Durante décadas, a principal forma de encontrar informações na internet foi por meio de mecanismos de busca. Usuários faziam pesquisas, escolhiam entre os links exibidos e acessavam sites para ler notícias, comparar produtos ou buscar respostas para suas dúvidas.
Com o avanço da inteligência artificial (IA) generativa, esse processo começa a mudar. Em vez de navegar por uma lista de resultados, um número crescente de pessoas está recorrendo diretamente a ferramentas como ChatGPT, Gemini e Copilot para obter respostas prontas, recomendações personalizadas e comparações de produtos.
A mudança já aparece nos números. Dados da consultoria McKinsey mostram que 50% dos consumidores utilizam ferramentas de busca baseadas em IA. O impacto também começa a ser percebido no comércio eletrônico, onde plataformas de IA já influenciam a descoberta de produtos e o tráfego para lojas virtuais.
Mais do que alterar hábitos de pesquisa, a inteligência artificial começa a transformar a dinâmica que sustentou a internet por décadas. À medida que respostas passam a ser entregues diretamente por sistemas de IA, empresas, criadores de conteúdo e plataformas tentam entender como essa mudança pode afetar o tráfego na web, a descoberta de produtos e a produção de conteúdo online.
Estamos saindo de uma internet baseada em busca
A transformação vai além da popularização de novas ferramentas, segundo Edson Alves, CEO da Ikatec. Em entrevista ao Olhar Digital, o executivo afirmou que a própria lógica de navegação da internet começa a mudar.
Estamos saindo de uma internet baseada em busca para uma internet baseada em respostas. Antes, o usuário fazia uma pergunta, recebia uma lista de links e precisava montar a resposta sozinho. Agora, ele faz uma pergunta e recebe uma síntese pronta, contextualizada e personalizada.
Edson Alves, CEO da Ikatec
Segundo Alves, a mudança mais perceptível está no comportamento dos usuários. Em vez de utilizar combinações de palavras-chave para encontrar informações, as pessoas passaram a interagir com a tecnologia de forma mais próxima de uma conversa.
“As pessoas estão deixando de pesquisar por palavras-chave e passando a conversar com a tecnologia. Isso torna a experiência mais natural e reduz drasticamente o tempo necessário para encontrar informações relevantes”, afirma.
Uma tendência semelhante é observada por Danilo Fonseca, sócio da Saving. Em entrevista ao Olhar Digital, o executivo afirmou que as buscas estão se tornando mais detalhadas e contextualizadas do que nos mecanismos de busca tradicionais.
As buscas têm sido cada vez mais em linguagem natural, diferente de como fazíamos no Google. Elas deixaram de ser ‘palavras-chave’ e viraram uma conversa.
Danilo Fonseca, sócio da Saving
Na prática, isso significa que o usuário não precisa mais limitar uma pesquisa a termos curtos como “melhor tênis de corrida” ou “melhor notebook”. Em vez disso, pode explicar seu contexto, objetivos e preferências para receber recomendações mais específicas.
De acordo com Fonseca, os modelos de IA conseguem considerar diferentes informações compartilhadas durante uma interação e consultar múltiplas fontes antes de formular uma resposta, aproximando a experiência de uma conversa com um assistente digital.
Quando a IA responde, quem perde o clique?
A mudança na forma de pesquisar começa a produzir efeitos em um dos pilares da internet moderna: o tráfego gerado por mecanismos de busca.
Durante décadas, buscadores funcionaram como intermediários entre usuários e sites. A pessoa fazia uma pesquisa, escolhia um resultado e acessava páginas para consumir notícias, comparar produtos ou buscar informações. Com a popularização das respostas geradas por IA, parte desse processo passa a acontecer sem que o usuário precise deixar a plataforma.
Os dados indicam que essa transformação já está em andamento. Segundo a Similarweb, a proporção de buscas realizadas no Google sem qualquer clique em sites externos passou de 56% para 69% entre maio de 2024 e maio de 2025. Já um levantamento do Pew Research Center mostrou que usuários que recebem respostas geradas por IA clicam em links tradicionais com menos frequência do que aqueles que visualizam apenas resultados convencionais.
