Por que alguns destinos querem deixar de ser Patrimônio da Humanidade

A cada ano, a Unesco, braço da ONU para a educação, ciência e cultura, escolhe uma série de lugares ao redor do planeta para incluir em sua lista de Patrimônios da Humanidade. Designados como culturais ou naturais (e por vezes recebendo o título de “mistos”, que contempla as duas categorias), eles começaram a ser estabelecidos em 1978 e, quase meio século mais tarde, tornaram-se uma longa lista de quase 1,3 mil destinos.

Hoje, enquanto alguns lugares ainda lutam para ser reconhecidos pela Unesco, outros querem exatamente o contrário: ser removidos da lista de uma vez por todas.

Normalmente, entrar na lista da Unesco é uma deferência – e até uma tática de sobrevivência. O processo exige estudos e documentos apresentados por autoridades e especialistas demonstrando por que aquele local é importante e, se finalmente aprovado, ajuda a trazer os olhos do mundo para algo que as comunidades locais querem que seja preservado.

De forma decisiva, a inclusão na lista também costuma liberar mais verbas para evitar que o patrimônio seja destruído, até mesmo com acesso a fundos internacionais sob os auspícios da ONU. Há diversos cases de sucesso pelo mundo, como ocorreu com Angkor Wat, o famoso templo que aparece até na bandeira do Camboja e, antes da Unesco, vinha sendo gradativamente dilapidado por décadas de guerras civis, abandono governamental e saques.

Então, por que certas partes do mundo começaram a querer distância desse reconhecimento?

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Angkor Wat é case de sucesso de um patrimônio da humanidade que era considerado “em perigo” e foi preservado pela inclusão na listaVicky T/Unsplash

Por que sair da lista da Unesco?

Ocorre que, em certos lugares, a atenção gerada pela condição de Patrimônio da Humanidade parece estar trazendo mais problemas do que benefícios. O overtourism é um problema constante, que já fez destinos conhecidos criarem cotas máximas de visitantes por dia, mês ou temporada, como ocorre com a cidadela de Machu Picchu, no Peru (um patrimônio misto desde 1983) ou o Monte Fuji, no Japão (um patrimônio cultural desde 2013).

Nenhum dos dois citados deseja exatamente ser removido da lista da Unesco, mas ambos sofrem com dores de cabeça que são ainda mais graves em outros lugares com menos estrutura para receber visitantes.

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Na Eslováquia, o pequeno vilarejo de Vlkolínec é um exemplo extremo: a localidade, inserida pela Unesco em sua lista em 1993, conta com apenas 20 moradores permanentes – mas recebe 100 mil visitantes por ano. Na Tanzânia, o parque de Ngorongoro, incluído em 1979 e famoso por safáris, é alvo de pedidos de remoção por estar afetando comunidades pastoris de suas áreas ancestrais.

Eslováquia: o outrora pacato vilarejo de Vlkolínec quer sair da listaDaniel Tóth/Unsplash

Em lugares assim, críticos apontam que o reconhecimento internacional tem feito bem pouco pela preservação: o fluxo contínuo de pessoas vindas de fora afeta a rotina e o modo de vida que tornaram o local digno de se tornar um patrimônio em primeiro lugar. E, embora não seja o caso em um lugar tão pequeno como Vlkolínec, outras cidades ou bairros mais povoados que entraram no cartel da preservação vêm enfrentando problemas como a gentrificação ou, ainda pior, a substituição completa de residências por lojas de souvenires, hotéis e restaurantes voltados exclusivamente aos turistas.

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Nos lugares em que os moradores não foram “expulsos” pelo bulício e pelos preços altos, surge também o conflito em torno dos limites da preservação: como ocorre com qualquer patrimônio tombado, há dúvidas sobre até onde é possível renovar uma casa ou rua sem violar os preceitos da Unesco, mas ainda assim buscando atender novas necessidades da comunidade que segue vivendo ali.

Como a Unesco tem lidado com a situação

Apesar dos protestos, é raro que um patrimônio da humanidade realmente deixe de sê-lo aos olhos da Unesco. Até hoje, a entidade só excluiu três destinos de sua lista cada vez maior – um em Omã, outro na Alemanha e o mais recente em Liverpool, na Inglaterra, em 2021. Geralmente, isso acontece por ações de autoridades locais que reduzem as áreas protegidas ou promovem reformas grandes demais que acabariam descaracterizando o local.

“Cidade Mercantil Marítima” de Liverpool é o mais recente dos três antigos patrimônios da humanidade que foram removidos da lista da UnescoMark Anderson/Wikimedia Commons

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Ainda assim, o problema do turismo excessivo passou a ser reconhecido pela organização como algo sério. Hoje, a Unesco orienta que os candidatos a entrar na lista dos patrimônios tenham um plano bem estabelecido para administrar a chegada de um número maior de turistas e proteger áreas mais sensíveis dos problemas que esse influxo pode causar. No passado, a presença de visitantes ficava em segundo plano nos manuais da entidade. Hoje, ela é vista como uma oportunidade – mas também um desafio.

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