“Hipopótamos da cocaína”: Colômbia pode sacrificar dezenas de animais

Doradal já foi uma vila quieta às margens do rio Magdalena. Hoje, seus moradores aprenderam a conviver com vizinhos de duas toneladas. Os hipopótamos que vagam pelas ruas e pastam nos jardins são herança direta de Pablo Escobar, que nos anos 1980 trouxe quatro exemplares para seu zoológico particular na Hacienda Nápoles. Hoje os animais são conhecidos como “hipopótamos da cocaína”.

Com a morte do narcotraficante em 1993, a fazenda foi abandonada e os animais escaparam. Na Colômbia, encontraram o paraíso: clima quente, rios cheios e nenhum predador. Quarenta anos depois, são cerca de 200 e já são considerados a única população selvagem da espécie fora da África. A projeção é alarmante: se nada for feito, serão mais de mil até 2035.

“Hipopótamos da cocaína”: ecossistema em xeque

De acordo com uma reportagem do The New York Times, hipopótamos não são nativos e viraram uma praga. Seu esterco polui a água, suas trilhas desfiguram as margens dos rios e eles disputam espaço com espécies locais como peixes-boi e capivaras. Além disso, são imprevisíveis e velozes — correm mais que humanos. Os ataques ainda são raros, mas já deixaram sequelas. Em 2020, um agricultor quase morreu após ser atacado perto de um lago. Em 2023, um acidente na estrada matou um dos animais.

Pescadores reclamam que as redes voltam vazias. Muitos evitam o rio à noite. O medo de uma fatalidade é palpável, e especialistas dizem que é uma questão de tempo até que alguém morra.

Imagem: Shutterstock/Robert Harding Video – Imagem: Shutterstock/Robert Harding Video

Abate ou realocação?

Diante do impasse, o governo colombiano lançou um plano de US$ 2 milhões. A ideia é sacrificar 80 “hipopótamos da cocaína” (por injeção letal ou abate) e tentar transferir outros para zoológicos e reservas no exterior. As autoridades justificam que métodos como castração ou captura são lentos, caros e perigosos.

A decisão dividiu o país. Ambientalistas apoiam a medida para salvar o ecossistema. Grupos de defesa animal se revoltam: os animais não pediram para estar ali. Um empresário indiano ofereceu abrigo em seu parque, mas realocar dezenas de hipopótamos é uma operação de alto risco.

Em Doradal, a opinião também é dividida. Os “hipopótamos da cocaína” viraram atração. Estátuas enfeitam as ruas, e a antiga Hacienda Nápoles, hoje um parque temático, recebe turistas curiosos para ver os animais de perto — evitando a glorificação de Escobar, mas lucrando com sua herança.

Já pescadores e agricultores querem o controle imediato. Para eles, cada animal que se aproxima da margem é uma ameaça real. O dilema colombiano não tem solução fácil: como conter uma invasão que começou com a irresponsabilidade humana, sem desrespeitar a vida que ali se estabeleceu? Enquanto o governo decide, os passos pesados continuam ecoando no escuro.

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