Chefe grosso ou abusivo?

É comum ouvir alguém dizer que tem um “chefe difícil”. Afinal, cobrar resultados, estabelecer metas, corrigir falhas e fazer avaliações de desempenho faz parte da rotina de qualquer liderança. A questão é que existe uma diferença importante entre ser um gestor exigente e exercer uma liderança que adoece as pessoas.

Como psiquiatra corporativo, observo diariamente profissionais que chegam ao consultório acreditando que não conseguem mais lidar com a pressão do trabalho. Muitos se culpam, imaginam que perderam a capacidade de enfrentar desafios ou que estão “fracos”. Mas, ao analisar o contexto, percebemos que, muitas vezes, o problema não está na capacidade do colaborador, e sim no ambiente em que ele está inserido.

Uma liderança saudável pode ser firme, estabelecer metas ambiciosas e cobrar resultados sem perder o respeito pelas pessoas. O gestor não precisa abrir mão da exigência para ser humano. Pelo contrário: equipes costumam responder melhor quando existe clareza, previsibilidade e segurança psicológica.

O problema começa quando o medo passa a ser utilizado como estratégia de gestão.

Quando humilhar se torna uma forma de corrigir. Quando gritar parece mais eficiente do que orientar. Quando expor erros em público vira rotina. Quando as regras mudam sem explicação, as cobranças acontecem a qualquer hora do dia e o colaborador nunca sabe o que esperar do próximo contato com a liderança.

Esse tipo de comportamento produz um ambiente de vigilância constante. O cérebro passa a interpretar o trabalho como um espaço de ameaça, permanecendo em estado contínuo de alerta. É como se o organismo nunca recebesse a mensagem de que está seguro.

Com o tempo, esse estado permanente de tensão começa a cobrar um preço.

Os sintomas costumam aparecer primeiro no corpo. Insônia, dores musculares, irritabilidade, alterações gastrointestinais, dificuldade de concentração, fadiga persistente e crises de ansiedade tornam-se frequentes. Em alguns casos, surgem sintomas depressivos, perda da autoestima e sensação constante de incapacidade.

Outro aspecto que merece atenção é quando o sofrimento deixa de estar restrito ao ambiente profissional. A pessoa chega em casa, mas continua trabalhando mentalmente. Tem receio de ouvir o som das notificações, sente ansiedade ao visualizar mensagens do chefe, pensa no trabalho antes de dormir e acorda já antecipando problemas que ainda nem aconteceram.

Quando isso acontece, o trabalho deixa de ocupar apenas uma parte da vida e passa a dominar o espaço emocional da pessoa.

Esse é um dos sinais mais preocupantes de que os limites entre a vida profissional e a vida pessoal desapareceram.

Curiosamente, muitas empresas ainda acreditam que liderar pelo medo aumenta a produtividade. Na prática, a ciência mostra exatamente o contrário. Ambientes marcados por insegurança psicológica reduzem a criatividade, prejudicam a tomada de decisões, aumentam o número de erros, favorecem conflitos, elevam o absenteísmo e estão associados a maior rotatividade de profissionais.

Pessoas que trabalham apenas para evitar punições tendem a fazer o mínimo necessário para sobreviver naquele ambiente. Já equipes que se sentem respeitadas costumam inovar mais, colaborar melhor e apresentar maior comprometimento com os resultados.

Por isso, sempre proponho uma reflexão simples para identificar quando a liderança ultrapassou o limite saudável.

Pergunte a si mesmo:

Você sente mais medo do seu gestor do que respeito?
Os erros geram aprendizado ou humilhação?
As cobranças invadem noites, finais de semana e férias?
Você sente que nunca faz o suficiente, independentemente do desempenho?
A ansiedade começa antes mesmo de iniciar a jornada de trabalho?

Se essas situações fazem parte da rotina, talvez o problema não seja apenas um chefe exigente.

Vivemos um momento em que as empresas discutem produtividade, inovação e retenção de talentos. No entanto, nenhuma estratégia será sustentável se a saúde mental das pessoas continuar sendo negligenciada.

Liderança não é exercer poder sobre os outros. É criar condições para que as pessoas possam entregar o melhor do seu potencial.

Cobrar resultados faz parte da gestão. Humilhar pessoas, não.

Uma liderança saudável fortalece equipes, desenvolve talentos e constrói organizações mais resilientes. Já uma liderança baseada no medo pode até produzir resultados imediatos, mas quase sempre cobra uma conta alta no futuro — tanto para os profissionais quanto para a própria empresa.

 

Sobre Dr. Daniel Sócrates https://www.instagram.com/dr.danielsocrates/

Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.