos medicamentos da classe dos GLP-1 e de outras terapias voltadas ao tratamento da obesidade mudou a velocidade e a dimensão com que algumas pessoas conseguem perder peso. O assunto ganhou tamanha relevância que o Ministério da Saúde protocolou, em setembro de 2026, um pedido para que a Conitec avalie a incorporação de medicamentos dessa classe ao SUS.
Como cirurgião plástico, observo uma consequência que provavelmente será cada vez mais discutida: o que acontece com o corpo depois que uma grande quantidade de peso vai embora?
Porque emagrecer muda muito mais do que o número da balança.
O peso diminui, mas a pele nem sempre acompanha
Nosso corpo não funciona como uma roupa que simplesmente diminui de tamanho conforme emagrecemos.
Durante o ganho de peso, pele e tecidos se adaptam ao aumento do volume corporal. Quando ocorre uma perda significativa, especialmente depois de anos de obesidade, pode existir um excesso de pele que não consegue se retrair completamente.
A intensidade dessa mudança varia muito. Idade, genética, quantidade de peso perdido, tempo em que a pessoa permaneceu acima do peso, qualidade da pele, tabagismo, exposição solar e outros fatores interferem no resultado.
Por isso, duas pessoas que perdem exatamente 30 quilos podem apresentar corpos completamente diferentes depois do emagrecimento.
E as mudanças não acontecem apenas no abdômen.
Nos braços, pode surgir excesso de pele principalmente na região interna. Nas coxas, a flacidez pode se tornar mais evidente. O abdômen pode apresentar um avental de pele e tecido, além de alterações da parede abdominal que precisam ser avaliadas separadamente.
As mamas também podem perder volume e sustentação. Algumas pacientes dizem que o seio parece ter “esvaziado”. Nos glúteos, a redução importante do tecido adiposo pode alterar projeção e contorno.
E existe ainda o rosto, que muitas vezes é uma das primeiras regiões em que familiares e amigos percebem o emagrecimento. A perda de volume facial pode evidenciar flacidez e modificar contornos, especialmente quando já existe algum grau de envelhecimento.
A próxima etapa não é necessariamente uma cirurgia
Aqui existe um ponto fundamental.
O fato de uma pessoa ter emagrecido muito não significa que ela precise de cirurgia plástica.
Existe uma tendência de transformar toda mudança corporal em algo que precisa ser corrigido. Não concordo com essa lógica.
Emagrecer pode mudar o formato da mama, criar flacidez abdominal ou alterar o rosto sem que isso necessariamente represente um problema. A indicação cirúrgica deve nascer da avaliação individual, das queixas do paciente e, principalmente, da relação entre benefício e risco.
Também é preciso evitar a pressa.
Quando o peso ainda está caindo rapidamente, o corpo continua mudando. Operar durante essa transformação pode significar planejar uma cirurgia para um corpo que ainda não chegou à sua condição mais estável.
Por isso, estabilidade do peso, estado nutricional, condições clínicas e expectativas precisam fazer parte da decisão.
Quando o excesso de pele deixa de ser apenas estético?
Esse talvez seja um dos pontos menos compreendidos quando falamos sobre cirurgia plástica após grandes emagrecimentos.
Para algumas pessoas, retirar excesso de pele está relacionado predominantemente à aparência corporal. Para outras, existe também uma questão funcional.
Dobras importantes podem favorecer atrito, dificuldade para higienizar determinadas regiões, desconforto durante atividades físicas e problemas recorrentes na pele. Um excesso abdominal significativo também pode dificultar movimentos e interferir no cotidiano.
Nesse cenário, chamar toda cirurgia pós-emagrecimento simplesmente de “cirurgia estética” é uma simplificação.
Existem casos em que estamos falando de cirurgia reparadora e de melhora funcional, e isso precisa ser avaliado individualmente.
Mamas, braços, barriga e coxas: dá para resolver tudo de uma vez?
Essa é uma pergunta cada vez mais frequente no consultório.
Depois de passar meses ou anos emagrecendo, é compreensível que o paciente queira encerrar rapidamente esse processo. Ele olha para braços, mamas, abdômen e coxas e pensa: “Já que vou operar, por que não fazer tudo?”
Mas cirurgia plástica não deveria ser planejada como uma lista de tarefas.
Quanto maior o número e a extensão dos procedimentos associados, maior pode ser a complexidade da cirurgia e do pós-operatório. Por isso, em grandes perdas de peso, muitas vezes precisamos pensar em etapas, priorizando aquilo que mais incomoda ou que apresenta maior impacto funcional.
O objetivo não é fazer o maior número possível de procedimentos. É fazer aquilo que pode ser realizado com segurança e que tenha indicação para aquele paciente.
A cirurgia plástica também precisará se adaptar à era dos GLP-1
Estamos provavelmente diante de uma transformação importante.
Durante décadas, a cirurgia pós-bariátrica criou conhecimento sobre como tratar pacientes que perderam grandes quantidades de peso. Agora, medicamentos capazes de produzir perdas ponderais expressivas ampliam o número de pessoas que podem chegar aos consultórios com demandas semelhantes, embora tenham percorrido um caminho diferente.
Isso exigirá integração entre diferentes especialidades.
O cirurgião plástico precisa saber como ocorreu aquele emagrecimento, se o peso está estabilizado, como está a alimentação, quais medicamentos estão sendo utilizados, quais doenças estão controladas e quais são as expectativas do paciente.
Não podemos olhar apenas para a pele que sobrou. Precisamos olhar para a pessoa que passou por uma transformação corporal importante.
O desafio não é criar um novo corpo
Existe ainda uma questão que considero especialmente importante.
Quem perde muito peso frequentemente passa meses ouvindo elogios sobre a transformação. “Você está outra pessoa”, “como você mudou”, “você rejuvenesceu”. Ao mesmo tempo, quando se olha no espelho, pode encontrar uma barriga com excesso de pele, mamas diferentes, braços flácidos ou um rosto que não reconhece imediatamente.
É justamente nesse momento que precisamos ter cuidado para não transformar uma conquista de saúde em uma nova corrida pela perfeição.
A cirurgia plástica pode ajudar a tratar consequências de uma grande perda de peso quando existe indicação. Mas ela não deveria estabelecer uma nova obrigação: primeiro emagrecer, depois corrigir cada centímetro do corpo.
Talvez, portanto, a geração das canetas realmente traga uma nova geração de pacientes para a cirurgia plástica.
Mas nosso desafio como cirurgiões não será simplesmente operar mais.
Será compreender um corpo que mudou rapidamente, saber quando intervir, quando esperar e, principalmente, reconhecer quando não é necessário intervir.
Porque o melhor resultado depois de um grande emagrecimento não é necessariamente um corpo sem nenhuma marca da transformação. É um corpo saudável, funcional e no qual aquela pessoa consiga novamente se reconhecer.






