Se visitar Gramado está nos seus planos, é bem provável que o seu roteiro esteja recheado de clássicos. Afinal, o destino reúne tantas atrações conhecidas que nem é preciso se planejar muito para saber que, em algum momento, elas vão entrar na lista de “o que fazer”.
Snowland, Mini Mundo, Rua Torta, Lago Negro… os clássicos estão por toda parte – e sim, valem a visita pelo menos uma vez. No entanto, foi um lado menos óbvio da cidade que acabou me fisgando de vez.
Entre o esperado e o surpreendente, encontrei uma Gramado mais sensorial. Uma cidade que se revela pelo paladar, mas também pelas histórias por trás dele: vinícolas familiares que apostam em visitas intimistas, fábricas de chocolate que transformam tradição em processo aberto e propriedades rurais que combinam produção e paisagem.
A seguir, quatro atrações gastronômicas que mostram um lado da cidade que nem sempre entra no roteiro tradicional:
1. Vinícola Ravanello
Embora o protagonismo do vinho na Serra Gaúcha costume recair sobre destinos como Bento Gonçalves, Gramado também vem consolidando seu espaço no enoturismo. Nesse cenário, a Vinícola Ravanello se destaca: foi ali que fiz uma visita guiada bastante simples, mas que acabou chamando atenção pela proximidade entre o local e o visitante.
Logo na chegada, o edifício amarelo, com detalhes em pedra, antecipa o clima do lugarCecília Carrilho/Arquivo pessoal
A vinícola boutique fica bem em frente ao Snowland, e dá até para combinar as duas visitas no mesmo dia. Com ar acolhedor, a sensação de fazer parte de algo acompanha toda a visita. Inclusive, caso chegue com tempo de sobra, aproveite para descansar no gramado com cadeiras feitas de barricas.
O gramado convida ao descanso com móveis de barricasCecília Carrilho/Arquivo pessoal
A vinícola é bastante pequena. Ou seja, para chegar até os vinhedos não há necessidade de pegar uma carona sob rodas, basta dar alguns passos. Lá, ouvi histórias da produção e do cultivo, que utiliza o sistema de condução vertical, favorecendo a exposição solar e a qualidade dos vinhos.
As roseiras servem como uma espécie de sentinela, indicando com antecedência a presença de pragas que possam afetar as videirasCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Em determinado momento, um dos viticultores passou pelo meu grupo e falou sobre o processo com um envolvimento tão genuíno, que o vinho passou a soar como filosofia.
Os cachos de uva chegam a brilhar!Cecília Carrilho/Arquivo pessoal
Depois dos vinhedos, entrei para conhecer onde os vinhos são armazenados e fermentados. Com produção de cerca de 40 mil garrafas por ano, dos tanques de aço inoxidável às barricas de carvalho francês, há um controle técnico rigoroso.
Os vinhos são elaborados em tanques verticais, com controle automatizado de temperaturaCecília Carrilho/Arquivo pessoal
A degustação acontece na parte final, em uma sala charmosa, com mesas postas. Entre queijos, castanhas e chocolate, provei cinco rótulos da casa – entre eles, o Blend Regiões 3ª edição. As explicações são feitas sem formalidade excessiva, e a conversa flui entre o grupo, que arrisca palpites sobre aromas e sabores.
Chegou o tão aguardado momento da degustaçãoCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Inclusive, foi ali que vivi uma das cenas mais inesperadas da visita, quando o sommelier perguntou quem gostaria de abrir a garrafa. Eu, com poucas papas na língua, soltei um “vish” quase automático – e acabei escolhida. Entre risadas, consegui dar conta do recado e, depois da minha batalha contra a rolha (e meus braços pouco malhados), a taça foi servida.
Ao final, passei pela lojinha com os rótulos da casa. A visita guiada dura cerca de duas horas e acontece em grupos de até 25 pessoas.
Onde? Rodovia ERS-235 Pórtico, Gramado – RS, 95674-230.
Quando? Segunda a sexta-feira, às 10h ou 15h. Aos sábados, às 11h e 15h30.
Quanto? R$ 150 por pessoa.
2. Miroh!
O chocolate é bastante reconhecido em Gramado. Não por acaso, a cidade carrega o título de “capital brasileira do chocolate artesanal”, com marcas que permitem acompanhar de perto a produção das barras – como acontece na Miroh! Fábrica de Chocolate.
A Miroh é parada obrigatória para fãs de chocolateCecília Carrilho/Arquivo pessoal
O espaço do ateliê pode não ser muito grande, mas reúne sabores que contam uma história que até parece antiga, embora a marca seja recente. A primeira loja foi inaugurada em 2020 e, no ano seguinte, surgiu o ateliê com cafeteria ao lado do Lago Negro, que tive a chance de visitar.
Por trás da marca está o chef chocolatier Ricardo Campos, que trouxe para Gramado a proposta de um chocolate mais autoral. A Miroh trabalha com o conceito bean-to-bar, controlando todas as etapas da produção. Em pouco tempo, esse trabalho já rendeu reconhecimento internacional, com prêmios no International Chocolate Awards, o “Oscar do chocolate”.
