Quando se fala em superdotação ou altas habilidades, é comum imaginar uma pessoa que aprende rapidamente, apresenta excelente desempenho escolar e tem facilidade para resolver problemas complexos. Mas existe um lado menos conhecido dessa realidade: pessoas com alto potencial intelectual também podem enfrentar solidão, cobrança excessiva, dificuldades de socialização e desafios emocionais.
A história do professor Klaus Leite Pinto Vasconcellos, titular do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ajuda a mostrar essa perspectiva. Desde pequeno, ele demonstrava grande facilidade para aprender e passou a dedicar boa parte do tempo aos livros e aos estudos.
Apesar de não se lembrar de ter sofrido rejeição na escola, Klaus conta que se sentia mais sozinho do que outras crianças.
“Eu acho que eu mesmo provoquei essa solidão. Com uma capacidade intelectual grande, passei a estudar e ler com uma frequência muito maior do que a normal, e isso fez com que eu mesmo me afastasse.”
Quando aprender muito também pode significar se afastar
Durante a infância e a adolescência, Klaus concentrou grande parte de sua rotina em literatura e estudos. O interesse intenso pelo conhecimento acabou reduzindo o espaço para outras experiências e relações sociais.
“Eu me concentrei demais em literatura e estudo e não tinha ninguém com quem discutir. Isso me impediu de procurar mais o resto do mundo, de ter mais amigos e também tornou mais difícil o contato com o mundo real que estava à minha frente.”
A experiência mostra que altas habilidades não devem ser analisadas apenas pelo desempenho intelectual. O desenvolvimento emocional e social também precisa ser considerado.
Para a psiquiatra Fabrícia Signorelli, especialista em TDAH, TEA e altas habilidades, existe um estereótipo de que pessoas superdotadas necessariamente terão sucesso em todas as áreas da vida.
“A gente tem um estereótipo muito errado de que ter altas habilidades ou superdotação é igual a ter sucesso ao longo da vida. A falta de desafios, a dificuldade de identificação e a pressão social podem levar ao insucesso.”
A pressão para estar sempre acima da média
Outro aspecto que pode pesar na vida de pessoas com altas habilidades é a expectativa de que elas estejam sempre apresentando resultados excepcionais.
Klaus lembra de uma situação vivida na adolescência. Ao acompanhar o pai, que era neurologista, a um hospital, pretendia levar uma revista em quadrinhos para passar o tempo. O pai, porém, sugeriu que escolhesse outro tipo de leitura porque as pessoas sabiam que ele era superdotado.
Ele acabou levando Apresentação da Poesia Brasileira, de Manuel Bandeira.
A lembrança ajuda a ilustrar como a identificação da superdotação pode vir acompanhada de expectativas. Em vez de simplesmente permitir que a criança explore diferentes interesses, existe o risco de ela sentir que precisa corresponder constantemente à imagem de alguém extremamente inteligente.
“É muito comum ter que enfrentar uma supercobrança. Só esperam de você o máximo, e isso é um grande desafio”, afirma o professor.
Nem toda habilidade aparece da mesma forma
A ideia de que uma pessoa superdotada precisa ser excelente em tudo também pode gerar frustração.
Klaus conta que, embora tivesse facilidade intelectual, sempre apresentou dificuldades relacionadas à coordenação motora e aos esportes.
“Eu sempre fui muito bom intelectualmente, mas tive que pagar o preço de ser desajeitado e sem coordenação. Essa dicotomia sempre foi um dos maiores desafios da minha vida.”
O relato reforça a importância de compreender que o desenvolvimento humano não acontece de maneira uniforme. Uma pessoa pode apresentar grande facilidade em determinada área e, ao mesmo tempo, precisar de mais apoio em outra.
Superdotação não é doença
De acordo com Fabrícia Signorelli, altas habilidades ou superdotação não são uma doença e não devem ser automaticamente confundidas com transtornos psiquiátricos.
