O empreendedor israelense Uri Levine, cofundador do Waze e um dos nomes mais conhecidos do ecossistema global de startups, escolheu o Brasil para o lançamento mundial de seu segundo livro, O Simples Vence. Segundo ele, a decisão foi uma forma de retribuir a boa recepção que seu primeiro livro teve no país e contribuir para o fortalecimento do ecossistema brasileiro de startups.
Levine é um dos poucos empreendedores a criar dois unicórnios. Além do Waze, adquirido pelo Google em 2013, ele também foi cofundador do Moovit, plataforma de mobilidade comprada pela Intel em 2020. Hoje, atua como investidor em startups, professor em programas de MBA e mentor de novos empreendedores.
No novo livro, o empresário defende que a simplicidade é o maior diferencial competitivo de empresas bem-sucedidas. Para ele, produtos simples são mais fáceis de entender, adotar e utilizar, enquanto empreendedores devem se concentrar em resolver problemas reais antes de buscar soluções complexas.
Em entrevista ao Olhar Digital, Levine falou sobre os conceitos apresentados na obra, comentou como a inteligência artificial está mudando a criação de produtos digitais, avaliou os desafios enfrentados por startups e explicou por que acredita que a simplicidade continua sendo uma das maiores vantagens competitivas para empresas de tecnologia. Durante a conversa, ele também falou sobre a Uri Levine Startup Academy, plataforma educacional que será lançada inicialmente no Brasil e voltada à formação de empreendedores.
Confira a entrevista com Uri Levine
As respostas foram editadas apenas para maior clareza e fluidez, preservando o conteúdo original.
Olhar Digital: Seu livro está sendo lançado primeiro no Brasil. Por que você escolheu o país?
Uri Levine: Tenho dois livros publicados no Brasil, o primeiro e este novo. A razão é muito simples: o primeiro acabou fazendo muito sucesso aqui e eu queria ajudar o ecossistema brasileiro de startups a se tornar mais bem-sucedido. Então, junto com a Editora Citadel, decidimos publicar este livro primeiro em português, no Brasil, e depois lançá-lo em outros idiomas e países. Encare isso como uma forma de retribuir.
Olhar Digital: Por que empresas bem-sucedidas deixam de ser simples?
Uri Levine: Pense em alguns dos maiores produtos do mundo: Waze, WhatsApp, Instagram, iPhone, ChatGPT, Uber e a Busca do Google. Pergunte a si mesmo o que faz deles produtos tão bem-sucedidos. No fim das contas, é a simplicidade.
Quando você cria algo simples, as pessoas começam a usá-lo e o utilizam cada vez mais. As pessoas usam aquilo que é simples. Leonardo da Vinci disse, há 500 anos, que “a simplicidade é o último grau da sofisticação”.
Construir algo simples é difícil. Você precisa adotar a mentalidade do usuário para conseguir criar um produto simples. E, quando faz isso, aumenta muito as chances de construir um produto de sucesso.
Olhar Digital: Como a inteligência artificial mudou a forma de criar produtos e startups?
Uri Levine: De forma geral, hoje a IA gera ganhos significativos de produtividade em muitas áreas. Se você não estiver usando IA para aumentar a produtividade, vai perder para alguém que esteja. Hoje é possível criar protótipos em pouquíssimo tempo.
Se fôssemos construir o Waze hoje, provavelmente levaríamos muito menos tempo do que levamos há 17 anos. As coisas mudaram por causa da IA. A capacidade de obter informações, analisá-las e criar algo novo ficou muito mais rápida. É assim que devemos enxergar a IA: como uma ferramenta para aumentar a produtividade. Você precisa usá-la para isso.
A boa notícia é que agora você consegue desenvolver um produto muito mais rapidamente. A má notícia é que isso também vale para seus concorrentes.
Se você consegue construir algo em duas semanas, outras cem pessoas também conseguem. O resultado é que, com a adoção da IA, vemos cada vez mais gente construindo primeiro para depois descobrir o que fazer com aquilo.
O maior desafio passa a ser levar esse produto ao mercado. Se existem cem empresas como a sua, como exatamente você vai conquistar clientes competindo com todas elas?
Olhar Digital: Olhando para a indústria de tecnologia hoje, qual empresa faz o melhor trabalho ao manter seus produtos simples?
