Quantas vezes você pegou o celular hoje sem saber exatamente por quê?
Talvez tenha sido para responder uma mensagem. Mas, antes de chegar ao WhatsApp, passou pelo Instagram, abriu uma notificação, assistiu a um vídeo, conferiu alguma notícia e, alguns minutos depois, fechou tudo. Pouco tempo passa e sua mão procura novamente o aparelho.
Não necessariamente porque alguém mandou uma mensagem. Mas porque alguém pode ter mandado.
Essa diferença parece pequena, mas ajuda a compreender por que desenvolvemos o hábito de checar o celular tantas vezes ao longo do dia.
Nosso cérebro é extremamente sensível à novidade e aprende rapidamente comportamentos associados à possibilidade de recompensa. Quando desbloqueamos a tela, não sabemos exatamente o que encontraremos. Pode não haver nada interessante. Mas também pode existir uma mensagem de alguém de quem gostamos, uma curtida, uma notícia importante, um vídeo engraçado ou alguma informação capaz de despertar nossa curiosidade.
Essa imprevisibilidade importa.
Quando uma recompensa não aparece sempre da mesma maneira, existe uma expectativa sobre aquilo que poderá acontecer. E, com a repetição, o simples gesto de conferir pode se tornar um hábito tão automático que já não exige uma decisão muito consciente.
É aquele momento bastante curioso em que abrimos o Instagram e, segundos depois, pensamos: “Espera, por que eu entrei aqui mesmo?”
Por que é tão difícil simplesmente não fazer nada?
Existe outro aspecto dessa relação com o celular que me chama bastante atenção: estamos preenchendo praticamente todos os pequenos vazios do cotidiano.
Entramos no elevador: celular.
Chegamos à fila do supermercado: celular.
Esperamos alguém chegar: celular.
Terminamos uma reunião e temos cinco minutos antes da próxima: celular.
Deitamos na cama: celular.
Situações que antes poderiam envolver simplesmente olhar pela janela, observar quem está ao redor, pensar em alguma coisa ou até experimentar alguns minutos de tédio passaram a ser imediatamente ocupadas por estímulos.
Se toda pequena pausa é preenchida, oferecemos ao cérebro menos oportunidades de experimentar momentos de baixa estimulação.
E talvez seja importante recuperar alguns deles.
Não precisamos transformar o tédio em vilão nem em herói. Mas não ter nada acontecendo durante alguns minutos também faz parte da experiência humana.
O problema, portanto, não está necessariamente apenas na quantidade total de horas diante da tela. Existe também a fragmentação da nossa atenção.
Estou escrevendo alguma coisa. Chega uma mensagem. Abro o WhatsApp. A mensagem me leva para um link. O link desperta outra curiosidade. Quando percebo, passaram-se dez minutos e preciso reconstruir mentalmente o caminho até a tarefa que estava realizando.
O celular pode virar resposta para qualquer desconforto
Com o tempo, o cérebro aprende sequências.
Uma pausa pode virar gatilho para pegar o aparelho. Assim como o tédio, a espera, uma pequena ansiedade ou simplesmente o fato de não saber o que fazer durante alguns segundos.
É por isso que apenas dizer “vou parar de olhar tanto o celular” nem sempre funciona.
Existe um comportamento que já foi repetido centenas ou milhares de vezes.
Foi justamente pensando nessa automatização que comecei a propor um experimento muito simples: antes de desbloquear o celular, sinta um cheiro.
Pode parecer estranho. Mas a proposta não é substituir um hábito por uma fórmula milagrosa.
É criar uma pausa.
Antes de abrir o celular, sinta o cheiro do café
Imagine que você está tomando café da manhã.
O celular está ao lado da xícara. Surge aquela vontade quase automática de desbloquear a tela.
Antes de fazer isso, experimente parar por alguns segundos e perceber conscientemente o aroma do café.
Não precisa fazer nada extraordinário.
Observe o cheiro. Perceba sua intensidade. Tente identificar alguma característica daquele aroma. E, principalmente, perceba que você está ali.
Depois pergunte a si mesmo:
“Eu preciso realmente abrir o celular agora ou minha mão foi até ele automaticamente?”
Se precisar, abra.
A proposta não é demonizar o celular.
Também não estou dizendo que sentir o aroma do café vai “desintoxicar seu cérebro de dopamina”, reduzir magicamente a dependência da tecnologia ou eliminar a vontade de olhar uma tela. Essas seriam simplificações de processos muito mais complexos.
O que estamos fazendo é introduzir deliberadamente uma experiência sensorial entre o impulso e a ação.
Por que usar justamente o olfato?
O olfato ocupa um lugar muito interessante quando falamos de cérebro, emoção e memória.
Os estímulos olfativos possuem conexões estreitas com estruturas cerebrais relacionadas ao processamento emocional e à memória. Talvez isso ajude a explicar por que um cheiro consegue nos transportar tão rapidamente para uma lembrança.
Mas, nesse exercício, existe algo ainda mais simples.
Para perceber conscientemente um aroma, eu preciso direcionar minha atenção para ele.
Por alguns segundos, deixo de executar automaticamente uma sequência e volto a perceber o que está acontecendo no presente.
O cheiro funciona como um marcador sensorial da pausa.
E não precisa ser necessariamente café.
Um aroma presente no ambiente pode cumprir essa função. Para quem utiliza óleos essenciais adequadamente, um aroma marcante, como o da hortelã-pimenta, também pode ser utilizado como referência sensorial. O importante aqui não é atribuir ao óleo essencial o poder de controlar o comportamento, mas utilizar o cheiro como um lembrete para interromper por alguns segundos o piloto automático.
Faça o teste por 30 segundos
Na próxima vez que sua mão procurar o celular sem que exista uma razão muito clara, faça uma experiência.
Pare.
Perceba um aroma.
Respire normalmente e direcione sua atenção para aquele cheiro durante alguns segundos.
Depois se pergunte:
“Por que estou pegando o celular agora?”
Talvez exista uma mensagem que você realmente precise responder.
Talvez queira procurar alguma informação.
Ou talvez descubra que não havia motivo algum. Você estava apenas esperando o elevador chegar.
E então pode decidir abrir o celular mesmo assim.
A diferença é que, dessa vez, foi você quem tomou a decisão — e não apenas o piloto automático.






