Lançado em novembro de 2020, o Pix reúne hoje mais de 170 milhões de usuários e movimenta mais de R$ 3 trilhões por mês. Em pouco mais de cinco anos, o sistema criado pelo Banco Central (BC) se tornou um dos principais meios de pagamento utilizados pelos brasileiros e passou a processar mais de 7 bilhões de transações mensais.
O crescimento acelerado transformou o Pix em uma das maiores infraestruturas de pagamentos instantâneos do mundo. O sucesso também despertou interesse internacional: de acordo com o Banco Central, mais de 50 países já procuraram a instituição para conhecer detalhes do modelo brasileiro. Ao mesmo tempo, o sistema passou a aparecer em discussões sobre concorrência no mercado global de pagamentos.
Mas como uma ferramenta criada para realizar transferências instantâneas conseguiu alcançar tamanha escala em tão pouco tempo? Especialistas ouvidos pelo Olhar Digital apontam que a combinação entre gratuidade para pessoas físicas, funcionamento 24 horas por dia e ampla adesão das instituições financeiras ajudou a transformar o Pix em um dos casos de adoção mais rápidos já vistos no sistema financeiro brasileiro.
Como o Pix conquistou os brasileiros?
Uma transferência bancária feita fora do horário comercial, uma TED com tarifa ou a necessidade de informar agência, conta e CPF para enviar dinheiro eram situações comuns para os brasileiros antes do lançamento do Pix. Para especialistas, parte do sucesso do sistema está justamente em ter eliminado obstáculos presentes nos meios de pagamento tradicionais.
O Pix se tornou relevante porque resolveu um problema muito concreto do dia a dia: transferir e pagar de forma rápida, simples, barata e disponível a qualquer hora.
André Braz, economista do FGV IBRE
Na avaliação de Ivo Mósca, diretor de inovação da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a popularização do Pix foi resultado de uma combinação de fatores. O primeiro deles foi a possibilidade de realizar transações instantâneas, a qualquer hora do dia e em qualquer dia da semana.
Até então, transferências entre instituições financeiras dependiam principalmente da TED, que funcionava dentro de horários específicos e podia levar horas para que o dinheiro chegasse ao destinatário.
Outro elemento decisivo foi a gratuidade para pessoas físicas. Segundo Mósca, a eliminação de tarifas reduziu uma barreira importante para a adoção do sistema, especialmente em transações cotidianas entre familiares, amigos e pequenos comerciantes.
O executivo também destaca uma decisão tomada ainda na implementação do projeto: a obrigatoriedade de participação das instituições financeiras com mais de 500 mil clientes. Isso fez com que o Pix chegasse ao mercado já integrado à maior parte das contas bancárias do país.
Além da ampla cobertura inicial, a experiência de uso também foi simplificada. As chaves Pix substituíram informações como agência, conta e CPF por identificadores mais simples, como número de telefone e endereço de e-mail.
Mósca afirma que a padronização da experiência entre diferentes instituições financeiras também contribuiu para acelerar a adoção da ferramenta, já que os usuários encontravam uma lógica de funcionamento semelhante independentemente do banco utilizado.
Como o Pix ajudou a ampliar a inclusão financeira
O sucesso do Pix não se refletiu apenas no número de transações. Para especialistas e para o próprio Banco Central, o sistema também contribuiu para ampliar o uso de serviços financeiros por parcelas da população que antes dependiam mais do dinheiro em espécie ou utilizavam menos as contas bancárias no dia a dia.
Para André Braz, economista do FGV IBRE, a principal contribuição do Pix nesse processo foi tornar as contas bancárias e de pagamento mais úteis para milhões de brasileiros.
“O Pix ajudou a ampliar a inclusão financeira porque tornou a conta bancária ou de pagamento mais útil para a população de baixa renda e para trabalhadores informais”, afirma o economista.
Segundo Braz, a inclusão financeira não acontece apenas quando uma pessoa abre uma conta, mas quando ela passa a utilizá-la de forma recorrente para receber, pagar, transferir dinheiro e realizar outras operações do cotidiano.
Mósca também relaciona a expansão do Pix ao contexto da pandemia de Covid-19. Segundo ele, a criação de contas digitais para o recebimento de benefícios sociais e a posterior chegada do sistema de pagamentos instantâneos ajudaram a acelerar a digitalização das transações financeiras no país. “O Pix chegou em um momento muito crítico, que foi logo no ano da pandemia”, afirma.
Segundo o executivo, a combinação entre contas gratuitas, transferências sem custo e ampla disponibilidade de celulares contribuiu para reduzir barreiras de acesso aos serviços financeiros digitais.
Os dados do Banco Central ajudam a ilustrar esse movimento. Segundo o Relatório de Economia Bancária (REB), o número de usuários ativos do Sistema Financeiro Nacional passou de 77 milhões para 152 milhões entre 2018 e 2023.
