Quantas vezes uma mulher percebe que alguma coisa não está bem, mas pensa: “quando eu tiver tempo, vou ao médico”? Entre o trabalho, os filhos, a casa, os relacionamentos e tantas outras responsabilidades, é comum que o próprio cuidado fique para depois.
O problema é que saúde não deveria entrar na nossa agenda apenas quando aparece um sintoma.
Neste mês, uma mudança importante reforça justamente essa necessidade. A Lei nº 15.493, sancionada em setembro, estabelece ações para avaliação médica completa e periódica da saúde da mulher no Sistema Único de Saúde (SUS). A legislação prevê que essa avaliação seja realizada pelo menos uma vez ao ano e contemple exames e estratégias de prevenção de acordo com as necessidades de cada mulher.
Mais do que uma mudança na legislação, vejo essa iniciativa como um convite para mudarmos nossa relação com a própria saúde.
A consulta de rotina não deve ser encarada apenas como o momento do exame ginecológico. A saúde da mulher é muito mais ampla. Envolve saúde sexual e reprodutiva, prevenção de doenças, vacinação, alimentação, atividade física, saúde cardiovascular, saúde mental e os cuidados específicos de cada fase da vida.
Também não existe uma lista universal de exames que toda mulher precisa fazer todos os anos. A prevenção precisa ser individualizada. Idade, histórico familiar, fatores de risco e momento de vida são alguns dos elementos que ajudam o profissional a definir quais avaliações realmente são necessárias.
É importante lembrar também que não precisamos esperar o próximo “check-up” quando existe algum sinal de alerta. Sangramentos fora do período menstrual, dor persistente, alterações nas mamas, mudanças importantes no ciclo, corrimentos diferentes do habitual ou dor durante a relação sexual, por exemplo, merecem avaliação.
Outro ponto fundamental é não transformar a consulta em uma obrigação burocrática. O atendimento precisa ser um espaço de conversa. Muitas mulheres passam anos convivendo com alterações menstruais, queda da libido, dor, sintomas da menopausa ou sofrimento emocional acreditando que precisam simplesmente “aguentar”. Não precisam.
Cuidar da saúde é também aprender a escutar o próprio corpo e falar sobre aquilo que incomoda.
A nova lei ainda precisa ser implementada e entra em vigor 180 dias após sua publicação. Mas a mensagem que ela reforça já pode fazer parte da nossa rotina: prevenção não é esperar a doença aparecer para agir.
Nós, mulheres, passamos boa parte da vida cuidando de outras pessoas. Talvez esteja na hora de entender que colocar a própria saúde na lista de prioridades não é egoísmo.
É prevenção. É autonomia. E também é uma forma de cuidar de quem amamos, começando por nós mesmas.
*Karoline Prado é médica ginecologista e obstetra, com atuação voltada à saúde íntima feminina em todas as fases da vida. Pós-graduada em procedimentos íntimos, incluindo laser e cirurgia íntima, trabalha com foco em bem-estar, funcionalidade e qualidade de vida da mulher.





