Durante muito tempo, o excesso de peso na infância foi encarado por muitas famílias como uma característica passageira. A frase “vai esticar quando crescer” ainda é comum em consultórios e reuniões familiares. No entanto, os números mais recentes mostram que essa percepção precisa mudar.
O Atlas Mundial da Obesidade 2026 revelou que 38,4% das crianças e adolescentes brasileiros estão acima do peso, um percentual que praticamente dobra a média mundial, estimada em 20,7%. Na prática, isso significa que cerca de 17 milhões de jovens brasileiros convivem hoje com sobrepeso ou obesidade.
Mais preocupante do que o aumento na balança é o impacto silencioso que essa condição pode causar na saúde. Estamos observando cada vez mais cedo o surgimento de doenças que antes eram consideradas típicas da vida adulta, como hipertensão arterial, alterações da glicemia, colesterol e triglicerídeos elevados, gordura no fígado e até problemas cardiovasculares.
Uma dúvida frequente dos pais é saber quando aquele peso extra representa apenas uma característica física e quando ele passa a ser um sinal de alerta para a saúde.
A primeira informação importante é que peso, isoladamente, não define obesidade. A análise médica vai muito além do número mostrado pela balança. O que realmente importa é a composição corporal, a distribuição da gordura e principalmente a presença da chamada gordura visceral, aquela que se acumula na região abdominal e envolve órgãos importantes.
O gordinho ‘saudável’
Existe, sim, a situação da criança que apresenta algum excesso de peso, mas possui boa massa muscular, pratica atividade física e concentra parte dessa gordura em regiões como quadris, pernas e braços. Popularmente, muitas pessoas chamam esse perfil de “gordinho saudável”.
O gordinho’ doente´
Já a obesidade patológica apresenta características diferentes. Nesses casos, a gordura se concentra principalmente na região do tronco e do abdômen, formando o que chamamos de obesidade central. É justamente essa gordura visceral que está associada aos maiores riscos metabólicos.
Quanto maior o acúmulo de gordura abdominal, maiores são as chances de desenvolver doenças graves ao longo da vida. Hoje sabemos que a obesidade não é apenas um problema de peso. Ela é uma condição inflamatória crônica capaz de aumentar o risco de diabetes tipo 2, doenças cardíacas, alterações arteriais, alguns tipos de câncer, problemas hepáticos e até transtornos emocionais, como ansiedade e depressão.
Quando a obesidade infantil vira perigo
Outro ponto que merece atenção é a esteatose hepática metabólica, conhecida popularmente como gordura no fígado. O que antes era raro em crianças hoje se tornou uma realidade cada vez mais frequente. Muitos pacientes chegam ao consultório sem apresentar sintomas, mas já exibem alterações importantes em exames laboratoriais e de imagem.
Por isso, medir a circunferência abdominal e avaliar a composição corporal são ferramentas muito mais relevantes do que simplesmente acompanhar o peso.
Como tratar a obesidade infantil
A boa notícia é que existe tratamento eficaz.
O primeiro passo é entender qual é o perfil daquele paciente. Existem crianças cujo excesso de peso está relacionado principalmente a hábitos alimentares inadequados, sedentarismo e excesso de alimentos ultraprocessados. Nesses casos, mudanças na rotina, atividade física regular e educação alimentar costumam trazer excelentes resultados.
Por outro lado, existem pacientes que apresentam alterações metabólicas mais complexas. Nesses casos, a abordagem precisa começar pela investigação das causas que estão contribuindo para o desenvolvimento da obesidade, incluindo fatores hormonais, genéticos, emocionais e ambientais.
O mais importante é que os pais compreendam que a obesidade infantil não deve ser encarada como uma falha individual da criança nem como uma questão exclusivamente estética. Trata-se de uma doença multifatorial que exige acolhimento, acompanhamento médico e mudanças sustentáveis ao longo do tempo.
Não espere o problema aparecer nos exames para agir. Quanto mais cedo identificamos o excesso de gordura visceral e seus impactos no organismo, maiores são as chances de reverter o quadro e garantir que essa criança tenha uma vida adulta mais saudável.
Mais do que perder peso, o objetivo deve ser preservar saúde, qualidade de vida e futuro.
Dr Rodrigo Barbosa, cirurgião digestivo sub-especializado em cirurgia bariátrica e coloproctologia do corpo clínico dos hospitais Sírio Libanês e Nove de Julho. Sou também CEO do Instituto Medicina em Foco





