A colossal erupção do vulcão submarino Hunga Tonga-Hunga Ha’apai, no Pacífico Sul, em janeiro de 2022, foi uma das mais violentas dos tempos modernos. Mas o que os cientistas descobriram depois foi ainda mais surpreendente: o próprio vulcão limpou parte da poluição por metano que gerou. O fenômeno, recém-detalhado em estudo na Nature Communications, pode inspirar formas de combater o aquecimento global.
O metano é um gás de efeito estufa cerca de 80 vezes mais potente que o CO₂ em um período de 20 anos, sendo responsável por cerca de um terço do aquecimento global atual. Se suas emissões forem reduzidas agora, os efeitos no clima podem ser sentidos em apenas uma década – uma das razões pelas quais os pesquisadores chamam a redução do metano de “freio de emergência” para as mudanças climáticas.
Mas o Hunga Tonga mostrou algo inesperado: ele não apenas liberou metano, como também ajudou a destruí-lo.
A pista do formaldeído
Ao analisar imagens de satélite do instrumento TROPOMI, a bordo do Sentinel-5P da Agência Espacial Europeia, os pesquisadores detectaram concentrações excepcionalmente altas de formaldeído na enorme pluma vulcânica. E o formaldeído é um subproduto de curta duração da decomposição do metano na atmosfera.
“Ficamos surpresos ao ver uma nuvem com uma concentração recorde de formaldeído. Conseguimos rastrear a nuvem por 10 dias, até a América do Sul. Como o formaldeído só existe por algumas horas, isso mostrou que a nuvem deve ter estado destruindo metano continuamente por mais de uma semana”, explica o Dr. Maarten van Herpen, primeiro autor do estudo.
O mecanismo: sal, cinzas e luz solar
A chave para entender o fenômeno veio de uma descoberta anterior da mesma equipe, em 2023, sobre o que acontece no Atlântico. Poeira do Saara carregada pelo vento encontra sal marinho, formando aerossóis de sal de ferro. Quando a luz solar incide sobre essa mistura, átomos de cloro são produzidos, e esses átomos reagem com o metano, decompondo-o.
O Hunga Tonga repetiu o processo em escala estratosférica. A erupção lançou enormes quantidades de água salgada do mar e cinzas vulcânicas a grandes altitudes. A luz solar transformou essa mistura em cloro altamente reativo, que por sua vez destruiu parte do metano emitido.
“O que é novo – e completamente surpreendente – é que o mesmo mecanismo parece ocorrer em uma pluma vulcânica na alta estratosfera, onde as condições físicas são totalmente diferentes”, afirma o professor Matthew Johnson, da Universidade de Copenhague.
Da natureza para a indústria
Os pesquisadores acreditam que a descoberta pode inspirar engenheiros a tentar replicar o fenômeno artificialmente – acelerando a decomposição do metano na atmosfera como forma de desacelerar o aquecimento global. Vários métodos estão sendo estudados, mas o grande desafio sempre foi medir e verificar quanta remoção de metano está realmente ocorrendo.
“Como provar que o metano foi removido da atmosfera? Como saber se o método funciona? É muito difícil. Mas aqui abordamos esse problema mostrando que a decomposição do metano pode, de fato, ser observada por meio de satélites”, afirma o Dr. Jos de Laat, do Instituto Meteorológico Real dos Países Baixos.
“A coleta de formaldeído pelo TROPOMI em uma pluma vulcânica estratosférica está muito além das condições operacionais padrão do instrumento”, acrescentou a Dra. Isabelle De Smedt, do Instituto Real Belga de Aeronomia Espacial. “Tivemos que corrigir cuidadosamente a sensibilidade do satélite para a altitude incomum do sinal e levar em conta a interferência das altas concentrações de dióxido de enxofre.”
Os cientistas são cautelosos – qualquer intervenção humana precisará ser comprovada como segura e eficaz. Mas, pela primeira vez, há uma maneira de monitorar, do espaço, se a decomposição artificial de metano está funcionando. E a ideia partiu de um vulcão que, violentamente, limpou a própria sujeira.
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