Azeite e peixe, como na dieta mediterrânea, ou aveia e óleo de canola, como na nórdica: as duas rotas levaram ao mesmo lugar em um estudo do Centro Alemão de Doenças Neurodegenerativas (DZNE). Publicada em agosto na revista Nature Communications, a pesquisa associou a adesão a padrões de alimentação saudável a um envelhecimento biológico mais lento e não encontrou um cardápio campeão.
Os autores descrevem efeitos modestos, porém mensuráveis e relevantes para a prevenção de doenças. Na prática, o resultado abre espaço para adaptar a alimentação saudável ao gosto, à cultura e ao orçamento de cada família.
A idade do documento e a idade do corpo
A idade cronológica é a que está na certidão de nascimento. A biológica mostra o ritmo em que o organismo envelhece por dentro, e duas pessoas nascidas no mesmo ano podem estar em pontos bem diferentes dessa escala.
Estudo com 7.500 pessoas liga diferentes dietas saudáveis a um envelhecimento biológico mais lento (Foto: Magnific)
Para chegar a esse número, os cientistas olharam para a metilação do DNA, um conjunto de alterações químicas que se acumulam ao longo da vida e ajudam a ligar e desligar genes. Como essas marcas mudam de forma relativamente previsível com o passar dos anos, elas servem de base para os chamados relógios epigenéticos. O estudo usou três desses relógios e examinou cerca de 850 mil pontos do DNA de cada participante, aproximadamente o dobro do que a maior parte das pesquisas anteriores conseguia avaliar.
Quem participou
A análise reuniu dados de alimentação e amostras de sangue de homens e mulheres. A primeira etapa contou com 6.470 voluntários do Estudo da Renânia, acompanhamento populacional conduzido pelo próprio DZNE em Bonn. Depois, os resultados foram conferidos com informações de outras 1.034 pessoas do estudo EPIC-Potsdam, do Instituto Alemão de Nutrição Humana Potsdam-Rehbrücke (DIfE).
Os dez índices usados para medir a alimentação
Cada participante teve o cardápio avaliado por dez escalas diferentes, que medem quanto a rotina alimentar se aproxima de um padrão:
Dieta mediterrânea: gorduras boas como o azeite, vegetais, peixes e grãos integrais, com pouca carne vermelha.
DASH: criada para controlar a pressão arterial, valoriza vegetais, grãos integrais e laticínios magros e corta bastante o sal.
MIND: combinação da mediterrânea com a DASH pensada para proteger o cérebro e a memória.
Índice de Alimentação Saudável Alternativo (AHEI): voltado à prevenção de doenças crônicas, pontua negativamente embutidos e refrigerantes.
Dieta nórdica: parente da mediterrânea adaptada ao norte da Europa, com óleo de canola, peixes gordos como o salmão e aveia.
EAT-Lancet: modelo que considera também a saúde do planeta, com prioridade para vegetais e limite para carnes e laticínios.
Índice de dieta à base de vegetais (PDI): mede a proporção de alimentos de origem vegetal no dia a dia.
Índice de dieta vegetal saudável (hPDI): dá pontos para vegetais de boa qualidade, como frutas frescas, castanhas e grãos integrais.
Índice de dieta vegetal não saudável (uPDI): olha para os produtos de origem vegetal refinados, como batata frita, doces e refrigerantes.
Índice inflamatório da dieta (DII): estima o quanto a alimentação favorece inflamações no corpo ou ajuda a contê-las com antioxidantes.
Nenhuma dieta venceu sozinha
Quanto maior a adesão aos padrões saudáveis, mais devagar andavam os relógios epigenéticos. Um detalhe chamou a atenção dos pesquisadores: quem aparecia como saudável em uma escala muitas vezes não cumpria os critérios de outra, e quase ninguém se encaixava em todas ao mesmo tempo. Mesmo assim, diferentes caminhos foram associados ao benefício, uns com mais intensidade, outros com menos.
O que esses cardápios têm em comum é a base em alimentos naturais, com pouco espaço para ultraprocessados e para o excesso de gordura.
O que acontece dentro das células
Mais de 70% das vias biológicas alteradas apareceram nos dez padrões avaliados. São processos ligados à estrutura das células, à comunicação entre elas e ao metabolismo, todos relacionados ao envelhecimento e ao surgimento de doenças crônicas.
Algumas associações seguiram o objetivo de cada dieta. A DASH, feita para a pressão arterial, se ligou a vias da saúde do coração. A MIND, voltada ao cérebro, apareceu associada a vias da memória e da cognição.
Diferença maior entre fumantes
A relação entre comer melhor e envelhecer mais devagar foi mais forte nos fumantes do que nos não fumantes. Os cientistas ainda não sabem qual mecanismo explica essa diferença e deixam claro que o achado em nada diminui os danos conhecidos do cigarro.
Benefício que não aparece no espelho
Envelhecer mais devagar do ponto de vista biológico não impede as mudanças na aparência que chegam com o tempo. O ganho principal está na prevenção de doenças e na qualidade de vida a longo prazo, e ele está ao alcance de quem prefere o peixe com azeite, o prato cheio de vegetais ou a comida com pouco sal.
Resumo: Estudo alemão publicado na Nature Communications analisou o DNA de cerca de 7.500 adultos e associou padrões de alimentação saudável, como as dietas mediterrânea, nórdica, DASH e MIND, a um envelhecimento biológico mais lento. Os pesquisadores não apontaram uma dieta melhor que as outras.
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