Uri Levine: Sem dúvida, a pioneira em criar simplicidade nos dias de hoje é a Apple. Basta olhar para a trajetória da empresa, do primeiro Macintosh ao iPhone. Ela definitivamente construiu produtos muito simples.
Mas, no fim das contas, pense no WhatsApp: é simples. Pense no Waze: é muito simples. Pense no Instagram: também é bastante simples.
As empresas que conquistaram bilhões de usuários construíram produtos simples.
Olhar Digital: Qual é o maior erro que você vê empreendedores cometendo hoje, especialmente no universo das startups?
Uri Levine: Estamos prestes a lançar a Uri Levine Startup Academy, uma escola online para empreendedores criada para ajudá-los a aumentar as chances de sucesso. E, aliás, também vamos lançá-la primeiro no Brasil, justamente para ajudar os empreendedores e o ecossistema brasileiro de startups.
Uma das formas mais interessantes de analisar esse tema é olhar para o que faz uma startup fracassar. Existem muitos fatores que levam uma startup ao fracasso, e queremos ajudar os empreendedores a entender como evitá-los.
Um dos principais erros é começar pela solução, e não pelo problema. É por isso que digo que você precisa se apaixonar pelo problema, não pela solução. Muitas pessoas constroem produtos para os quais simplesmente não existe demanda. Só depois percebem que criaram algo de que o mercado não precisava, porque nunca validaram o problema antes de começar.
Muitas startups também fracassam por causa da equipe. Elas não montam o time certo, e aprender a construir esse time é uma das coisas que ensinamos na Startup Academy.
Outro motivo é ficar sem dinheiro. Ou perder para a concorrência. Muitos empreendedores tentam competir dizendo apenas que são melhores. Mas ser melhor não basta. Ninguém se importa se você é melhor. O que importa é ser diferente.
Outro desafio é o foco. Foco não é dizer “sim”, é dizer “não”. E essa é uma decisão difícil.
A complexidade também é uma questão de mentalidade. Se você pensa de forma simples, essa simplicidade aparece no produto, na organização e até na forma como explica o que faz. No fim das contas, isso melhora tudo, inclusive a forma de levar o produto ao mercado.
Também vejo muitas startups fracassarem porque não conseguem levantar investimento. Em geral, isso acontece porque elas não encontraram o product-market fit, não validaram o problema antes de buscar capital, montaram a equipe errada ou não tomaram a difícil decisão de fazer mudanças quando necessário.
Olhar Digital: Qual conselho sobre startups você considera completamente errado?
Uri Levine: Eu ouço isso o tempo todo: “Construa o produto e os clientes virão”. Não, não, não.
A jornada de uma startup é uma jornada de criação de valor. E a forma mais simples de criar valor é resolver um problema. Então é por aí que você precisa começar. Primeiro, valide o problema.
Outro conselho que considero errado é: “Levante apenas o dinheiro suficiente para não sofrer tanta diluição”. Também não concordo.
Você precisa levantar dinheiro suficiente para atingir um marco que permita captar novos investimentos. Se não tiver recursos suficientes para chegar a esse ponto, depois não conseguirá captar mais dinheiro.
Esses são alguns dos conselhos mais comuns que considero completamente equivocados.
Olhar Digital: O que é mais difícil hoje: criar um grande produto ou fazer com que as pessoas o conheçam?
Uri Levine: Hoje construir um produto é fácil. Difícil é conquistar clientes. Mas, na verdade, isso sempre foi assim.
A jornada de uma startup tem várias etapas. A primeira é criar valor, ou seja, alcançar o product-market fit. Isso significa criar valor para os clientes. Se você não consegue alcançar o product-market fit, sua startup vai morrer.
Depois vem o próximo desafio: como conquistar clientes?
Vendas sempre foram a parte mais difícil. Conquistar clientes sempre será o maior desafio. E a inteligência artificial não está tornando isso mais fácil. Pelo contrário: está tornando mais difícil, porque agora existem centenas de empresas como a sua.
Olhar Digital: Se estivesse criando o Waze hoje, o que faria de diferente?
Uri Levine: Eu começaria fazendo uma pergunta muito simples: você usa o Waze?
Olhar Digital: Eu não dirijo… (risos)
Uri Levine: Todos os motoristas no Brasil usam o Waze. Isso mostra que construímos algo da maneira certa. Então, se você me perguntar o que eu mudaria, a resposta é: nada.