Algumas características, entretanto, podem se sobrepor a sinais observados em determinadas condições. Por isso, uma avaliação adequada é importante para evitar interpretações equivocadas.
“Muitas vezes, a não identificação da superdotação e a interpretação dessas características como sintomas de um transtorno psiquiátrico levam a diagnósticos errados ou identificações perdidas.”
A especialista também chama atenção para o risco de medicalizar características que, isoladamente, não representam uma doença.
Quando altas habilidades aparecem junto com outras condições
Também é possível que uma pessoa com altas habilidades apresente TDAH, transtorno do espectro autista, dislexia, deficiência ou outra condição. Essa combinação é conhecida como dupla excepcionalidade.
Segundo Fabrícia, o alto potencial cognitivo pode, em alguns casos, compensar determinadas dificuldades e fazer com que elas sejam menos percebidas, especialmente no ambiente escolar.
Por isso, a identificação precisa olhar para o indivíduo de maneira ampla: suas potencialidades, dificuldades, necessidades emocionais e condições de desenvolvimento.
Um potencial que precisa de estímulo e acolhimento
Dados do Censo Escolar 2025, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), registraram cerca de 56 mil estudantes com altas habilidades ou superdotação na educação básica brasileira.
O número representa crescimento em relação aos pouco mais de 44 mil registros de 2024. Ainda assim, especialistas e estudos apontam que pode existir uma diferença significativa entre o número de estudantes identificados e a quantidade estimada de pessoas com esse perfil.
A identificação é importante porque permite que crianças e adolescentes tenham acesso a estratégias educacionais adequadas, desafios compatíveis com suas capacidades e, principalmente, compreensão sobre suas próprias características.
As altas habilidades continuam na vida adulta
A superdotação também não fica restrita à infância. As características acompanham a pessoa ao longo da vida e podem influenciar relações, escolhas profissionais, aprendizagem e bem-estar.
A gerontóloga Thaís Bento Lima, parceira científica do Supera Estimulação Cognitiva, ressalta que ainda não há evidências suficientes para afirmar que pessoas com altas habilidades apresentem envelhecimento cerebral mais lento ou proteção específica contra doenças neurodegenerativas.
“Ainda não é possível afirmar que o cérebro de uma pessoa com altas habilidades envelheça mais lentamente ou apresente proteção específica contra doenças neurodegenerativas.”
Para a especialista, manter hábitos que favoreçam a saúde cerebral continua sendo importante para qualquer pessoa.
“Manter oportunidades de aprendizagem, desafios cognitivos, atividade física, participação social e cuidados com a saúde ao longo da vida continua sendo importante para a promoção de um envelhecimento saudável.”
Uma nova política para estudantes com altas habilidades
Em junho de 2026, foi sancionada a Lei Federal nº 15.436, que criou a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação.
A legislação prevê medidas como identificação precoce, atendimento educacional especializado, progressão escolar flexível, formação de profissionais da educação e criação de um cadastro nacional.
A lei também contempla situações de dupla excepcionalidade, considerando as altas habilidades e eventuais necessidades relacionadas a outra condição ou deficiência.
Mais do que cobrar, é preciso compreender
A trajetória de Klaus mostra que a superdotação pode abrir portas, mas não elimina dificuldades. A facilidade para aprender e compreender conteúdos complexos pode coexistir com desafios emocionais, sociais e comportamentais.
Por isso, reconhecer altas habilidades não deve significar colocar uma criança ou adulto sob uma cobrança permanente por excelência.
O mais importante é compreender a pessoa de maneira integral, oferecendo estímulos adequados, espaço para desenvolver diferentes interesses e apoio quando surgirem dificuldades.
A experiência de Klaus resume um dos principais desafios de quem cresce carregando a expectativa de ser sempre excepcional: “Só esperam de você o máximo.”
Para além da inteligência, existe uma pessoa que também precisa ser acolhida, compreendida e livre para aprender, errar, conviver e desenvolver suas próprias habilidades.





