Existe uma diferença importante entre ser pai e exercer a paternidade. Ela pode parecer sutil, mas se torna ainda mais evidente quando uma família recebe o diagnóstico de autismo, deficiência intelectual ou qualquer outra condição que demande cuidados, adaptações e acompanhamento contínuo.
Nesses momentos, muitas famílias passam por uma reorganização profunda da rotina. Surgem consultas, terapias, reuniões escolares, avaliações, aprendizados sobre desenvolvimento e comunicação, além de uma série de preocupações que nem sempre estavam no horizonte dos pais. E, historicamente, é comum que grande parte dessa responsabilidade recaia sobre as mães.
É justamente por isso que precisamos falar mais sobre a paternidade atípica.
Um pai presente não é aquele que simplesmente acompanha a família aos finais de semana ou pergunta à mãe como foi a terapia. É aquele que conhece o filho, participa das decisões, aprende sobre suas necessidades, estabelece vínculos, brinca, cuida, enfrenta desafios e também está presente nos dias difíceis.
A presença paterna não precisa ser perfeita. Precisa ser real.
Quando falamos em desenvolvimento infantil, não podemos reduzir o papel do pai ao provedor financeiro ou ao responsável por momentos de lazer. A criança precisa de adultos disponíveis para construir vínculos, oferecer segurança, estimular habilidades e compreender suas particularidades.
No autismo, isso ganha uma dimensão ainda mais importante. O desenvolvimento acontece em diferentes contextos, e aquilo que é aprendido em uma sessão de terapia precisa encontrar espaço também na vida cotidiana. Por isso, a participação da família não deve ser vista como algo complementar ao tratamento, mas como parte importante do processo.
Uma revisão sistemática publicada no Journal of Autism and Developmental Disorders mostrou justamente uma lacuna: os pais de crianças e adolescentes autistas ainda são pouco incluídos tanto nas pesquisas quanto nas intervenções. Ao mesmo tempo, os estudos analisados indicam que a participação de ambos os pais pode beneficiar o funcionamento familiar e que os pais podem ser tão eficazes quanto as mães na implementação de estratégias de intervenção.
Uma revisão mais recente, publicada em 2025, também chamou atenção para a baixa participação dos pais em programas de orientação parental voltados a crianças autistas pequenas. Entre os estudos que atenderam aos critérios da revisão, apenas dois pais estavam representados entre 94 díades de pais e filhos. Isso não significa que os pais não queiram participar. Significa também que precisamos criar espaços que efetivamente os incluam.
E aqui existe uma responsabilidade que não pode ser colocada apenas sobre as famílias ou sobre os próprios homens. Profissionais de saúde, escolas e equipes terapêuticas também precisam perguntar: onde está o pai?
Será que estamos enviando as informações apenas para a mãe? Será que convidamos os dois para as reuniões? Será que ensinamos as estratégias para os dois? Será que consideramos o pai um cuidador ou ainda o enxergamos como alguém que apenas “ajuda”?
A palavra “ajuda”, aliás, merece ser repensada.
Pai não ajuda a mãe a cuidar do próprio filho. Pai compartilha a responsabilidade de cuidar.
Essa mudança de perspectiva é especialmente importante nas famílias atípicas, nas quais a sobrecarga pode ser significativa. Quando uma única pessoa concentra consultas, terapias, escola, medicação, organização da rotina, pesquisas sobre o diagnóstico e decisões relacionadas ao futuro, o desgaste pode se tornar enorme.
Dividir essas responsabilidades não significa apenas aliviar a mãe. Significa ampliar a rede de segurança da criança.
E há outro ponto que considero fundamental: o pai também precisa de espaço para viver o próprio processo emocional.
O diagnóstico pode provocar medo, dúvidas, insegurança e preocupações sobre o futuro. Uma revisão sobre as experiências de pais de crianças autistas identificou justamente temas relacionados à adaptação, à preocupação com o futuro e às transformações na maneira como esses homens passam a enxergar seus filhos e suas próprias experiências de paternidade.
Por isso, dizer ao pai que ele precisa “ser forte” pode ser tão prejudicial quanto afastá-lo das decisões. Pais também precisam perguntar, aprender, chorar, sentir medo e buscar apoio.
Mas, principalmente, precisam permanecer.
Permanecer significa estar quando chega o diagnóstico e também quando surgem as pequenas conquistas. Significa comemorar uma nova palavra, um novo gesto, uma autonomia conquistada, uma ida à escola que deu certo. Significa estar nas consultas e nas reuniões, mas também no sofá de casa, na brincadeira, no banho, na hora de dormir e nos momentos em que aparentemente nada extraordinário está acontecendo.
Porque é justamente nesses momentos cotidianos que os vínculos são construídos.
Para uma criança atípica, o pai não precisa ser um especialista em autismo. Ele precisa ser especialista em conhecer o próprio filho.
Precisa observar o que o acalma, compreender suas formas de comunicação, respeitar seus limites, reconhecer suas conquistas e descobrir maneiras de compartilhar o mundo com ele.
Também precisamos abandonar a ideia de que a presença paterna só é necessária quando a criança é pequena. O vínculo não tem prazo de validade. À medida que a criança cresce, mudam as necessidades, os desafios e as formas de participação. A paternidade precisa acompanhar esse percurso.
E, talvez, uma das maiores contribuições que um pai pode oferecer ao filho atípico seja justamente ajudá-lo a ocupar seu lugar no mundo sem transformar suas diferenças em motivo de vergonha.
Não se trata de negar as dificuldades. Trata-se de não permitir que o diagnóstico seja maior do que a pessoa.
Uma criança não precisa de um pai perfeito. Precisa de um pai que esteja disposto a conhecê-la, defendê-la, estimulá-la, respeitá-la e caminhar ao seu lado.
A paternidade atípica nos convida, portanto, a ampliar o significado de presença. Não basta estar na mesma casa. É preciso estar na vida.
Porque, quando um pai participa ativamente do desenvolvimento do filho, ele não está apenas dividindo tarefas com a mãe. Está construindo uma relação que pode acompanhar a criança por toda a vida.
E, para muitas crianças, essa presença será uma das formas mais importantes de dizer: “Eu vejo você. Eu conheço você. E estou aqui.”





