Leitura na infância: como os livros podem apoiar o desenvolvimento e o bem-estar das crianças

A leitura pode fazer parte do cuidado com o desenvolvimento infantil desde os primeiros anos. Para a escritora e jornalista Isa Colli, autora de mais de 40 obras voltadas à literatura infantil e juvenil, o contato com histórias amplia as experiências das crianças e pode estimular a linguagem, a imaginação e a compreensão das emoções. O ponto de partida, segundo ela, é apresentar os livros de um jeito prazeroso, sem transformar cada leitura em uma obrigação.

A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro e divulgada em 2024, classificou 47% dos brasileiros como leitores. O levantamento registrou queda de aproximadamente 6,7 milhões de leitores em relação à edição anterior. A pesquisa considera leitor quem teve contato com pelo menos um livro, inteiro ou em partes, nos três meses anteriores à entrevista.

Na infância, os livros podem contribuir para a formação e o bem-estar. Ao acompanhar narrativas, as crianças entram em contato com palavras e situações diferentes, imaginam cenários e observam as escolhas dos personagens. Esse percurso pode ampliar o vocabulário, exercitar a criatividade e abrir espaço para conversar sobre sentimentos.

Uma experiência que desperta curiosidade

Para Isa Colli, a relação com a leitura começa quando a criança encontra uma história ligada a seus interesses. Humor, aventura, personagens identificáveis e situações que provoquem perguntas podem tornar o livro convidativo. O prazer de ler também pode surgir quando a criança escolhe uma obra e tem liberdade para explorá-la.

“A criança precisa descobrir que ler pode ser uma experiência divertida. Quando encontra uma história que desperta sua curiosidade, que a faz rir, imaginar e se identificar com os personagens, ela começa a criar uma relação afetiva com os livros. É esse vínculo que queremos ajudar a construir”, avalia Isa Colli.

A escritora chama atenção para a forma como os livros são apresentados. Quando aparecem apenas ligados a exercícios, provas e tarefas, a leitura pode ser percebida como obrigação. Momentos livres permitem descobrir histórias pelo prazer da narrativa, sem a expectativa de responder a perguntas ou aprender uma lição a cada página.

Foto: Divulgação

Literatura, escola e comunidade

Essa preocupação também orienta iniciativas editoriais que procuram aproximar literatura, escola e comunidade. Uma delas é o Programa LEIA, da Colli Books, que organiza acervos literários em torno de temas como meio ambiente, inclusão, convivência, diversidade cultural e identidade. A proposta é oferecer aos educadores diferentes histórias e possibilidades de abordar assuntos importantes para a formação humana e social dos estudantes.

Para Isa Colli, a literatura pode favorecer conversas sem apresentar respostas prontas. Histórias com conflitos, descobertas e personagens diversos permitem observar situações por diferentes perspectivas. A autora também defende preservar a liberdade de imaginar e questionar.

“O livro não precisa trazer todas as respostas nem ensinar uma lição a cada página. Ele também pode provocar perguntas, oferecer conflitos, despertar sentimentos e abrir espaço para conversas. Quando uma criança termina uma história querendo contar o que sentiu ou saber o que acontece depois, já estamos dando um passo importante na formação de um leitor”, observa Isa Colli.

Pequenos momentos em família

O incentivo pode começar em casa. Pais e responsáveis podem reservar alguns minutos para ler com as crianças, contar histórias antes de dormir e permitir que elas escolham livros de seu interesse. Ouvir a criança, conversar sobre a história e acolher suas perguntas cria uma oportunidade de troca, sem transformar o momento em aula.

A leitura compartilhada também oferece um momento de convivência entre adultos e crianças. Cada família pode encontrar o formato que funciona melhor: ler junto, recontar uma história ou deixar que a criança folheie o livro e conte o que imaginou.

Bibliotecas também podem ser espaços de acolhimento e descoberta. Entre obras variadas, cada criança pode encontrar temas ligados às próprias curiosidades. Escola, família e comunidade podem colaborar para manter os livros presentes no cotidiano.

Um hábito construído com liberdade

Os dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil reforçam a importância de ampliar o contato com livros. Para Isa Colli, formar leitores também envolve criar experiências que despertem interesse e respeitem as escolhas de cada criança. Desenvolver uma relação afetiva com as histórias faz parte desse caminho.

Quando entra na rotina de maneira leve, a leitura pode acompanhar a criança em diferentes fases da vida. Histórias podem estimular imaginação e curiosidade. Para Isa Colli, terminar um livro com vontade de compartilhar o que sentiu ou descobrir outra história é um passo na formação de uma leitora.