Febre constante e palidez? Conheça os 8 sinais de alerta na infância que merecem um olhar atento

Cuidar de uma criança é viver em constante aprendizado sobre detalhes, gestos e pequenas mudanças do dia a dia. Febre, dores eventuais, manchas roxas ou aquele cansaço no fim da tarde fazem parte do crescimento e, na maioria das vezes, indicam situações comuns. Contudo, o grande desafio surge quando um sintoma decide não ir embora, volta repetidamente ou foge completamente do comportamento habitual da criança. Nesse cenário, o melhor caminho é sempre buscar o acolhimento de um especialista.

Nenhum sinal, analisado sozinho, indica o diagnóstico de uma doença grave. Por outro lado, alterações que permanecem por muito tempo exigem um olhar mais cuidadoso. Afinal, certas condições complexas, como o câncer infantojuvenil, costumam dar os primeiros sinais de forma sutil, confundindo-se com o cotidiano da infância.

Nesse sentido, a conscientização ganha um reforço fundamental na legislação brasileira. A Lei 15.442/2026 atualizou a Política Nacional de Atenção à Oncologia Pediátrica para priorizar campanhas informativas e capacitar os profissionais da atenção primária. O objetivo é transformar a informação em agilidade, já que o câncer é a principal causa de morte por doença entre jovens de 1 a 19 anos no país, mas apresenta altíssimas taxas de cura quando descoberto precocemente. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima cerca de 7.560 novos casos anuais entre 2026 e 2028.

O que observar no dia a dia do seu filho

Fique atento aos sinais que persistem e fogem do padrão comum da criança:

Febre persistente ou recorrente: episódios que se prolongam por vários dias, somem e retornam sem explicação evidente.

Palidez contínua: um tom de pele visivelmente mais pálido do que o habitual que não melhora com o tempo.

Manchas ou pontinhos na pele: marcas roxas ou pequenas pintas vermelhas surgidas sem motivo, em locais incomuns ou em maior quantidade.

Dores frequentes: desconfortos persistentes, principalmente dores ósseas ou nas pernas que atrapalham as brincadeiras e a rotina.

Aumento abdominal ou caroços: inchaço sem causa aparente na barriga ou o aparecimento de nódulos no pescoço, axilas e virilha.

Ínguas prolongadas: gânglios que continuam aumentados por semanas, mesmo após o fim de uma infecção.

Alterações no olhar: reflexo esbranquiçado na pupila ao tirar fotos com flash, estrabismo recente ou mudanças visuais.

Dores de cabeça constantes: incômodos que acordam a criança, surgem fortes pela manhã ou vêm acompanhados de enjoos e perda de equilíbrio.

Da mesma forma, a avaliação dessas manifestações deve levar em conta o histórico individual do pequeno. “Na oncologia pediátrica, muitos sintomas iniciais podem se confundir com problemas comuns da infância. Por isso, o mais importante não é criar uma lista de sinais para os pais diagnosticarem o câncer, e sim orientar quando é preciso voltar ao pediatra e investigar uma alteração que persiste ou foge do padrão daquela criança”, explica o oncologista pediátrico Sidnei Epelman, diretor do Serviço de Oncologia Pediátrica do Santa Marcelina Saúde e presidente da TUCCA.

Quando um sintoma comum pede uma segunda avaliação

Foi justamente uma sutil alteração no abdômen que chamou a atenção da família da pequena Maitê. Com pouco mais de 1 ano de vida, a menina começou a apresentar prisão de ventre e inchaço na barriga. O que parecia um desconforto passageiro acendeu o alerta nos pais, que decidiram procurar ajuda médica rapidamente.

“Nenhuma mãe que gera um filho tão esperado imagina que um day vai ouvir essa palavra tão terrível: câncer”, desabafa Yasmin, de 22 anos, mãe da menina.

Acolhida pelo Serviço de Oncologia Pediátrica do Santa Marcelina Saúde em parceria com a TUCCA, Maitê recebeu em 2025 o diagnóstico de hepatoblastoma, um tumor raro no fígado que já apresentava metástase no pulmão. A princípio, o quadro exigia um transplante hepático urgente.

“O desespero maior era limpar o pulmão, porque o fígado da Maitê já não servia mais. Precisava de transplante urgente”, relembra a mãe.

Contudo, a história tomou um rumo de esperança com o início da quimioterapia. Após três ciclos, os exames revelaram uma resposta surpreendente: as lesões no pulmão desapareceram e parte do fígado pôde ser preservada, afastando a necessidade do transplante. Em seguida, a menina enfrentou uma cirurgia delicada de 12 horas para remover o tumor.

“Voltamos com a Maitê completamente limpa. Não tinha mais metástase no pulmão e o tumor foi retirado. Hoje, estamos finalizando o tratamento”, celebrava Yasmin. Tempos depois, a família confirmou que a pequena continuava livre das metástases e seguia firme na fase de acompanhamento.

União familiar e lições de vida

Durante todo o processo, o pai de Maitê, Eliton Júnior, de 26 anos, desdobrou-se entre o trabalho como motorista de aplicativo e os cuidados com a filha. Enquanto a esposa acompanhava a internação, ele mantinha a ponte diária entre a casa e o hospital.

“O impacto foi em tudo: psicologicamente, financeiramente e sentimentalmente. Abrimos mão de tudo para cuidar dela. Eu não perdi um dia de visita. Fazia esse caminho todos os dias entre casa e hospital e tentava encaixar o trabalho nos intervalos.”

Apesar de todas as dificuldades, o convívio diário no hospital trouxe profundas transformações pessoais. “Eu via tudo o que ela estava passando, toda a dor. Enquanto eu chorava, tinha medo, pensava nas dívidas e na possibilidade de perdê-la, a Maitê, que estava vivendo tudo aquilo na pele, era forte e resistente. Foi com ela que aprendi a ser mais forte.”

Em suma, essa jornada redefiniu as prioridades da família. “Aprendi a dar valor aos momentos. Cada instante perto dela passou a ter outro significado”, reforça o pai.

O papel da família e o diagnóstico precoce

A trajetória de Maitê reforça que perceber algo diferente é apenas o primeiro passo de um caminho que envolve acolhimento e investigação especializada.

“Quando existe uma suspeita, cada etapa importa. É preciso investigar, chegar ao diagnóstico correto e, quando necessário, encaminhar a criança para um serviço especializado. Em oncologia pediátrica, não existe um tratamento único, pois cada tumor e cada paciente precisam ser avaliados de maneira individual”, destaca Sidnei Epelman.

Caso perceba alguma mudança no seu filho, mantenha a calma. O atendimento inicial na rede pública pode ser feito na Unidade Básica de Saúde (UBS), que encaminhará a família para os especialistas adequados.

“Os pais não precisam carregar sozinhos a responsabilidade de identificar uma doença tão complexa. O papel da família é perceber que existe algo diferente e buscar avaliação. A partir daí, cabe à equipe de saúde investigar, orientar e, quando necessário, encaminhar. Quanto mais ágil e bem estruturado é esse caminho, maiores são as possibilidades de oferecer o cuidado adequado no tempo certo”, finaliza o especialista.

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