Açúcar e antibiótico juntos? Combinação está ligada a maior estrago na microbiota do intestino

Cada 100 gramas a mais de doces consumidos durante o tratamento com antibióticos se associou a uma queda de cerca de 24% na diversidade de bactérias do intestino de pacientes internados. O dado vem de um estudo publicado no fim de setembro na revista científica Nature, conduzido por cientistas do Memorial Sloan Kettering Cancer Center e do NYU Langone Health, em Nova York, e do City of Hope Cancer Center, em Los Angeles.

O trabalho acompanhou 173 pessoas com câncer que estavam no hospital para receber um transplante de células-tronco hematopoéticas e tomaram antibióticos de amplo espectro por um período prolongado. Foram analisadas 9.419 refeições e mais de mil amostras de fezes coletadas ao longo do tratamento.

Um cardápio conhecido em detalhes

Os pacientes comiam apenas a comida preparada pelo hospital, o que permitiu aos pesquisadores saber exatamente o que e quanto cada um consumia. Esse controle é raro em pesquisas de nutrição, que em geral dependem da memória dos participantes sobre o que comeram horas ou dias antes.

Açúcar e antibiótico juntos estão ligados a mais estrago na microbiota do intestino, mostra estudo (Foto: Magnific)

Com esses registros, a equipe cruzou grandes grupos de nutrientes, como gorduras, carboidratos e fibras, e alimentos específicos, como frango, maçã e bolo de chocolate, com a composição da microbiota de cada paciente.

Por que a diversidade de bactérias conta

O intestino abriga trilhões de bactérias, vírus e outros micróbios que ajudam na digestão, produzem vitaminas e participam da defesa do organismo. Uma comunidade numerosa e variada ocupa espaço e impede que micro-organismos oportunistas se multipliquem a ponto de causar doença.

Os antibióticos de amplo espectro eliminam parte dessa população. No estudo, quanto mais intenso o esquema de antibióticos, maior foi a perda de diversidade.

Os doces fizeram a diferença

A maioria dos alimentos não mostrou relação com mudanças na variedade de bactérias. Os doces, categoria que reuniu açúcares e alimentos e bebidas adoçados, foram a exceção: o consumo durante o uso do antibiótico se associou a uma queda adicional estimada em 24,1% na diversidade para cada 100 gramas a mais.

Junto com essa perda, cresceu a população de bactérias do gênero Enterococcus, principalmente da espécie Enterococcus faecium. Em condições normais, ela vive no intestino sem causar problemas, controlada pela concorrência das outras bactérias. Quando o antibiótico abre espaço, o enterococo se multiplica e, em alguns casos, atravessa a parede do intestino e chega ao sangue, onde provoca sepse.

Em pacientes que recebem transplante de medula óssea, essa bactéria também agrava a doença do enxerto contra o hospedeiro, complicação em que as células doadas passam a atacar os tecidos saudáveis de quem recebeu o transplante. Entre os participantes, os que comiam mais açúcar do que a média tiveram um risco de morte após o transplante cerca de 12% maior, um aumento que os autores classificam como modesto.

O teste nos camundongos

Para conferir se a relação se repetia em laboratório, os cientistas deram uma dose única de antibiótico de amplo espectro a camundongos, o que provocou um pequeno aumento de Enterococcus. Nos animais que também receberam sacarose, o açúcar comum, a quantidade dessas bactérias ficou 16,3 vezes maior no terceiro dia e 33,4 vezes maior no sexto.

O açúcar sozinho, sem o antibiótico, não teve o mesmo efeito. O resultado reforça a hipótese de que o problema está na combinação dos dois.

O que ainda falta saber

O trabalho não foi um ensaio clínico randomizado, modelo em que voluntários seguem dietas diferentes para comparar os resultados. O grupo estudado também tinha uma condição muito específica e passava por um tratamento intensivo, o que limita a aplicação dos achados à população em geral. Ainda não se sabe, por exemplo, se o mesmo vale para quem toma antibiótico em casa para tratar uma otite.

Os próprios autores defendem novas pesquisas com outros grupos de pacientes. Enquanto elas não chegam, os pesquisadores consideram razoável limitar o açúcar especificamente nos dias de antibiótico, sem necessidade de evitá-lo o tempo todo, já que fugir do excesso de doces costuma ser uma boa ideia de qualquer forma.

Resumo: Estudo publicado na Nature com 173 pacientes em transplante de células-tronco associou o consumo de doces durante o uso de antibióticos a uma perda maior de diversidade de bactérias no intestino e ao crescimento de Enterococcus. Em camundongos, o açúcar só teve esse efeito quando combinado ao antibiótico.

Leia também: Kefir virou queridinho do intestino, mas o que ele realmente faz pelo corpo?