Entre 2026 e 2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 77.920 novos casos de câncer de próstata por ano no Brasil. Mesmo com números altos e com a campanha Novembro Azul em curso, a doença ainda convive com preconceito, medo do urologista e uma enxurrada de informações equivocadas. Algumas delas parecem inofensivas, mas afastam o homem da investigação ou criam expectativas irreais sobre o tratamento.
O tumor pode evoluir sem dor, sem alteração na urina e sem nenhum sinal perceptível nas fases iniciais. Quando aparecem, sintomas como dificuldade para urinar, sangue na urina ou no sêmen e dores ósseas também ocorrem em outras condições e pedem avaliação. A investigação costuma reunir o exame de sangue PSA, o toque retal e exames de imagem, como ultrassonografia ou ressonância multiparamétrica. Alterações nesses exames podem levar a biópsia. A decisão sobre quais testes fazer entra na conversa com o profissional de saúde, considerando idade, histórico familiar e o perfil de cada paciente.
O urologista Fernando Leão reuniu dez mitos frequentes sobre a doença e o que a ciência já esclareceu a respeito deles.
1. Quem tem câncer de próstata sempre tem sintomas
Falso. A doença pode avançar em silêncio, sobretudo no começo. A ausência de queixas não fecha o assunto. A conversa sobre riscos e benefícios dos exames de detecção precoce faz parte do acompanhamento.
2. Vasectomia aumenta o risco de câncer de próstata
Falso. A vasectomia não predispõe ao tumor. A evidência atual aponta associação estatística fraca, provavelmente ligada a viés de detecção, sem relação causal estabelecida, nem para a doença em geral, nem para tumores de alto grau ou mortalidade. Essa é a posição das diretrizes mais recentes.
Novembro Azul: 10 mitos sobre câncer de próstata que ainda confundem os homens (Foto: Magnific)
3. PSA normal garante que não há câncer
Falso. O PSA mede o antígeno prostático específico no sangue e ajuda na investigação, mas não é infalível. Há homens com câncer e valores considerados normais, e outros com PSA alto por aumento benigno da próstata ou inflamação. O resultado precisa ser lido junto com idade, histórico familiar e demais fatores.
4. Todo câncer de próstata precisa de cirurgia
Falso. Nem todo tumor exige operação ou tratamento imediato. Em alguns casos de baixo risco, a vigilância ativa, com exames e avaliações periódicas, pode ser a estratégia. Dependendo do perfil da doença e do paciente, entram também radioterapia, HIFU (ultrassom focal de alta frequência), tratamento hormonal e outras abordagens.
“O mais importante é entender que não existe uma única abordagem adequada para todos os pacientes. A decisão deve considerar o estágio da doença, as características do tumor, a saúde geral do homem e os possíveis impactos de cada tratamento. A tecnologia é uma aliada, mas a indicação correta continua sendo fundamental”, ressalta Fernando.
5. Cirurgia de próstata sempre causa impotência
Falso. A disfunção erétil é um efeito possível da retirada da próstata, e não uma regra. Técnicas como a cirurgia robótica aumentam a precisão e podem ajudar a preservar nervos ligados à ereção quando isso for seguro do ponto de vista oncológico. A robótica oferece visão ampliada e tridimensional e movimentos mais delicados dos instrumentos, mas não zera o risco. Idade, qualidade das ereções antes da operação, volume, agressividade e localização do tumor, além da experiência da equipe, influenciam a recuperação.
“A cirurgia robótica oferece ao cirurgião uma visão ampliada da região operada e instrumentos que permitem executar movimentos precisos. Esses recursos são importantes no tratamento do câncer de próstata, especialmente quando o objetivo é remover o tumor e preservar, sempre que possível e com segurança, as estruturas responsáveis por funções importantes para a qualidade de vida do paciente (continência urinária e função erétil)”, explica Fernando.
Na prostatectomia radical assistida por robô, a próstata e as vesículas seminais são retiradas; em alguns casos, também linfonodos. Em relação à cirurgia aberta tradicional, a técnica minimamente invasiva costuma reduzir perda de sangue, dor, tempo de internação e infecções, com retorno mais precoce às atividades. Ainda assim, incontinência e disfunção erétil podem ocorrer.
“A preservação dessas estruturas é um aspecto importante do planejamento cirúrgico. No entanto, ela depende da localização e da extensão do tumor, além das condições de cada paciente. Por isso, é fundamental avaliar cada caso individualmente”, destaca o urologista.
6. Sem histórico familiar, o homem está livre da doença
Falso. Pai ou irmão com câncer de próstata elevam o risco, sobretudo quando o diagnóstico veio cedo. Muitos homens diagnosticados, porém, não têm casos conhecidos na família. O envelhecimento é um dos principais fatores de risco, e alterações genéticas hereditárias também elevam a probabilidade.
7. Andar de bicicleta provoca câncer de próstata
Falso. Não há evidências científicas consistentes de que pedalar cause o tumor. A pressão do selim no períneo pode gerar desconforto e, em certas situações, interferir temporariamente em sintomas ou avaliações, sem favorecer o surgimento da doença. Exercício físico regular segue recomendado para a saúde geral.
8. Câncer de próstata só aparece depois dos 60 anos
Falso. A doença é bem mais frequente em homens mais velhos, mas também atinge quem tem menos de 60 anos. Casos em homens muito jovens são raros e costumam aparecer quando há fatores hereditários. A avaliação do risco individual leva em conta histórico familiar e outras características, não só a idade.
9. Próstata aumentada é sinônimo de câncer
Falso. A hiperplasia prostática benigna é comum com o envelhecimento e não significa câncer. Pode causar jato urinário fraco, dificuldade para iniciar a micção e idas noturnas ao banheiro. As duas condições podem coexistir no mesmo paciente, mas são doenças diferentes, e a hiperplasia não é considerada lesão precursora do tumor.
10. Quem retirou a próstata nunca mais terá orgasmo
Falso. Muitos homens continuam capazes de ter orgasmo depois da prostatectomia radical, embora a experiência mude. Como próstata e vesículas seminais saem na cirurgia, grande parte do líquido seminal deixa de ser produzida e o orgasmo ocorre sem saída de sêmen, o chamado orgasmo seco. Ereção e orgasmo são respostas distintas do organismo. A recuperação sexual varia e pode incluir acompanhamento e tratamentos específicos.
Resumo: O INCA estima 77.920 novos casos anuais de câncer de próstata no Brasil entre 2026 e 2028. A doença pode avançar sem sintomas, e mitos sobre PSA, vasectomia, bicicleta, idade, cirurgia e sexualidade afastam homens do cuidado. Nem todo tumor precisa de operação, a vigilância ativa existe em casos selecionados, e a cirurgia robótica amplia opções sem eliminar riscos. A conversa com o urologista define exames e tratamento caso a caso.
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