Um artigo publicado este mês na revista Astronomy & Astrophysics revela como um pulsar distante ajudou cientistas a enxergar estruturas invisíveis espalhadas pelo espaço interestelar.
A pesquisa utilizou uma técnica inédita para analisar a cintilação das ondas de rádio emitidas por esse objeto extremo, permitindo identificar detalhes nunca observados diretamente nessa região do Universo.
Em resumo:
Pulsar revelou estruturas invisíveis espalhadas pelo espaço interestelar;
Ondas de rádio sofreram distorções atravessando gás entre estrelas;
Cientistas observaram pulsar alongado, diferente do formato circular esperado;
Estruturas podem ser filamentos finos alinhados no meio interestelar;
Radiotelescópios FAST e Effelsberg permitiram observação extremamente detalhada.
O fenômeno estudado lembra o brilho tremeluzente das estrelas visto da Terra durante a noite. Esse efeito acontece porque a luz atravessa diferentes camadas da atmosfera terrestre, que possuem variações de temperatura e densidade. Essas mudanças desviam a luz e fazem as estrelas parecerem piscar. No caso dos pulsares, algo parecido ocorre com as ondas de rádio enquanto elas atravessam o gás rarefeito existente entre as estrelas.
Posições dos telescópios observadas a partir do pulsar durante o período de monitoramento. As cores indicam o tempo transcorrido desde o início das observações. Também são mostradas as posições das massas terrestres no começo (azul) e no fim (vermelho) do estudo, além da linha de base entre os telescópios – Crédito: Astronomy & Astrophysics (2026)
O que é um pulsar
Os pulsares são restos extremamente compactos de estrelas gigantes que explodiram em supernovas. Mesmo concentrando uma massa semelhante à do Sol, eles possuem tamanho equivalente ao de uma grande cidade. Esses objetos giram rapidamente e emitem feixes de ondas de rádio em intervalos regulares, funcionando quase como faróis cósmicos. Quando essas ondas passam pelo meio interestelar, acabam sofrendo distorções provocadas pelas partículas espalhadas no espaço.
Esse efeito é chamado de cintilação interestelar. Ele altera o brilho dos sinais de rádio e pode até deformar a aparência do pulsar observado pelos telescópios. Os pesquisadores analisaram o pulsar PSR B1508+55, localizado a cerca de 7 mil anos-luz da Terra, na constelação de Draco. Durante as observações, o objeto apareceu esticado em forma de linha, algo considerado bastante incomum pelos cientistas.
Normalmente, os astrônomos esperavam encontrar uma imagem borrada em formato circular, produzida pelas flutuações aleatórias do gás interestelar. Porém, a observação mostrou uma estrutura muito mais organizada. Segundo os pesquisadores, isso pode indicar a presença de filamentos paralelos ou camadas extremamente finas espalhadas pelo espaço, todas alinhadas em uma direção específica.
Pulsares de milissegundos estão sendo usados para descobrir ondas gravitacionais, mas há mais coisas invisíveis que eles podem encontrar – Crédito: Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA
Apesar da descoberta, os cientistas ainda não sabem exatamente qual é a forma dessas estruturas invisíveis. Isso acontece porque elas são muito pequenas em escala astronômica e difíceis de detectar diretamente. Além disso, pequenas irregularidades encontradas ao longo da linha observada sugerem que o meio interestelar pode ser mais complexo do que os modelos atuais conseguem explicar.
Os cálculos feitos pela equipe indicam que a nuvem responsável pela distorção está localizada a aproximadamente 430 anos-luz da Terra. A descoberta ajuda os pesquisadores a entender melhor como o gás e a matéria se distribuem entre as estrelas da galáxia. Essas informações são importantes porque o meio interestelar influencia a formação de novas estrelas e afeta a propagação de sinais de rádio pelo cosmos.
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Maior e mais sensível radiotelescópio do mundo foi usado na pesquisa
Para realizar o estudo, os cientistas utilizaram dois dos maiores radiotelescópios do planeta: o telescópio de Effelsberg, na Alemanha, e o FAST, na China – atualmente o maior e mais sensível radiotelescópio do mundo. A combinação dos dois instrumentos permitiu alcançar uma resolução extremamente alta, impossível para um único telescópio.
A técnica usada aproveitou tanto a enorme distância entre os observatórios quanto o movimento da Terra no espaço. À medida que o planeta se deslocava, os telescópios registravam pequenas diferenças no momento em que detectavam as oscilações do pulsar. Com esses dados, os pesquisadores conseguiram reconstruir uma espécie de imagem das distorções provocadas pelo meio interestelar.
Segundo os autores do estudo, a nova metodologia é mais simples do que outras técnicas avançadas usadas em radioastronomia. Em vez de depender de sistemas gigantescos de processamento, os dados puderam ser combinados em computadores comuns. Após o sucesso da experiência, os cientistas planejam observar outros pulsares para investigar mais detalhes sobre as estruturas invisíveis que existem no espaço entre as estrelas.
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