OpenAI: depoimento de Mira Murati traz bastidores da saída de Sam Altman

Acompanhe a cobertura completa do caso Elon Musk vs OpenAI

O depoimento da ex-diretora de tecnologia da OpenAI, Mira Murati, trouxe novos detalhes sobre os bastidores da demissão de Sam Altman do comando da empresa em novembro de 2023.

As informações vieram à tona por meio de testemunhos e documentos apresentados no processo Elon Musk vs. Altman, oferecendo pela primeira vez uma visão concreta sobre os acontecimentos que abalaram a indústria de inteligência artificial (IA) durante o feriado de Ação de Graças nos Estados Unidos.

Na época, Altman foi abruptamente removido do cargo de CEO da OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT. O conselho de administração justificou a decisão, afirmando que o executivo “não era consistentemente sincero em suas comunicações com o conselho”.

A crise rapidamente se transformou em um dos episódios mais turbulentos da indústria de IA. O anúncio da demissão foi publicado em um comunicado vago no site da OpenAI, desencadeando especulações nas redes sociais.

Segundo os relatos apresentados posteriormente, as preocupações envolviam um suposto padrão de omissões e informações enganosas por parte de Altman, incluindo questões ligadas aos processos de segurança da OpenAI, sua participação no fundo de startups da empresa e o lançamento de ferramentas, como o ChatGPT.

Enquanto executivos da OpenAI e líderes do setor manifestavam apoio público ao retorno de Altman, centenas de funcionários iniciaram uma campanha online em defesa do executivo. Muitos publicaram corações nas redes sociais e a frase “OpenAI não é nada sem seu pessoal”.

Murati e seu depoimento no “duelo” Musk contra OpenAI e Altman

No centro da crise estava Mira Murati. Inicialmente, ela foi nomeada CEO interina da OpenAI, mas pouco depois cedeu o posto para Emmett Shear, ex-executivo da Twitch. Dias depois, Altman retornaria ao comando da empresa, enquanto o conselho responsável por sua saída acabaria praticamente dissolvido;

Embora Murati tenha apoiado publicamente a volta de Altman, relatos posteriores indicaram que ela teve papel importante no processo que levou à demissão do executivo;

Segundo os documentos apresentados no julgamento, Murati teria iniciado discussões internas sobre preocupações envolvendo Altman e encaminhado informações ao cofundador Ilya Sutskever, incluindo capturas de tela, registros de mensagens de texto e alegações de má gestão durante a passagem de Altman pela Y Combinator;

Sutskever teria levado essas preocupações ao conselho da OpenAI em um memorando de 52 páginas;

Durante seu depoimento, a ex-integrante do conselho Helen Toner afirmou que as preocupações levantadas por Murati e Sutskever reforçaram as inquietações já existentes entre os diretores, relacionadas a um padrão de engano, à “resistência” de Altman à supervisão do conselho e à suposta “manipulação” de processos internos.

Em 16 de novembro de 2023, quatro membros do conselho da OpenAI — Helen Toner, Ilya Sutskever, Adam D’Angelo e Tasha McCauley — assinaram por unanimidade um documento encerrando o vínculo empregatício de Altman com a empresa e nomeando Murati como CEO interina.

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Mira Murati era diretora de tecnologia da OpenAI na época da demissão – Imagem: Reprodução/LinkedIn

Reviravolta

Apesar de seu envolvimento nos acontecimentos que antecederam a saída de Altman, Murati rapidamente passou a apoiar sua reintegração. Mensagens de texto trocadas entre Murati e Altman ao longo de 14 horas, entre a noite de domingo e a manhã de segunda-feira, mostram os dois discutindo a possibilidade de retorno do executivo à OpenAI.

Em uma das mensagens, Altman afirmou que Adam D’Angelo estava “tentando fazer o conselho concordar com uma configuração”, mas que ele e Satya Nadella (CEO da Microsoft) haviam dito que isso “não funcionava” e que precisavam começar a preparar um “plano B”.

Por volta das 2h30 da manhã de segunda-feira (hora local), Altman perguntou a Murati se a situação caminhava em uma direção positiva ou negativa, dizendo que “Satya e outros” estavam ansiosos. Murati respondeu: “A direção é péssima. Sam, isso é muito ruim.”

Altman então pediu para participar da reunião do conselho, mas Murati disse que os diretores não queriam sua presença. Na sequência, Altman escreveu: “O que você quer para melhorar a situação? Ainda estou disposto a simplesmente desistir se isso ajudar. Se eles estão se preparando para processos judiciais absurdos contra mim, então não sei o que fazer.”

Murati respondeu que o conselho estava convencido da decisão de afastá-lo da companhia. “Eles me explicaram todos os motivos e problemas relacionados a você e por que você não pode ser CEO”, afirmou.

Altman questionou então por que o conselho vinha dizendo durante todo o fim de semana que queria seu retorno. Murati respondeu: “Eles querem ter um novo CEO empossado ainda hoje (não eu).” Quando Altman perguntou quem seria o novo executivo, Murati respondeu: “O novato é um cara aleatório do Twitch”, em referência a Emmett Shear. Murati também disse a Altman que esperava que Satya Nadella pudesse “desfazer” a situação.

Durante os dias 17 e 20 de novembro, Murati também trocou mensagens com Nadella, um dos principais apoiadores de Altman durante a crise. Nadella chegou a oferecer a contratação de todos os funcionários da OpenAI pela Microsoft para trabalharem sob liderança de Altman.

