Sete em cada dez brasileiros (71%) sabem que embutidos e carnes processadas aumentam o risco de câncer, e 66% dizem o mesmo dos ultraprocessados. Com a carne vermelha, o reconhecimento cai para 28%, mais de 40 pontos percentuais abaixo. Para comparar, cerca de 91% apontam o tabagismo como fator de risco para a doença.
Os números estão na nota técnica “Conhecimento sobre alimentação e risco de câncer”, feita a partir da pesquisa Mais Dados Mais Saúde, da Umane e da Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive e contribuição técnica do Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Como a pesquisa foi feita
Foram ouvidas 6.566 pessoas de 18 anos ou mais entre 24 de setembro e 31 de outubro de 2025, em levantamento digital de alcance nacional. Os dados foram ponderados por sexo, idade, raça/cor e escolaridade, com base no Censo 2022 do IBGE e na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019.
Por que a carne vermelha entra na conta
O INCA estima 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028, e cerca de 40% poderiam ser evitados com mudanças de comportamento e de exposição ambiental. A alimentação é uma das frentes dessa prevenção.
De acordo com as evidências científicas, comer mais de 500 g de carne vermelha por semana está associado a maior risco de câncer de intestino. No país, esse é o segundo tipo mais comum entre homens e mulheres, com estimativa de 54 mil casos novos por ano.
Saber do risco aparece ligado ao prato: entre quem reconhece a relação entre carne vermelha e câncer, 62% dizem tentar reduzir o consumo. Entre quem não reconhece, são 34%.
“É importante que a população conheça os riscos e a diferença entre esses fatores. Enquanto qualquer quantidade de embutidos e ultraprocessados já é potencialmente prejudicial, as carnes vermelhas apresentam um limite de maior segurança relacionada à quantidade”, diz Luciana Grucci Maya Moreira, chefe da Área Técnica de Alimentação, Nutrição, Atividade Física e Câncer do INCA.
Ela acrescenta que bebidas adoçadas e ultraprocessados favorecem o excesso de peso, fator associado a vários tipos de câncer. Sobre as bebidas com adoçante artificial, as evidências indicam que o aspartame possivelmente aumenta o risco da doença, sem ajudar de fato no controle do peso. Pelo princípio da precaução, o INCA desaconselha os adoçantes artificiais.
O que o INCA recomenda
Além de limitar a carne vermelha, o instituto orienta evitar ultraprocessados, bebidas adoçadas, embutidos e carnes processadas. Do lado da proteção, a recomendação é comer pelo menos cinco porções (400 gramas) de frutas, legumes e verduras por dia.
Jovens concentram os hábitos de risco
A idade pesa nas escolhas. Entre adultos de até 24 anos, 32% consomem ultraprocessados sem tentar diminuir, contra 4% das pessoas com 60 anos ou mais. A diferença se repete com embutidos e carnes processadas (30% contra 6%), bebidas adoçadas (24% contra 7%) e carne vermelha (49% contra 27%).
Mesmo quando idade, renda e conhecimento são analisados em conjunto, quem tem 60 anos ou mais apresenta cerca de 80% menos chance de manter comportamentos alimentares de risco do que os jovens de até 24 anos.
“Um dos dados que mais preocupam é o dos jovens. São eles que mais consomem ultraprocessados, embutidos e carne vermelha sem tentar reduzir, e os hábitos formados agora vão pesar na saúde das próximas décadas. Prevenir câncer passa por olhar para essa geração com estratégias que falem a língua dela e por políticas públicas que facilitem o acesso a uma alimentação adequada e saudável”, afirma Evelyn Santos, nutricionista e gerente de Investimento e Impacto Social da Umane.
Informação ajuda, e preço também pesa
Conhecer os riscos se reflete no comportamento. Considerando cinco fatores alimentares (ultraprocessados, embutidos ou carnes processadas, bebidas adoçadas, carne vermelha e pouco consumo de frutas, legumes e verduras), quem reconhece quatro ou cinco deles como ligados ao câncer tem cerca de 45% menos chance de manter hábitos de risco do que quem conhece no máximo um.
“Mas é importante lembrar que, embora a informação seja fundamental, ela sozinha não é suficiente para mudar o que vai ao prato. Outros fatores também influenciam essas escolhas, como preço e disponibilidade”, pondera Luciana Vasconcelos Sardinha, diretora adjunta de Doenças Crônicas não Transmissíveis da Vital Strategies.
Ela defende políticas públicas integradas, com regulação da publicidade, tributação de produtos nocivos e medidas para baratear e ampliar a oferta de alimentos in natura, de modo que a alimentação saudável fique mais acessível.
Resumo: Só 28% dos brasileiros sabem que o excesso de carne vermelha aumenta o risco de câncer, contra 71% que reconhecem o risco dos embutidos, segundo nota técnica da pesquisa Mais Dados Mais Saúde, com 6.566 entrevistados. Mais de 500 g por semana estão associados a câncer de intestino, e os jovens concentram os hábitos de risco.
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