Política também pode virar risco psicossocial no trabalho

Em vésperas de eleições a política não fica restrita às urnas, aos debates ou às redes sociais. Ela entra nas empresas, aparece nos grupos de WhatsApp, nos almoços entre colegas, nos corredores, nas reuniões e, inevitavelmente, também na relação entre líderes e subordinados.

Isso, por si só, não é um problema. Divergir faz parte de uma sociedade democrática. Pessoas que trabalham juntas não precisam votar nos mesmos candidatos, compartilhar as mesmas opiniões ou enxergar os acontecimentos políticos da mesma maneira.

A questão muda de dimensão quando essa divergência começa a produzir constrangimento, medo, hostilidade ou sensação de ameaça dentro do ambiente profissional.

Do ponto de vista da saúde mental no trabalho, precisamos prestar atenção justamente nessa fronteira.

Quando a política vira fonte de estresse

Imagine um funcionário que começa a evitar o almoço com determinados colegas porque sabe que será provocado por sua posição política. Ou alguém que permanece em silêncio quando o chefe fala sobre determinado candidato porque teme que discordar possa prejudicar sua relação profissional.

Também podemos pensar naquele trabalhador que recebe mensagens políticas constantemente em um grupo corporativo, é alvo de ironias, tem sua preferência eleitoral exposta sem autorização ou passa a ser tratado de maneira diferente depois de manifestar uma opinião.

Nesses casos, já não estamos falando apenas de um debate político.

Estamos falando de um ambiente que pode produzir insegurança psicológica.

Quando uma pessoa começa a sentir que precisa esconder o que pensa, concordar com uma liderança ou evitar determinados colegas para se proteger profissionalmente, existe um sinal de alerta.

O sofrimento nem sempre aparece como discussão

Um dos pontos que considero mais importantes é entender que o sofrimento provocado por esse tipo de ambiente nem sempre aparece na forma de uma briga aberta.

Muitas vezes, acontece exatamente o contrário.

O trabalhador fica mais quieto. Passa a medir as palavras. Evita determinados grupos. Deixa de participar de conversas informais. Fica mais atento ao comportamento dos colegas e começa a avaliar constantemente se aquilo que fala poderá ser interpretado de alguma maneira ou trazer alguma consequência.

Esse estado de vigilância permanente pode ser desgastante.

Quando se prolonga, um ambiente marcado por tensão, medo e conflitos interpessoais pode repercutir no bem-estar, na concentração, no sono, na motivação e na própria relação que o indivíduo estabelece com o trabalho.

Por isso, não devemos avaliar o problema apenas perguntando se houve uma grande discussão dentro da empresa. Às vezes, o silêncio de uma equipe também pode dizer muita coisa sobre o ambiente que foi criado.

A relação entre chefe e funcionário exige ainda mais cuidado

Existe outro elemento que precisa ser considerado: nem todas as relações dentro de uma empresa são simétricas.

Quando dois colegas discutem política, existe uma dinâmica. Quando uma liderança manifesta repetidamente uma posição diante de seus subordinados, a situação pode ser percebida de outra maneira justamente porque existe uma relação de poder.

Mesmo sem uma ameaça explícita, o funcionário pode sentir que discordar terá algum custo.

Por isso, gestores precisam ter especial cuidado para não transformar sua posição hierárquica em instrumento de pressão política. O trabalhador não deveria se perguntar se sua preferência eleitoral poderá interferir em uma promoção, na distribuição de oportunidades, na avaliação de desempenho ou simplesmente na maneira como será tratado por sua liderança.

Qual deve ser o papel da empresa?

Cuidar da saúde mental durante o período eleitoral não significa proibir pessoas de conversar sobre política nem determinar aquilo que os funcionários podem pensar.

Significa estabelecer limites claros para preservar um ambiente profissional baseado no respeito.

Empresas podem reforçar políticas de convivência, orientar sobre o uso adequado dos canais corporativos, prevenir situações de intimidação e preparar lideranças para compreender a assimetria de poder existente na relação com suas equipes.

Também é importante que existam caminhos seguros para relatar episódios de constrangimento, perseguição, exposição ou hostilidade.

O objetivo não deve ser eliminar a divergência, mas impedir que ela se transforme em medo.

A democracia pressupõe justamente a possibilidade de pessoas pensarem diferente. E o ambiente de trabalho precisa estar preparado para conviver com essa pluralidade.

Quando um funcionário sente que precisa esconder sua opinião para preservar o próprio emprego, a relação profissional ou suas oportunidades dentro da empresa, já ultrapassamos o terreno de uma simples conversa sobre política.

O papel da organização não é escolher uma posição política pelo trabalhador. É garantir que ele possa exercer sua cidadania sem medo de consequências profissionais.

 

Sobre Dr. Daniel Sócrates https://www.instagram.com/dr.danielsocrates/

Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.