O que é Manus, IA chinesa que Meta tentou comprar e não conseguiu

A Manus AI se tornou um dos nomes mais comentados do mercado de inteligência artificial (IA) após apresentar uma plataforma baseada em agentes autônomos, sistemas capazes de executar tarefas complexas com pouca intervenção humana. A rápida expansão da empresa chamou a atenção da Meta, que anunciou a compra da startup por cerca de US$ 2 bilhões no fim de 2025.

Meses depois, porém, o negócio se transformou em um impasse geopolítico. Reguladores chineses determinaram a reversão da aquisição por razões ligadas à segurança nacional e ao controle de tecnologias consideradas estratégicas. A Meta iniciou a separação operacional entre as duas companhias, interrompendo o compartilhamento de dados e restringindo o acesso da Manus a seus sistemas internos.

O que é a Manus

A Manus surgiu a partir da Butterfly Effect, empresa fundada na China pelo empreendedor Xiao Hong. Em 2025, a companhia transferiu sua sede e parte relevante de sua equipe para Singapura, movimento que antecedeu a aquisição anunciada pela Meta meses depois.

A startup ganhou projeção internacional após uma demonstração viral de sua tecnologia. Diferentemente dos chatbots que popularizaram a inteligência artificial generativa nos últimos anos, a proposta da Manus era permitir que sistemas de IA executassem tarefas de forma mais independente.

A Manus ganhou notoriedade ao desenvolver agentes de IA capazes de executar tarefas de forma autônoma, sem depender de comandos constantes dos usuários – Imagem: QINQIE99/Shutterstock

Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, explicou ao Olhar Digital que a empresa ajudou a popularizar uma nova abordagem para o uso da inteligência artificial. “Enquanto nós estávamos em uma corrida de ferramentas, como ChatGPT, Gemini e Copilot, [a Manus] foi a primeira a apontar esse caminho da IA agêntica, da IA assumindo o trabalho”, afirma.

Na prática, o usuário pode definir um objetivo e deixar que o sistema realize diferentes etapas para chegar ao resultado final. Dependendo da tarefa, a plataforma pode pesquisar informações, navegar por páginas na internet, organizar dados, gerar arquivos e integrar diferentes ferramentas sem a necessidade de novos comandos a cada etapa.

Segundo Lucas Gilbert, especialista em inovação e tecnologia, a principal mudança está na forma como o usuário interage com a ferramenta.

Você não fica conversando com ela, você entrega um objetivo e ela se vira pra cumprir. Você pode dizer ‘encontra os dez melhores candidatos pra essa vaga, organiza numa planilha e me devolve pronto’, e ela vai pesquisar, abrir os sites, escrever o código que precisar, montar a planilha e te entregar o resultado, tudo sozinha, sem você ficar empurrando cada etapa.

Lucas Gilbert

A empresa também registrou um crescimento acelerado após o lançamento. Segundo a própria Manus, a startup atingiu US$ 100 milhões em receita recorrente anual (ARR) oito meses após seu lançamento.

O que diferencia a Manus de ChatGPT, Gemini e Claude?

A principal aposta da Manus está no conceito conhecido como agentes de IA. Enquanto ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude operam principalmente por meio de interações em formato de conversa, agentes autônomos são projetados para planejar e executar sequências de ações para cumprir um objetivo definido pelo usuário.

Gilbert afirma que esses sistemas utilizam capacidades já presentes nos grandes modelos de linguagem, mas acrescentam mecanismos para executar ações e planejar etapas sem depender de comandos constantes dos usuários.

O ChatGPT, o Gemini e o Claude funcionam como o cérebro: eles pensam, escrevem, raciocinam muito bem, mas ficam parados esperando você dizer o que fazer a cada passo.

Lucas Gilbert

ChatGPT, Claude e Gemini se popularizaram por meio de conversas com usuários, enquanto agentes de IA como a Manus buscam executar tarefas de forma mais autônoma – Imagem: Primakov / Shutterstock

Segundo o especialista, o diferencial da Manus não está necessariamente em um modelo de inteligência artificial mais avançado do que os concorrentes, mas na forma como essa tecnologia é aplicada. “A Manus não inventou um cérebro novo nem uma inteligência superior. O mérito dela nunca foi criar a inteligência, foi dar mãos pra ela”, afirma.

Igreja também vê os agentes autônomos como uma evolução importante do setor. “A questão é a IA agêntica, é a IA que assume trabalho, que gera escala, que gera economia”, afirma.

Por que a Meta quis comprar a startup

A aquisição anunciada pela Meta foi interpretada como uma tentativa de acelerar sua atuação no mercado de agentes autônomos, considerado por parte da indústria como uma das principais tendências da inteligência artificial.

Para Igreja, o valor da negociação ajuda a explicar como grandes empresas de tecnologia costumam agir diante de startups promissoras.

Para a Meta é mais barato ir lá e comprar. Ela já larga com um baita time e uma baita marca. Até ela copiar, o pessoal da Manus já vai mais adiante.

Arthur Igreja

O especialista lembra que a companhia tem histórico de adquirir empresas ainda em estágio inicial de crescimento, em vez de esperar que elas se transformem em concorrentes maiores ou mais caras.

Gilbert avalia que a tecnologia da Manus poderia complementar a base de bilhões de usuários dos serviços da Meta ao oferecer sistemas capazes de executar tarefas concretas, e não apenas responder perguntas.

Por que a China barrou o negócio?

Apesar de a aquisição ter sido anunciada em dezembro de 2025, reguladores chineses passaram a examinar a operação nos meses seguintes. As autoridades apontaram preocupações relacionadas à exportação de tecnologia, investimento estrangeiro e segurança nacional.

Em abril deste ano, Pequim determinou a reversão do negócio. Desde então, Meta e Manus vêm conduzindo um processo de separação que inclui o encerramento do compartilhamento de dados e a migração de projetos para sistemas próprios da empresa americana.

O governo chinês determinou a reversão da compra da Manus pela Meta, citando preocupações com tecnologia estratégica e segurança nacional – Imagem: Koshiro K / Shutterstock

Na avaliação de Igreja, a reação chinesa está ligada ao valor estratégico que tecnologias de IA passaram a ter para governos. “Será que eu quero deixar essa tecnologia, esse time sair daqui? Tem mais a ver com isso, com governança, segurança, soberania”, afirma.

Para Gilbert, o episódio mostra que a inteligência artificial passou a ocupar um papel semelhante ao de setores considerados estratégicos para os países. “A IA deixou de ser assunto de empresa e virou questão de Estado”, diz.

O especialista avalia que o caso também reforça uma tendência de maior separação entre os ecossistemas de inteligência artificial da China e dos Estados Unidos. Segundo ele, investimentos, talentos e tecnologias passam a enfrentar cada vez mais restrições para circular entre os dois mercados.

Para Igreja, o episódio da Manus dificilmente será um caso isolado. O especialista compara a situação às disputas envolvendo o TikTok nos Estados Unidos e avalia que aquisições internacionais de empresas de IA podem enfrentar obstáculos semelhantes nos próximos anos.

São ativos estratégicos. Não só do ponto de vista empresarial. É estratégico para a Meta, estratégico para a China, estratégico para um país.

Arthur Igreja

Os fundadores da Manus agora buscam levantar cerca de US$ 1 bilhão para recomprar a empresa e reorganizar suas operações, enquanto a startup continua desenvolvendo novos recursos e integrações para sua plataforma.

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