Os prêmios estão expostos dentro da MirohCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Não há grandes burocracias para conhecer o local. Bastou entrar no espaço para que a fábrica-loja se revelasse para mim. Separada apenas por vidros, acompanhei parte da produção, com o chocolate escorrendo nos moldes e as etapas que transformam o cacau em barra acontecendo ali, quase ao alcance das mãos.
Acompanhei todo o processo por trás dos vidrosCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Ao final, pude degustar alguns chocolates da marca, bastante deliciosos, diga-se de passagem. O tour e a degustação acontecem de forma gratuita e rápida, basta chegar na loja. Ainda assim, é difícil sair da Miroh sem comprar nada. Eu mesma não resisti: fui embora com algumas barras, incluindo versões com café e, claro, uma do meu favorito, o dark 70%.
É impossível sair de mãos vazias da MirohCecília Carrilho/Arquivo pessoal
O espaço abriga também uma cafeteria do lado de fora, com menu que inclui trufas, fondue, croissants e chocolate quente. O destaque, no entanto, vai para a vista do Lago Negro, onde é possível observar os pedalinhos em formato de cisne deslizando na água.
Essa foi a vista que eu tive do Lago Negro da cafeteria!Cecília Carrilho/Arquivo pessoal
Onde? R. da Carrieri, 974 – Planalto.
Quando? De quarta a segunda-feira, das 9h30 às 18h (fechado às terças-feiras).
Quanto? Gratuito.
3. Prawer Chocolates
Dentro do estabelecimento de fachada branca, que carrega com orgulho o título de primeiro chocolate artesanal do Brasil, acontece uma visita guiada com degustação simples – e com menos segredos do que eu imaginava.
Espaço que guarda loja e fábrica carrega também a história da PrawerCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Logo na entrada, fui recebida por uma cafeteria com vitrines de sorvetes e doces. Como a história da marca começa lá em 1975, o espaço também funciona quase como uma pequena linha do tempo: embalagens antigas, objetos e referências ajudam a entender como a Prawer foi se consolidando na cidade. Antes do tour, ainda passei pela loja com chocolates de todos os tipos e formatos.
Como visitei perto da Páscoa, a decoração temática dominava o ambiente, com coelhos e criações sazonaisCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Com o horário se aproximando, recebi uma touca e segui com o grupo. Logo na entrada da fábrica, uma funcionária explicou as regras: nada de fotos ou vídeos dali em diante, tanto pelos segredos industriais quanto pelo direito de imagem dos funcionários.
A parte da fábrica em si é rápida e direta, sem grandes revelações. Percorri alguns corredores observando a produção por trás de vidros, acompanhando etapas que vão do preparo do chocolate até a embalagem, que é feita manualmente. Não espere nada mirabolante, a visita funciona mais como uma observação do processo, com alguns fatos curiosos.
A visita termina, como não poderia deixar de ser, na degustação. Em uma sala separada, com registros liberados, me sentei com o grupo enquanto uma especialista conduzia a experiência. A proposta é simples: entender o chocolate na prática, começando pelos mais suaves e avançando até os mais intensos. Provei cinco versões, do branco e caramélisé até chegar ao amargo com 73% de cacau. No final, pude provar também um bombom de avelã, mais denso.
A degustação acontece numa sala bem iluminada, com água à disposiçãoCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Onde? Av. das Hortênsias, 4100 – Estrada Gramado, Canela.
Quando? Visitação pela manhã, às 9h30, 10h10 e 10h50; e à tarde, às 13h20, 14h05, 14h50, 15h35 e 16h20.
Quanto? Segunda a sexta-feira por R$ 69 (inteira) e R$ 34,50 (meia). Sábados, domingos e feriados por R$ 59 (inteira) e R$ 29,50 (meia).
4. Vinícola Casa Seganfredo
A Vinícola Seganfredo segue uma lógica parecida com a da Ravanello: pequena, familiar e com a sensação de que tudo acontece em um ritmo próprio. Entre vales e morros, a propriedade de 16 hectares – com cerca de 5 hectares dedicados às videiras – cria aquele tipo de paisagem que parece mais ser um refúgio do que um negócio.
Estive por lá no último dia da vindima, quando a programação ganha um charme extra. No deck com vista para os parreirais, uma apresentação de ópera acompanhada por piano tomava conta da tarde.
Com vista para os vinhedos, a música tornou a tarde bastante cinematográficaCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Depois, caminhei sem muita pressa pelos arredores. Além de vinhedos, a propriedade conta com um lago e alguns patos circulando livremente pela área, num silêncio que contrasta bastante com o burburinho do centro de Gramado.
Como sou um pouco medrosa, mantive uma distância segura dos patosCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Para quem visita fora de eventos sazonais, a principal forma de conhecer a vinícola é o tour guiado. O roteiro começa com uma caminhada pela propriedade, passa pela área de produção – onde são explicados os processos de elaboração dos vinhos e espumantes – e termina na degustação de seis rótulos da casa. Com produção enxuta, de cerca de 10 mil garrafas por ano, a proposta da casa é preservar o cuidado em cada etapa.
Fileiras de videiras desenham a paisagemCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Onde? Linha Belvedere, Rua Idalina, Est. Serra Grande, Sweizer, 600.
Quando? Visitação com degustação de segunda-feira a sábado, às 9h, 11h, 13h e 15h.
Quanto? Visitação com degustação por R$ 130 (ou R$ 150 com porção de queijos).
Leia o guia completo de Gramado
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