Por Dr. Leandro Gregório – Cirurgião Plástico, Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
Quando alguém decide realizar um procedimento estético ou uma cirurgia plástica, é natural pensar primeiro no resultado. Como vai ficar o rosto? A cicatriz será discreta? O corpo ficará como imaginei? Mas existe uma pergunta que deveria vir antes de todas essas: onde esse procedimento será realizado e quem estará cuidando de mim?
Hoje encontramos clínicas esteticamente impecáveis, com ambientes sofisticados, recepções que lembram hotéis e perfis nas redes sociais repletos de fotos e vídeos atraentes. Tudo isso pode transmitir confiança, mas não é suficiente para avaliar a segurança de um estabelecimento.
Na medicina, segurança não se mede pela decoração.
Um procedimento pode parecer simples, rápido e minimamente invasivo, mas isso não significa que seja isento de riscos. Dependendo da técnica utilizada, podem ocorrer sangramentos, infecções, reações alérgicas, alterações vasculares, lesões de estruturas, intercorrências anestésicas e outras complicações.
E existe uma diferença fundamental entre ter uma complicação possível e estar despreparado para reconhecê-la e tratá-la.
É por isso que, antes de escolher onde realizar um procedimento, costumo recomendar que o paciente investigue o local com o mesmo cuidado com que pesquisa o profissional e a técnica.
O primeiro passo: saber quem vai realizar o procedimento estético
Não escolha apenas pelo perfil nas redes sociais, número de seguidores ou pelas fotografias de antes e depois.
No caso de uma cirurgia plástica, procure saber a formação do médico e confirme se ele possui registro profissional regular e qual é sua especialidade. Quando se trata de um cirurgião plástico, é possível verificar sua qualificação nos canais oficiais do Conselho Federal de Medicina e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
Isso parece básico, mas muitas pessoas pesquisam durante semanas o preço de um procedimento e passam poucos minutos pesquisando a formação de quem irá realizá-lo.
Também desconfie quando a consulta parece mais uma negociação comercial do que uma avaliação médica. Cirurgia não deveria ser vendida como um produto de prateleira.
Uma boa consulta envolve histórico de saúde, medicamentos utilizados, cirurgias anteriores, alergias, hábitos, expectativas e avaliação individual dos riscos.
Pergunte onde a cirurgia será realizada
Esse é outro ponto que merece atenção.
Nem todo procedimento pode ser realizado em qualquer ambiente. O local precisa ser compatível com a complexidade da intervenção e oferecer estrutura adequada para aquilo que será feito.
Por isso, pergunte claramente: onde será minha cirurgia? Qual é a estrutura disponível? Quem estará presente? Como será a anestesia? O que acontece se houver uma intercorrência?
Não tenha vergonha de fazer essas perguntas. O paciente não está sendo inconveniente; está cuidando da própria segurança.
Quando há sedação ou anestesia, também é importante compreender quem será responsável por essa etapa e como será feita a monitorização durante o procedimento.
Material esterilizado e protocolos de higiene não são detalhes
Existem aspectos que talvez não apareçam nas fotografias bonitas de uma clínica, mas que são muito mais importantes.
Como é realizada a esterilização dos materiais? Existem protocolos para prevenção de infecções? Os produtos utilizados têm procedência identificável? Há registro de lote e validade quando aplicável? O ambiente destinado ao procedimento é apropriado?
O paciente não precisa se transformar em fiscal sanitário. Mas uma clínica séria deve conseguir responder com naturalidade quando alguém pergunta sobre segurança, higiene e procedência dos produtos utilizados.
Quando perguntas simples provocam respostas vagas, irritação ou tentativas de mudar de assunto, vale redobrar a atenção.
Cuidado com o preço muito abaixo do mercado
Preço é uma preocupação legítima. Entretanto, procedimentos médicos envolvem equipe, materiais, medicamentos, estrutura, equipamentos e acompanhamento.
Por isso, quando existe uma diferença muito grande de valor, é razoável perguntar por quê.
O problema não é encontrar uma condição comercial melhor. O problema é tomar uma decisão de saúde exclusivamente porque apareceu uma promoção.
Frases como “somente hoje”, “últimas vagas”, “feche agora para garantir o desconto” ou pacotes vendidos com forte pressão comercial merecem cautela quando estamos falando de um procedimento médico.
O tempo da decisão também faz parte da segurança.
Desconfie de promessas de resultado perfeito
Nenhum profissional responsável deveria prometer resultado absolutamente perfeito ou ausência total de riscos.
Cada organismo responde de uma maneira. Cicatrização, anatomia, idade, genética, condições de saúde e hábitos individuais interferem no resultado.
Quando converso com um paciente, considero tão importante explicar o que podemos alcançar quanto explicar as limitações do procedimento.
Uma relação médica saudável não é construída com promessas impossíveis, mas com expectativas realistas.
E se alguma coisa acontecer depois? Quem cuida de você?
O procedimento não termina quando o paciente sai da clínica.
Antes de realizar uma cirurgia ou intervenção, saiba como funciona o acompanhamento pós-procedimento. Existe retorno programado? Há orientação sobre sinais de alerta? Quem deve ser procurado diante de uma intercorrência? Existe um canal de contato?
Em uma cirurgia plástica, o acompanhamento pós-operatório faz parte do tratamento. É nesse período que avaliamos cicatrização, edema, dor, evolução do resultado e eventuais sinais que precisam ser investigados.
Sete perguntas para fazer antes de dizer “sim” a um procedimento estético
Antes de realizar um procedimento estético ou uma cirurgia, eu recomendaria que toda paciente conseguisse responder a estas perguntas:
Quem vai realizar meu procedimento e qual é a formação desse profissional?
O local onde ele será realizado é adequado para esse tipo de intervenção?
Quem será responsável pela anestesia ou sedação, quando necessária?
Os materiais e produtos utilizados têm procedência e identificação?
Quais são os riscos e possíveis complicações no meu caso?
O que a equipe fará se houver uma intercorrência durante ou depois do procedimento?
Quem fará meu acompanhamento após o procedimento?
Se você não consegue obter respostas claras, talvez ainda não seja o momento de marcar.
Segurança também faz parte do resultado estético
A busca por mudanças na aparência não deve ser tratada como algo superficial. Muitas mulheres passam anos pensando em determinado procedimento e chegam ao consultório com expectativas, inseguranças e desejos muito particulares.
Justamente por isso, essa decisão merece ser respeitada.
Uma clínica sofisticada pode ser excelente, assim como uma clínica mais simples pode oferecer atendimento seguro e responsável. A aparência do ambiente, sozinha, não permite concluir nenhuma das duas coisas.
O que devemos procurar são qualificação profissional, estrutura adequada, protocolos de segurança, transparência sobre riscos e acompanhamento.
Na cirurgia plástica, não existe resultado bonito que justifique colocar a saúde desnecessariamente em risco.
Antes de perguntar apenas “quanto custa?” ou “como vai ficar?”, acrescente uma terceira pergunta: “Estou fazendo isso em um lugar realmente preparado para cuidar de mim?”






