A Apple enfrenta o desafio de reformular sua estratégia de saúde e o ecossistema do Apple Watch para não perder espaço no mercado de wearables (dispositivos vestíveis). Segundo uma análise publicada pelo analista Mark Gurman, na edição mais recente da sua newsletter Power On na Bloomberg, o relógio inteligente da empresa, que já soma mais de US$ 100 bilhões (aproximadamente R$ 500 bilhões) em vendas desde o lançamento em 2015, sofre com uma desaceleração em inovação no momento em que o setor adota novos formatos.
A perda de ritmo coincide com uma dança das cadeiras na liderança da companhia, incluindo a saída do CEO, Tim Cook, e a aposentadoria de executivos ligados à divisão de saúde. Diante de concorrentes focados em coleta passiva de dados e inteligência artificial (IA), a marca tenta reorganizar seus bastidores e acelerar projetos internos para evitar o que analistas apontam como uma oportunidade desperdiçada.
Mudança no perfil de consumo e crise interna desafiam pioneirismo da Apple
O mercado de wearables passa por uma transição em que os consumidores começam a evitar aparelhos cheios de telas. Marcas como Oura, Whoop e o própria Google, com o modelo Fitbit Air, ganham espaço ao apostar em anéis e pulseiras sem visor, focados em monitoramento contínuo de sono e recuperação de forma silenciosa. “Muitos clientes estão agora se afastando de dispositivos pesados em tela e abraçando produtos mais simples que oferecem coleta passiva de dados, maior vida útil da bateria e insights baseados em IA”, apontou Gurman em seu artigo para a Bloomberg.
Outro obstáculo central é a experiência de software da Apple, considerada defasada em prevenção e hábitos saudáveis quando comparada às rivais. O aplicativo Saúde atual é criticado internamente por parecer poluído e excessivamente clínico. “O software de saúde da Apple muitas vezes se parece menos com uma plataforma de consumo moderna e mais com a experiência de revisar gráficos numa sala de espera”, detalhou o jornalista no texto da Bloomberg.
Essa crise de identidade técnica ocorre em meio a uma reestruturação organizacional severa, marcada pela aposentadoria do ex-diretor de operações Jeff Williams em 2025 e a saída do líder do Fitness+, Jay Blahnik, após litígios de conduta. Sob a gestão de Eddy Cue, que assumiu o grupo de saúde, o ambicioso projeto de mentoria de saúde por IA batizado de Mulberry foi reduzido, empurrando possíveis recursos para atualizações tardias do sistema iOS 27. A divisão de marketing do relógio foi transferida para Kaiann Drance, consolidando o dispositivo ainda como um acessório dependente do iPhone.
Os reflexos comerciais dessa saturação já aparecem nos canais de venda física e digital por meio de práticas comerciais incomuns para a fabricante. Varejistas parceiras aplicaram descontos agressivos no acessório, e a própria Apple incluiu o relógio em sua loja voltada para a educação, oferecendo abatimentos diretos pela primeira vez na história da linha. Essa dependência de promoções acentua a urgência por novidades num sistema operacional que, na versão watchOS 27, trará apenas refinamentos pontuais e ajustes em sensores cardíacos.
A grande aposta para reverter o cenário de incrementalismo é o histórico projeto de monitoramento não-invasivo de glicose, idealizado ainda na era Steve Jobs. A Apple transferiu a supervisão da iniciativa para o líder de engenharia Zongjian Chen, especialista reconhecido por entregar resultados em hardware complexo, o que sinaliza um avanço em direção a um produto comercializável. O sucesso dessa transição técnica definirá se a gestão do futuro CEO, John Ternus, conseguirá manter a saúde como o pilar central prometido para o futuro da marca.
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