Pesquisadores identificaram um mecanismo que pode estar ligado ao avanço do Alzheimer: uma enzima que regula a inflamação no cérebro. Segundo Earth.com, quando essa atividade foge do controle, o processo inflamatório permanece ativo e contribui para a degeneração dos neurônios.
Agora, um novo estudo aponta uma molécula capaz de bloquear esse mecanismo com precisão — algo que há anos vem sendo considerado um dos principais desafios da área.
A enzima por trás da inflamação no cérebro
Dentro das células cerebrais, a fosfolipase A2 citosólica (cPLA2) funciona como um gatilho da inflamação. Quando ativada, ela libera o ácido araquidônico, que o organismo converte em sinais inflamatórios.
Em condições normais, esse processo é equilibrado. O problema ocorre quando a atividade da enzima se mantém elevada por longos períodos.
Pesquisas da Universidade do Sul da Califórnia (USC) já haviam observado que a cPLA2 aparece em níveis mais altos no cérebro de pessoas com Alzheimer. Esse padrão é ainda mais forte em indivíduos com a variante genética APOE4, considerada o principal fator de risco para a forma tardia da doença.
O desafio de levar o tratamento até o cérebro
Bloquear essa enzima sempre foi difícil. Ao longo dos anos, diversos compostos foram testados, mas a maioria falhou por limitações importantes:
não atravessavam a barreira hematoencefálica
afetavam outras enzimas sem relação com o Alzheimer
tinham baixa potência ou baixa precisão
não avançavam para fases clínicas mais profundas
Segundo os pesquisadores, apenas um inibidor chegou a ser testado em humanos, mas sem foco específico no sistema nervoso central.
Para contornar esse problema, a equipe liderada por Hussein N. Yassine, da USC, adotou uma abordagem diferente: triagem computacional em larga escala.
O sistema analisou uma biblioteca teórica com até 36 bilhões de moléculas possíveis, reduzindo o número para cerca de 100 candidatos com potencial de síntese em laboratório.
O composto que mostrou resultados promissores
Após novas etapas de testes, surgiu o composto BRI-50460. Em laboratório, ele apresentou desempenho superior aos anteriores, com maior potência e seletividade.
Nos experimentos, o composto:
bloqueou a enzima em doses muito baixas
foi mais de 20 vezes mais potente que alternativas anteriores
teve baixa interferência em enzimas semelhantes
alcançou o cérebro em testes com camundongos
apresentou absorção oral eficiente, comparável à de injeções
Em células humanas, o composto reduziu os efeitos de aglomerados de beta-amiloide, associados ao Alzheimer. Essas estruturas aumentam a inflamação e prejudicam as sinapses, responsáveis pela comunicação entre neurônios.
Com o BRI-50460, os pesquisadores observaram menor ativação inflamatória, redução da proteína tau fosforilada e preservação das conexões neuronais, além de menor perda de sinapses — um dos fatores mais ligados ao declínio de memória.
Uma nova abordagem contra a inflamação cerebral
Grande parte das terapias em estudo ainda foca na remoção de placas de beta-amiloide. No entanto, os resultados seguem limitados, e a inflamação permanece um dos principais desafios do Alzheimer.
A proposta deste estudo é diferente: atuar diretamente na origem do processo inflamatório.
Em modelos animais, o bloqueio da enzima também alterou o equilíbrio químico do cérebro, reduzindo substâncias inflamatórias e aumentando moléculas associadas à resolução desse processo.
O que ainda falta antes de chegar aos pacientes
Por enquanto, os resultados se limitam a células e camundongos. Ainda serão necessários estudos mais longos e etapas mais avançadas antes de qualquer aplicação em humanos.
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Mesmo assim, a descoberta abre uma possibilidade importante: atacar diretamente a inflamação cerebral como estratégia terapêutica.
Se confirmada em pesquisas futuras, essa abordagem pode representar uma mudança relevante na forma de tratar o Alzheimer.
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