Já o Relatório de Cidadania Financeira 2025 aponta que 96,4% da população adulta brasileira possui conta de depósitos ou de pagamento e que cerca de 88% dos adultos são usuários ativos do sistema financeiro.
Ao Olhar Digital, o Banco Central afirma que a proximidade entre o crescimento da base de usuários do Pix e a expansão do número de clientes do sistema financeiro sugere que a ferramenta teve papel relevante na ampliação do acesso aos serviços financeiros.
Segundo a instituição, as funcionalidades desenvolvidas para o sistema buscam oferecer alternativas de pagamento para pessoas de diferentes níveis de renda e escolaridade, além de pequenos comerciantes e microempreendedores.
O Pix deixou de ser apenas uma ferramenta de transferência
Quando foi lançado em 2020, o Pix era frequentemente associado à substituição de transferências bancárias tradicionais, como TED e DOC. Com o passar dos anos, porém, o sistema ampliou seu alcance e passou a ocupar espaço em diferentes tipos de transações financeiras.
Segundo o Banco Central, o Pix foi inicialmente utilizado principalmente para transferências entre pessoas. Hoje, no entanto, é mais usado para pagamentos de bens e serviços, em operações realizadas entre consumidores e empresas.
A mudança ajuda a explicar por que o sistema continuou crescendo mesmo após alcançar uma ampla base de usuários. Em vez de ser utilizado apenas em situações específicas, o Pix passou a fazer parte de atividades cotidianas, desde pequenas compras até pagamentos de contas e serviços.
Nos últimos anos, o Banco Central também ampliou as funcionalidades da plataforma. Entre os recursos incorporados estão o Pix Automático, voltado para pagamentos recorrentes, e o Pix por aproximação, que permite realizar transações de forma semelhante ao uso de cartões e carteiras digitais.
Para Ivo Mósca, a evolução do sistema está ligada justamente à criação de novas possibilidades de uso. O diretor da Febraban cita como exemplo o Pix Parcelado, modalidade que já vem sendo oferecida por algumas instituições financeiras e permite que o consumidor parcele uma compra enquanto o estabelecimento recebe o valor integral da transação de forma imediata.
Segundo o executivo, esse tipo de solução mostra como o Pix passou a servir de base para novos produtos financeiros, ampliando as possibilidades de uso para consumidores, empresas e instituições.
Mais do que substituir meios tradicionais de transferência, o Pix passou a funcionar como uma infraestrutura sobre a qual novos serviços continuam sendo desenvolvidos. À medida que essas funcionalidades ganham espaço, o sistema amplia sua presença em diferentes momentos da rotina financeira dos brasileiros.
Por que o mundo está olhando para o Pix
O sucesso do Pix não chamou atenção apenas dentro do Brasil. Segundo o Banco Central, mais de 50 países já procuraram a instituição ao longo dos últimos anos para conhecer melhor o funcionamento do sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.
O BC afirmou que o interesse internacional acompanha a evolução da plataforma e a incorporação de novas funcionalidades. Segundo a instituição, o Pix vem sendo desenvolvido com foco em inovação, aumento da eficiência, ampliação da competição no mercado de pagamentos e redução de custos para os usuários.
Para Ivo Mósca, parte desse interesse pode ser explicada pela própria forma como o sistema foi construído. Segundo ele, antes da implementação do Pix, o Banco Central estudou experiências já existentes em outros mercados, incluindo Reino Unido e Índia, e buscou incorporar características que haviam apresentado bons resultados em diferentes países.
O Pix tem basicamente todas as melhores características que os outros produtos de pagamento instantâneo têm no mundo, mas talvez nenhum com toda esta amplitude que o Pix trouxe.
Ivo Mósca, diretor de inovação da Febraban
O executivo também destaca o processo de construção da plataforma, que contou com consultas públicas, grupos de trabalho e participação das instituições financeiras ao longo do desenvolvimento do projeto.
O que está por trás das críticas dos Estados Unidos
O interesse internacional pelo Pix ganhou ainda mais visibilidade recentemente após o governo dos Estados Unidos incluir o sistema em questionamentos relacionados ao mercado brasileiro de pagamentos.
Embora o Pix seja uma infraestrutura pública operada pelo Banco Central, parte das críticas está relacionada aos efeitos que sua expansão pode ter sobre modelos tradicionais de negócios do setor financeiro.
Para André Braz, a discussão pode ser entendida a partir do impacto que um sistema de pagamentos instantâneo, de baixo custo e ampla adesão é capaz de provocar em mercados historicamente baseados em tarifas e intermediação.
Quando um sistema público, instantâneo, barato e amplamente aceito ganha escala, ele reduz o espaço econômico de modelos baseados em tarifas por transação, aluguel de maquininhas, taxas de intercâmbio e outros serviços associados.
