Elon Musk terá um nível de controle incomum sobre a SpaceX após a abertura de capital da empresa. Segundo documentos do IPO divulgados nesta quarta-feira, o executivo continuará acumulando os cargos de CEO, CTO e presidente do conselho da companhia, além de manter mais de 50% do poder de voto.
A estrutura dá a Musk autoridade para indicar diretores e decidir questões que dependam da aprovação de acionistas. No documento enviado a investidores, a própria SpaceX afirma que isso “limitará ou impedirá” a capacidade dos acionistas de influenciar assuntos corporativos e a eleição do conselho.
A empresa também adotou medidas que restringem disputas judiciais de acionistas e passou a operar sob regras mais favoráveis do Texas, estado para onde Musk transferiu a incorporação da Tesla após deixar Delaware.
Estrutura amplia poder de Musk
A SpaceX utilizará uma estrutura de ações de classe dupla. Musk possui 93,6% das ações Classe B com supervoto, que não serão oferecidas ao público no IPO.
Mesmo com a companhia buscando se tornar o maior IPO da história, Musk continuará com mais de metade do poder de voto após a listagem. Isso enquadra a SpaceX como uma “controlled company” nas regras das bolsas americanas, categoria que permite exceções em exigências de supervisão independente.
No prospecto, a empresa afirma que acionistas comuns, donos de ações Classe A, “não terão as mesmas proteções” aplicadas a companhias sujeitas a todas as regras de governança da Nasdaq.
O controle de voto também permitirá que Musk aprove decisões como fusões e aquisições sem precisar convencer outros acionistas. O texto cita, por exemplo, especulações sobre uma possível fusão ou aquisição envolvendo a Tesla.
A situação difere da Tesla, onde Musk possui cerca de 20% do controle de voto e precisou pressionar a empresa nos últimos anos para ampliar sua participação acionária.
Limites para processos judiciais
A professora de direito Ann Lipton, da Universidade do Colorado, afirmou que a SpaceX está reduzindo os principais mecanismos usados por acionistas para pressionar executivos de empresas públicas.
Um deles é a possibilidade de processar a companhia. Ao se incorporar no Texas, a SpaceX definiu que acionistas só poderão abrir ações derivativas se possuírem pelo menos 3% das ações da empresa.
Considerando a avaliação estimada de US$ 1,75 trilhão, isso representaria uma participação de cerca de US$ 52 bilhões.
Além disso, a companhia incluiu em seus estatutos cláusulas que direcionam a maior parte dos processos para a nova Corte Empresarial do Texas, em operação desde 2024, ou para arbitragem obrigatória.
Segundo Lipton, isso reduz drasticamente a possibilidade de disputas judiciais envolvendo a empresa.
Entrada rápida na Nasdaq 100
Lipton também argumenta que a SpaceX enfraqueceu outro instrumento de pressão dos investidores: a venda de ações para afetar o preço da companhia.
Segundo o texto, a SpaceX conseguiu convencer a Nasdaq a flexibilizar regras sobre inclusão de empresas no índice Nasdaq 100. Antes, o processo levava meses. Agora, a expectativa é de que a companhia seja adicionada em poucas semanas.
Quando empresas entram em índices como Nasdaq 100 ou S&P 500, passam a ser compradas automaticamente por grandes instituições financeiras.
Para Lipton, isso pode sustentar o preço das ações nos primeiros dias de negociação pública, já que investidores tentarão comprar os papéis antes da entrada de fundos institucionais.
Chan Ahn, ex-executivo do Goldman Sachs e do JPMorgan e atual CEO da Tessera, concordou que a entrada acelerada no índice pode elevar o preço das ações, mas afirmou que investidores ainda poderão vender os papéis caso discordem da condução da companhia.
Pacote bilionário ligado a Marte
Além do controle sobre a empresa, Musk recebeu um pacote de compensação composto por 1 bilhão de ações Classe B.
As ações só serão liberadas quando a SpaceX atingir valor de mercado de US$ 7,5 trilhões e cumprir a meta de estabelecer “uma colônia humana permanente em Marte com pelo menos um milhão de habitantes”.
Mesmo antes disso, porém, Musk poderá usar essas ações para ampliar sua influência financeira.
O acordo anexado ao documento do IPO informa que o executivo poderá votar com essas ações antes do período de aquisição e também utilizá-las como garantia para empréstimos.
Embora esse tipo de operação exija aprovação do conselho, Musk controla o conselho da SpaceX.
O documento também aponta que as ações podem manter o status de supervoto caso sejam transferidas para trusts, o que, segundo o texto, abre espaço para um possível controle dinástico da companhia.
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