Autismo feminino: quando parecer “normal” exige esconder quem você é

Você já teve a sensação de precisar ensaiar uma conversa antes de participar de um encontro? Ou de observar como as outras pessoas se comportam para tentar agir da mesma maneira? Para algumas mulheres autistas, situações como essas fazem parte de um esforço diário para se sentirem aceitas e evitar julgamentos.

Esse esforço é conhecido como masking, ou mascaramento social. O termo descreve estratégias utilizadas por algumas pessoas autistas para esconder características do autismo ou imitar comportamentos considerados socialmente esperados. No caso das mulheres, esse processo pode passar despercebido por muito tempo, inclusive pela própria pessoa.

Na prática, o masking pode aparecer de diferentes formas: forçar o contato visual mesmo quando ele causa desconforto, ensaiar expressões faciais, imitar o jeito de falar de outras pessoas, controlar movimentos repetitivos ou fingir compreender situações sociais que, na verdade, parecem confusas. Também pode significar esconder interesses intensos, disfarçar incômodos sensoriais ou permanecer em ambientes desgastantes para não parecer diferente.

É importante entender que nem toda adaptação social é mascaramento, e nem toda mulher que se preocupa em agradar os outros é autista. A questão está na frequência, no esforço envolvido e no quanto essa tentativa de corresponder às expectativas externas prejudica o bem-estar.

O preço de tentar se encaixar

Desde a infância, muitas meninas aprendem que precisam ser educadas, discretas, comunicativas e atentas aos sentimentos dos outros. Quando apresentam dificuldades de interação, podem desenvolver estratégias para observar as colegas e reproduzir seus comportamentos. Em vez de demonstrar espontaneamente o que sentem, passam a analisar constantemente o que devem fazer para serem aceitas.

Por fora, parecem desenvoltas. Podem estudar, trabalhar, manter amizades e cumprir compromissos. Por dentro, porém, cada interação pode exigir um esforço enorme: pensar no que dizer, avaliar as próprias expressões, antecipar possíveis reações e revisar mentalmente tudo o que aconteceu depois.

Esse processo pode contribuir para o cansaço intenso após situações sociais, a necessidade de isolamento para se recuperar, a ansiedade e a sensação persistente de não saber quem se é de verdade. Em algumas mulheres, o esforço acumulado também pode estar associado ao esgotamento autista, conhecido como autistic burnout, embora esse quadro tenha outras características e não seja consequência exclusiva do masking.

O problema não está em querer pertencer. Todos nós, em alguma medida, adaptamos nosso comportamento aos diferentes ambientes. A dificuldade surge quando a aceitação parece depender de esconder continuamente as próprias necessidades, desconfortos e características.

Por que tantas mulheres recebem o diagnóstico mais tarde?

Historicamente, parte do conhecimento e dos instrumentos utilizados na identificação do autismo foi construída a partir de características mais observadas em meninos. Isso contribuiu para que manifestações diferentes, inclusive em meninas e mulheres, fossem menos reconhecidas.

Algumas mulheres autistas apresentam interesses que parecem socialmente comuns, como livros, animais, artistas ou relacionamentos, mas podem vivenciá-los com intensidade particular. Outras desenvolvem estratégias sofisticadas para compreender regras sociais, imitar comportamentos e compensar dificuldades que não são visíveis em uma primeira observação.

Como resultado, podem passar anos recebendo explicações isoladas para suas experiências, como timidez, ansiedade, perfeccionismo ou dificuldade para lidar com mudanças. Essas características podem coexistir com o autismo, mas não são suficientes, por si só, para confirmar ou descartar o diagnóstico.

Quando a investigação acontece apenas na vida adulta, olhar para a história desde a infância é fundamental. A avaliação neuropsicológica pode contribuir para a compreensão do funcionamento cognitivo, emocional e comportamental, mas o diagnóstico de autismo exige uma avaliação clínica abrangente, que considere o desenvolvimento e os critérios diagnósticos. Nenhum questionário ou comportamento isolado é suficiente para defini-lo.

Ser aceita sem precisar se esconder

Reconhecer o masking não significa que toda mulher autista precise abandonar suas estratégias de adaptação ou se expor em ambientes nos quais não se sente segura. Significa compreender o custo dessas estratégias e construir alternativas que preservem seu bem-estar.

Isso pode envolver aprender a respeitar os próprios limites, fazer pausas após interações sociais, comunicar necessidades sensoriais, buscar ambientes mais acolhedores e desenvolver relações nas quais não seja necessário representar o tempo todo. O acompanhamento psicológico também pode ajudar a compreender a própria trajetória, trabalhar a autoestima e lidar com as consequências emocionais de anos de esforço para se encaixar.

Familiares, amigos e profissionais têm um papel importante nesse processo. Em vez de avaliar apenas se uma mulher consegue conversar, trabalhar ou manter relacionamentos, vale observar quanto esforço ela precisa fazer para dar conta dessas atividades e como se sente depois delas.

Uma mulher pode parecer estar bem e, ainda assim, enfrentar dificuldades que ninguém percebe. Por isso, acolher significa escutar o que existe por trás do comportamento visível, sem presumir que uma aparência de tranquilidade representa ausência de sofrimento.

O diagnóstico, quando confirmado, não muda quem essa mulher é. Pode, no entanto, oferecer uma nova compreensão sobre sua história, suas necessidades e seus desafios. Mais do que aprender a se encaixar, ela pode começar a reconhecer quais adaptações fazem sentido para si e quais têm cobrado um preço alto demais.

Ninguém deveria precisar esconder partes importantes de si para merecer pertencimento. Para muitas mulheres autistas, compreender o masking pode ser justamente o início de uma mudança: sair da obrigação de parecer igual e encontrar formas mais saudáveis de existir, se relacionar e ser acolhida.

Por Thaís Barbisan, psicóloga e neuropsicóloga