André Braz, economista do FGV IBRE
Segundo o economista, isso não significa que outros meios de pagamento deixem de existir, mas que passam a conviver com um concorrente relevante em parte das operações realizadas diariamente por consumidores e empresas.
Mósca, por sua vez, argumenta que o Pix deve ser entendido como uma infraestrutura de pagamentos aberta à participação de diferentes instituições, e não como um produto comercial desenvolvido para favorecer agentes específicos. “Ele não é um produto comercial, ele é uma infraestrutura de pagamento”, afirma.
Segundo o diretor da Febraban, a competição ocorre principalmente nos serviços desenvolvidos sobre essa infraestrutura, e não no acesso à plataforma em si.
O Pix ameaça os cartões?
O avanço do Pix frequentemente é associado a uma possível substituição dos cartões. Para os especialistas ouvidos pelo Olhar Digital, porém, a relação é mais complexa.
Segundo André Braz, o sistema concorre diretamente com meios de pagamento utilizados em operações à vista, especialmente o cartão de débito. “O Pix concorre com os cartões principalmente nas transações de débito e em pagamentos à vista”, afirma.
Na prática, quando um consumidor realiza uma compra por Pix, ele muitas vezes substitui uma operação que poderia ter sido feita por cartão de débito, boleto bancário ou dinheiro em espécie.
A disputa é diferente quando o assunto é cartão de crédito. Segundo Braz, modalidades como parcelamento, prazo para pagamento e programas de benefícios ainda representam vantagens importantes para esse segmento. “No crédito parcelado, os cartões ainda preservam vantagens importantes”, diz o economista.
Ao mesmo tempo, novas funcionalidades vêm aproximando o Pix de espaços tradicionalmente ocupados pelos cartões. É o caso do chamado Pix Parcelado, modalidade oferecida por algumas instituições financeiras sobre a infraestrutura do Pix, mas que não integra o conjunto de funcionalidades reguladas pelo Banco Central. Também entram nessa lista soluções que permitem pagamentos recorrentes ou por aproximação.
Para Braz, a tendência não é o desaparecimento dos modelos tradicionais, mas a convivência entre diferentes meios de pagamento. “Não significa que esses modelos desapareçam, mas significa que passam a enfrentar um concorrente muito forte”, afirma.
Na avaliação dos especialistas, cada instrumento tende a continuar ocupando nichos específicos. Enquanto o Pix ganhou força em pagamentos instantâneos e operações à vista, os cartões seguem relevantes em modalidades que envolvem crédito e parcelamento.
O próximo desafio do Pix
Cinco anos após o lançamento, o principal desafio do Pix já não é conquistar usuários ou ampliar sua presença no dia a dia dos brasileiros. Com o sistema consolidado e em constante evolução, a atenção do setor financeiro está voltada principalmente para questões relacionadas à segurança.
Para Ivo Mósca, uma parte importante desse trabalho passa pelo combate a fraudes e golpes que utilizam o Pix como meio de movimentação de recursos obtidos de forma criminosa. “A grande questão realmente está relacionada à parte de fraudes e golpes”, afirma.
Segundo o diretor da Febraban, a maior parte dos casos não está ligada a falhas da infraestrutura tecnológica do sistema, mas a práticas como engenharia social, aplicativos maliciosos e outras estratégias utilizadas para obter credenciais bancárias das vítimas.
Mósca afirma que cerca de 70% das ocorrências estão relacionadas a golpes de engenharia social, nos quais criminosos se passam por funcionários de bancos, empresas ou centrais de atendimento para convencer usuários a fornecer informações ou autorizar transações.
Na avaliação do executivo, o enfrentamento desse problema exige ações que vão além do sistema financeiro. Entre os exemplos citados estão o combate a ligações fraudulentas, anúncios falsos em redes sociais e aplicativos desenvolvidos para capturar dados de usuários.
O diretor da Febraban também defende o uso crescente de inteligência artificial para identificar operações suspeitas e reforçar mecanismos de prevenção. Além disso, cita medidas voltadas ao monitoramento de transações de maior risco e à ampliação da capacidade de recuperação de recursos em casos de fraude.
O Banco Central afirmou que a segurança continua sendo um dos pilares da evolução do Pix. Segundo a instituição, os sistemas são desenvolvidos com elevados padrões de proteção e passam por aprimoramentos regulatórios e operacionais permanentes.
Enquanto novas funcionalidades continuam sendo incorporadas e o interesse internacional pelo modelo brasileiro cresce, o desafio passa a ser garantir que a expansão do sistema seja acompanhada por mecanismos capazes de reduzir fraudes e aumentar a proteção dos usuários.
Mais de cinco anos após seu lançamento, o Pix deixou de ser apenas uma inovação tecnológica para se tornar uma das principais infraestruturas financeiras do país — e sua próxima etapa de evolução parece estar menos ligada à adoção e mais à construção de um ambiente cada vez mais seguro para quem o utiliza.
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