Mas, se estivesse começando hoje, certamente usaria muito mais inteligência artificial para desenvolver o produto mais rapidamente. A IA nos dá uma capacidade enorme de construir coisas dez vezes mais rápido ou com apenas 10% do esforço.
Olhar Digital: Falando sobre o Brasil, qual é o maior ponto forte e a maior fraqueza das startups brasileiras?
Uri Levine: Essa é uma perspectiva muito interessante. Quando lancei o Waze no Brasil, em 2010 ou 2011, não existia um único unicórnio no país. Em toda a América Latina havia apenas um: o Mercado Livre.
Hoje existem muitas startups de sucesso e muitos unicórnios, tanto no Brasil quanto na América Latina. Isso mostra o quanto o ecossistema evoluiu.
Se pensarmos nos pilares desse ecossistema, eu diria que existem quatro pilares fundamentais.
O primeiro são os empreendedores. Hoje há muito mais empreendedores do que havia 15 anos, quando lancei o Waze no Brasil. Foi um avanço enorme. Sempre há espaço para mais, mas esse não é um ponto fraco, e sim uma força do mercado.
O segundo pilar é o investimento. Estamos vendo cada vez mais investidores, especialmente os de estágio inicial. Ainda precisamos de mais deles, porque são o combustível do ecossistema de startups.
O terceiro pilar são os engenheiros. Com a ajuda da inteligência artificial, acredito que temos profissionais suficientes.
O quarto pilar, e o mais importante, é a experiência. Um empreendedor que está criando sua segunda empresa tem muito mais chances de ter sucesso, independentemente do que aconteceu na primeira tentativa.
É justamente isso que queremos levar com a Uri Levine Startup Academy: experiência. Queremos que os empreendedores saibam quais erros evitar, o que fazer em seguida, quais são as opções disponíveis e como tomar as decisões certas. É essa experiência que queremos trazer para o mercado e para o ecossistema.
Olhar Digital: Você já deixou de seguir o seu próprio conselho sobre simplicidade?
Uri Levine: Antes do Waze, eu tinha uma empresa de consultoria chamada Simple Focus. Acho que isso já diz tudo. Sempre gostei de simplicidade e de foco. Posso ter caído em muitas outras armadilhas ao longo da carreira, mas não nessas.
Olhar Digital: Você também está lançando a Uri Levine Startup Academy junto com o livro. Que lacuna pretende preencher?
Uri Levine: Meu propósito na vida é criar valor. Fiz isso como empreendedor, com o Waze, o Moovit e outras startups. Mas também sou professor.
Sinto a mesma satisfação quando construo algo quanto quando ajudo outra pessoa a construir. Escrever o livro foi uma forma de cumprir esse papel como educador. Também dou aulas em universidades internacionais e agora estou criando a Uri Levine Startup Academy para ajudar empreendedores a aumentar suas chances de sucesso.
Isso também faz parte do meu propósito de criar valor.
Escolhemos lançar a academia primeiro no Brasil porque acreditamos que o ecossistema brasileiro está pronto para receber mais experiência e ajudar seus empreendedores a terem mais sucesso.
Olhar Digital: Além do produto, qual foi o maior aprendizado que a experiência no Waze deixou para você?
Uri Levine: A jornada do Waze foi absolutamente incrível. Como usuário, você conhece uma parte dessa história, que é o produto. Mas houve também a equipe que construímos e toda a trajetória da empresa, que foi extremamente recompensadora.
Construímos uma equipe forte, formada por pessoas com quem gostávamos de trabalhar e que se encaixavam na cultura que queríamos criar.
Criar a cultura de uma empresa é uma oportunidade. É a oportunidade de construir a cultura que você deseja, e essa é uma decisão que pode ser tomada desde o começo.
Uma das decisões que tomamos foi que o Waze seria o melhor lugar em que já trabalhamos. E foi exatamente isso que aconteceu.
Praticamente todas as empresas que construí depois seguiram essa mesma filosofia. Não basta criar um grande produto para atender as pessoas. Você também está construindo uma organização que deve refletir sua cultura, seu DNA e aquilo em que acredita.
Quando você constrói a organização certa, aumenta drasticamente as chances de sucesso. Além disso, você passa a aproveitar muito mais a jornada. E isso é tão importante quanto construir uma startup de sucesso.
O post Uri Levine, cofundador do Waze, explica por que a simplicidade ainda vence na tecnologia apareceu primeiro em Olhar Digital.





