Por Dr. Leandro Gregório, cirurgião plástico e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
Novas regras publicadas em 2026 ampliam e reorganizam a reconstrução mamária no SUS, enquanto técnicas cada vez mais individualizadas permitem buscar não apenas a reconstrução da mama, mas também simetria, naturalidade e qualidade de vida depois do câncer
Quando falamos em câncer de mama, naturalmente pensamos primeiro no diagnóstico e no tratamento da doença. Mas existe uma etapa que também merece fazer parte dessa conversa: o que acontece com o corpo da mulher depois do tratamento?
A reconstrução mamária não deve ser entendida simplesmente como uma cirurgia estética realizada depois do câncer. Ela integra o processo de reabilitação de muitas pacientes submetidas à retirada total ou parcial da mama e pode contribuir para a recuperação da imagem corporal e da qualidade de vida.
Essa discussão se torna ainda mais relevante neste Outubro Rosa. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Excluindo os tumores de pele não melanoma, é o câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras, correspondendo a cerca de 30% dos novos casos femininos estimados.
E 2026 trouxe uma mudança importante para a reconstrução mamária no Sistema Único de Saúde.
O que mudou no SUS em 2026?
Em setembro, o Ministério da Saúde publicou a Portaria GM/MS nº 12.254, que atualizou as regras para os procedimentos de cirurgia plástica reconstrutiva da mama no SUS.
Entre as mudanças está a inclusão, na tabela do sistema, de um procedimento específico para reconstrução unilateral da mama, com ou sem implante de prótese, após mutilação total ou parcial, incluindo a possibilidade de simetrização da mama contralateral.
Essa última parte é muito importante.
Quando retiramos uma mama ou parte dela para tratar um câncer, reconstruir não significa simplesmente colocar uma prótese no espaço deixado pela cirurgia. O objetivo é buscar, dentro das possibilidades de cada paciente, equilíbrio entre as duas mamas.
Em determinados casos, portanto, pode ser necessário atuar também na mama que não teve câncer. Dependendo da anatomia e do planejamento, procedimentos de simetrização podem ser necessários para aproximar volume, formato e posicionamento das mamas.
A atualização de 2026 também reajustou os valores previstos pelo SUS para materiais utilizados na reconstrução: a prótese mamária de silicone passou a ter valor de R$ 1.500 e o expansor tecidual, de R$ 2 mil.
São mudanças técnicas e administrativas, mas que têm uma tradução bastante concreta para a paciente: a reconstrução está sendo reconhecida de forma cada vez mais completa dentro da linha de cuidado.
Nem toda reconstrução precisa de prótese
Uma das maiores mudanças na cirurgia reconstrutiva nas últimas décadas foi compreender que não existe uma única reconstrução mamária ideal para todas as mulheres.
Podemos utilizar implantes de silicone, expansores de tecido, tecidos da própria paciente e, em situações selecionadas, associar diferentes técnicas.
Há reconstruções feitas com retalhos, nas quais pele, gordura e, dependendo da técnica, outros tecidos da própria paciente são utilizados para reconstruir a mama. Existem diferentes possibilidades, e a escolha depende de fatores como anatomia, cirurgias anteriores, tratamento oncológico realizado, disponibilidade de tecidos e condições clínicas.
A lipoenxertia também ganhou um papel importante nesse planejamento. Nessa técnica, retiramos gordura de outra região do corpo e, após o processamento adequado, utilizamos esse tecido para melhorar contornos, corrigir determinadas irregularidades e complementar o resultado da reconstrução.
Ela não substitui todas as outras técnicas. Em muitas pacientes funciona justamente como uma ferramenta complementar para tornar o resultado mais harmônico.
Esse é um dos pontos mais interessantes da reconstrução moderna: não pensamos apenas em reconstruir volume. Pensamos em reconstruir forma, contorno e simetria.
Reconstrução imediata ou tardia?
Outra dúvida muito comum é sobre o momento da cirurgia.
Quando as condições oncológicas e clínicas permitem, a reconstrução pode ser imediata, realizada no mesmo procedimento da cirurgia para retirada total ou parcial da mama. Em outras situações, pode ser mais adequado realizar uma reconstrução tardia, depois de outras etapas do tratamento.
Não existe uma resposta única.
O tipo e a extensão do tumor, a necessidade de radioterapia, as condições clínicas da paciente e o planejamento conjunto entre mastologista, oncologista e cirurgião plástico influenciam essa decisão.
Fazer a reconstrução imediatamente pode evitar que a paciente passe por um período sem a mama e, em determinadas situações, reduzir etapas cirúrgicas. Mas reconstrução imediata não deve ser apresentada como obrigatoriamente melhor.
O tratamento do câncer vem primeiro. A reconstrução precisa ser planejada para caminhar junto com ele, e não competir com ele.
A reconstrução não termina necessariamente na primeira cirurgia
Esse também é um ponto que precisamos explicar melhor às pacientes.
Muitas vezes imaginamos a reconstrução como uma única cirurgia: retira-se a mama e coloca-se uma nova no lugar. Na prática, o processo pode envolver etapas.
Depois da reconstrução inicial, podemos avaliar simetria, contorno, cicatrizes e necessidade de procedimentos complementares. Em alguns casos, pode haver reconstrução do complexo aréolo-mamilar.
A micropigmentação e técnicas de tatuagem tridimensional também evoluíram bastante e podem produzir uma representação visual muito realista da aréola e do mamilo. Para algumas mulheres, essa pequena etapa representa um encerramento simbólico muito importante do processo de reconstrução.
A rede privada também caminha para reconstruções cada vez mais individualizadas
Na saúde suplementar e na assistência privada, temos acesso a diferentes combinações de técnicas, implantes, enxertos de gordura e estratégias reconstrutivas que permitem individualizar bastante o planejamento.
Mas tecnologia, sozinha, não define uma boa reconstrução.
Uma técnica mais nova não é automaticamente melhor para todas as mulheres. A reconstrução ideal é aquela que considera o tratamento oncológico, a anatomia, as condições clínicas e, principalmente, aquilo que é importante para aquela paciente.
Algumas querem reconstruir uma mama muito semelhante à que tinham. Outras aproveitam o momento para reduzir o volume das mamas. Há pacientes que não desejam utilizar próteses. E existem mulheres que optam por não realizar reconstrução mamária.
Todas essas escolhas precisam ser respeitadas.
Reconstrução mamária é um direito
No Brasil, mulheres submetidas à mutilação total ou parcial da mama em decorrência do tratamento do câncer têm direito à cirurgia plástica reconstrutiva pelo SUS. A legislação também prevê, quando houver condições técnicas, que a reconstrução seja realizada no mesmo tempo cirúrgico da retirada da mama.
Em 2026, a atualização dos procedimentos do SUS reforça algo que nós, cirurgiões plásticos, precisamos repetir durante o Outubro Rosa: tratar o câncer e cuidar das consequências do tratamento fazem parte da mesma jornada.
Reconstruir uma mama não apaga o que a mulher viveu, tampouco determina sua feminilidade ou sua autoestima. Mas, para muitas pacientes, poder escolher reconstruí-la significa recuperar uma parte importante da relação com o próprio corpo.
A evolução da cirurgia nos permite oferecer alternativas cada vez mais individualizadas. O próximo desafio é fazer com que informação, acesso e decisão compartilhada avancem na mesma velocidade.