Para Alves, o impacto vai além de uma simples mudança tecnológica e levanta questões sobre o modelo econômico que sustentou grande parte da produção de conteúdo na internet.
Grande parte da produção de conteúdo foi financiada pelo tráfego gerado pelos buscadores. Se esse tráfego diminuir significativamente, será necessário encontrar novos modelos econômicos para manter a geração de conteúdo de qualidade.
Edson Alves, CEO da Ikatec
Os efeitos já começam a aparecer para empresas que dependem desse tráfego. Dados divulgados pela Chartbeat indicam que pequenos publishers perderam cerca de 60% das visitas vindas de mecanismos de busca nos últimos dois anos. Ao mesmo tempo, o crescimento das visitas originadas por plataformas de IA ainda não foi suficiente para compensar essas perdas.
A inteligência artificial também cria novas formas de descoberta de conteúdo. Segundo a Similarweb, plataformas de IA geraram mais de 1,1 bilhão de visitas de referência em junho de 2025, um crescimento de 357% em relação ao ano anterior.
A IA está virando um consultor de compras
A influência da inteligência artificial não termina quando uma pergunta é respondida. Cada vez mais, essas plataformas também participam da descoberta de produtos, da comparação de alternativas e da tomada de decisão dos consumidores.
Para Edson Alves, essa é uma das mudanças mais relevantes provocadas pela popularização dos assistentes de IA. “A IA está se tornando um verdadeiro consultor digital. Em vez de pesquisar dezenas de sites, comparar avaliações e analisar características, o consumidor pode simplesmente pedir recomendações personalizadas”, afirma ele.
Segundo o executivo, a descoberta de produtos e serviços passa a ocorrer de forma mais contextualizada. Em vez de depender exclusivamente de anúncios ou resultados de busca, o usuário pode solicitar análises comparativas e sugestões adaptadas às suas necessidades.
Isso reduz etapas da jornada de compra e aumenta a influência dos assistentes inteligentes nas decisões de consumo. A descoberta de produtos passa a ocorrer por recomendação contextual, não apenas por anúncios ou resultados de busca.
Edson Alves, CEO da Ikatec
O avanço dessa tendência coincide com o lançamento de ferramentas capazes de executar tarefas em nome dos usuários. Nos últimos meses, empresas como Google, OpenAI e Microsoft passaram a apresentar agentes que podem pesquisar produtos, comparar opções e auxiliar decisões de compra.
Para Danilo Fonseca, esse movimento foi um dos sinais mais claros de que a relação entre consumidores e marcas está entrando em uma nova fase.
Quando empresas como Google, OpenAI e Microsoft começaram a anunciar agentes capazes de pesquisar, comparar opções e até executar tarefas em nome do usuário, ficou claro que as marcas precisariam ser encontradas não apenas por pessoas.
Danilo Fonseca, sócio da Saving
Os números sugerem que essa transformação já está em andamento. Dados da Adobe apontam que o tráfego gerado por ferramentas de IA para sites de varejo dos Estados Unidos cresceu 393% no primeiro trimestre de 2026. Durante a temporada de compras de fim de ano de 2025, o avanço chegou a 693% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Na visão de Alves, a tendência é que os consumidores deleguem uma parcela cada vez maior da pesquisa inicial para sistemas capazes de reunir informações, comparar alternativas e apresentar recomendações em poucos segundos. No futuro, segundo ele, será possível pedir a uma IA indicações sobre softwares, veículos, fornecedores ou outros produtos complexos e receber análises prontas para apoiar a decisão.
Empresas tentam se adaptar às novas regras
A mudança no comportamento dos usuários está criando um novo desafio para empresas acostumadas a disputar visibilidade nos mecanismos de busca tradicionais.
Se durante anos a estratégia digital esteve concentrada em aparecer entre os primeiros resultados do Google, agora cresce a preocupação com a forma como marcas são interpretadas e apresentadas por ferramentas como ChatGPT, Gemini, Copilot e Perplexity.