Em uma das mensagens, Murati afirmou que não colocaria “seu nome nisso”, aparentemente em referência a um comunicado do conselho que defendia a decisão de afastar Altman como “o único caminho para avançar e defender a missão da OpenAI”.

O comunicado afirmava ainda que “o comportamento de Sam e sua falta de transparência em suas interações com o conselho comprometeram a capacidade do conselho de supervisionar efetivamente a empresa”.

Poucos dias depois, mais de 750 funcionários da OpenAI assinaram uma carta direcionada ao conselho ameaçando deixar a companhia e se juntar à nova subsidiária criada pela Microsoft para abrigar Altman e Greg Brockman, atual presidente da OpenAI.

“O processo pelo qual vocês demitiram Sam Altman e removeram Greg Brockman do conselho colocou em risco todo esse trabalho e prejudicou nossa missão e empresa”, dizia a carta. A primeira assinatura do documento era justamente a de Mira Murati.

Outro trecho da carta destacava que o conselho havia substituído Murati do cargo de CEO interina “contra os melhores interesses da empresa”.

No entanto, segundo o depoimento de Helen Toner, Murati teria dito ao conselho que não queria permanecer como CEO interina sem que a decisão de afastar Altman fosse “legitimada”. Toner afirmou que Murati “não parecia entender, deliberadamente ou não, que ela própria tinha um papel fundamental em legitimar essa decisão”.

“Ela estava esperando para ver para que lado o vento sopraria, e não percebeu que ela era o vento”, afirmou Toner. A ex-conselheira também declarou que Murati foi “notavelmente pouco solidária” e “surpreendentemente passiva” após a saída de Altman.

“Ela parecia totalmente desinteressada em dizer à sua equipe que suas conversas conosco tinham sido um fator significativo em nossa decisão de demitir Sam”, disse Toner.

Satya Nadella foi um dos principais apoiadores de Altman durante o período em que ele esteve fora da OpenAI – Imagem: FotoField/Shutterstock

Nas mensagens trocadas entre Murati e Altman, o executivo perguntou se era hora de enviar ao conselho a carta assinada pelos funcionários. Murati respondeu que isso “não faria diferença” e que os membros do conselho “não se importavam se todos pedissem demissão”, apenas não queriam Altman “com a mão na IAG [inteligência artificial geral]”.

Altman também perguntou se Adam D’Angelo sabia que Murati o havia recontratado, e ela respondeu que sim. Na manhã de 20 de novembro, Murati enviou mensagem ao diretor de tecnologia da Microsoft, Kevin Scott, afirmando que estavam “perto de fazer o conselho renunciar”. Scott respondeu: “Desta vez é para valer?” Murati respondeu: “Parece que sim. Ilya assinou nossa petição.”

Mais tarde naquela manhã, Murati pediu a Nadella que fizesse uma declaração pública apoiando a equipe conjunta da OpenAI. Segundo ela, era importante evitar perder pesquisadores para “Demis ou Elon”, em referência a Demis Hassabis e Elon Musk.

Os documentos apresentados no julgamento também incluíram um texto escrito por Murati em 30 de setembro de 2022, no qual ela listava críticas à gestão de Altman. Ela afirmou que o “pânico constante” em torno de projetos, metas e equipes gerava “caos” e alta rotatividade.

Murati escreveu ainda que, embora a OpenAI falasse em foco, na prática a abordagem era “fazer tudo e fazer rápido”, devido às mudanças constantes de prioridades. Ela também criticou o desalinhamento entre Altman e a equipe executiva sobre a importância da divisão de IA aplicada e pediu que o CEO discutisse suas preocupações diretamente com ela.

“Não quero descobrir por terceiros… É uma oportunidade perdida para resolvermos questões importantes para a empresa e isso prejudica a liderança da empresa quando você faz isso”, escreveu.

No mesmo documento, Murati afirmou que “fazer o que os usuários querem não está no DNA da OpenAI” e mencionou que uma das metas mais citadas da empresa era gerar US$ 100 milhões (R$ 494,5 milhões) em receita.

Segundo ela, Altman defendia que “não importava como chegássemos a esse número, precisávamos chegar lá”. Murati também afirmou que uma das principais soluções para os problemas seria que Altman buscasse mais informações e utilizasse canais oficiais para propor mudanças.

“Frequentemente ouço de vocês duas coisas simultaneamente, que me parecem contraditórias: (1) Não estamos avançando rápido o suficiente ou alguma área ou pessoa específica está falhando; e (2) Vocês não sabem o que está acontecendo, então podem estar enganados”, escreveu.

“Quando houver dúvidas sobre como as coisas estão indo ou a sensação de que não vão bem, vá diretamente até Mira para obter informações e realizar análises detalhadas até que esteja satisfeito por compreender a situação”, acrescentou.

Em seu depoimento apresentado no julgamento, Murati afirmou que mantém suas críticas a Altman e disse que suas preocupações eram “completamente relacionadas à gestão”.

“Eu tinha um trabalho incrivelmente difícil em uma organização muito complexa. Eu estava pedindo que Sam liderasse, liderasse com clareza e não prejudicasse minha capacidade de fazer meu trabalho”, declarou.

Embora Murati não tenha comparecido presencialmente ao tribunal, seu depoimento e os documentos revelados durante o processo se tornaram alguns dos elementos mais marcantes do julgamento envolvendo Musk e Altman.

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