Para Edson Alves, essa mudança está criando uma nova dinâmica de competição no ambiente digital.
A disputa deixa de ser apenas pela primeira posição do Google e passa a ser pela relevância dentro do conhecimento consumido pelas IAs.
Edson Alves, CEO da Ikatec
Segundo o executivo, fatores como autoridade da marca, reputação digital, consistência das informações e presença em múltiplas fontes tendem a ganhar importância em um cenário em que os sistemas de IA sintetizam conteúdos e destacam apenas algumas referências para os usuários.
Novas estratégias para um novo ambiente
A transformação já impulsiona o surgimento de estratégias voltadas especificamente para esse novo ambiente. O mercado passou a adotar termos como Generative Engine Optimization (GEO) e AI Search Optimization para descrever práticas que buscam aumentar as chances de uma marca ser citada ou recomendada por sistemas de inteligência artificial.
“O motivo é simples: onde existe atenção, existe valor econômico”, afirma Alves. Segundo ele, as empresas perceberam que ser mencionado por um assistente de IA pode ter um impacto semelhante ao de ocupar as primeiras posições em uma busca tradicional.
Na avaliação de Danilo Fonseca, sócio da Saving, a adaptação exige uma abordagem mais ampla do que as estratégias tradicionais de otimização para buscadores. “O jogo parece o mesmo, mas as regras são diferentes”, destaca ele.
Segundo o executivo, empresas precisam fortalecer sua presença em diferentes canais, incluindo sites próprios, veículos de imprensa, redes sociais, fóruns e blogs especializados. Isso porque os modelos de IA utilizam múltiplas fontes para construir respostas e recomendações.
A demanda por esse tipo de monitoramento já começa a aparecer no mercado. De acordo com Fonseca, muitos empresários passaram a pesquisar suas próprias marcas em plataformas como ChatGPT, Gemini e Perplexity para entender como são apresentados aos usuários.
Quando nos procuram sobre esse tema os clientes querem ser mencionados e considerados nas recomendações do ChatGPT e afins.
Danilo Fonseca, sócio da Saving
Uma das iniciativas surgidas nesse contexto é a plataforma ALVO, da Saving, desenvolvida para monitorar como empresas são apresentadas por ferramentas de IA e em diferentes canais digitais.
A nova economia da relevância
Embora as transformações provocadas pela inteligência artificial já sejam perceptíveis, ainda não existe consenso sobre como será a próxima etapa dessa evolução.
Para Danilo Fonseca, diferentes cenários permanecem em aberto. Um deles envolve o avanço dos chamados agentes de IA, capazes de pesquisar produtos, comparar alternativas e executar tarefas em nome dos usuários. Outro prevê uma valorização ainda maior de avaliações, recomendações e conteúdos produzidos por pessoas.
Independentemente do caminho que prevalecer, a tendência é que mecanismos de busca, plataformas de comércio eletrônico e assistentes de IA se tornem cada vez mais integrados.
“A tendência é de convergência”, afirma Edson Alves. Segundo ele, os mecanismos de busca devem incorporar mais capacidades conversacionais, enquanto plataformas de comércio eletrônico passam a utilizar assistentes inteligentes como parte da experiência de compra.
Na avaliação do executivo, a mudança também deve alterar a forma como conteúdos são produzidos e distribuídos na internet. Em vez de depender exclusivamente de técnicas tradicionais de otimização, empresas e criadores de conteúdo precisarão investir cada vez mais em autoridade, especialização e credibilidade.
Acredito que veremos o surgimento de uma nova economia da relevância, onde não basta estar na internet; será necessário ser reconhecido como uma fonte confiável pelas inteligências artificiais.
Edson Alves, CEO da Ikatec
Durante décadas, o principal desafio da internet foi ser encontrado por pessoas. Agora, à medida que ferramentas de IA passam a intermediar parte dessas interações, a disputa começa a incluir outro objetivo: ser reconhecido também pelas máquinas que ajudam a decidir o que os usuários vão ver.
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