Quando o autocuidado vira cobrança: o fenômeno do “wellness burnout” que está esgotando os profissionais

Acordar às cinco da manhã, meditar, treinar pesado, monitorar o sono e manter uma alimentação impecável. O que parecia a receita ideal de saúde virou uma nova fonte de estresse. Nesse sentido, surge o conceito de wellness burnout, termo usado para descrever o esgotamento causado pela própria pressão de manter um estilo de vida impecável.

No Brasil, a discussão ganha força em um momento de atenção redobrada à saúde mental dos trabalhadores. Desde maio de 2026, a NR-1 passou a incluir expressamente os fatores de riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), como sobrecarga e falta de suporte.

A nutricionista e pesquisadora Brunna Boaventura, PhD com pós-doutorado vinculado à Harvard Medical School, alerta que esse cenário abre margem para um acúmulo perigoso de pressões, especialmente quando gestores usam hábitos pessoais como parâmetro corporativo.

“É comum encontrarmos líderes que realmente incorporam hábitos muito saudáveis à própria rotina. O problema é quando esse comportamento vira uma régua para avaliar os outros que, dependendo de suas funções, não dispõem do mesmo tempo. Se o gestor acorda às cinco da manhã, treina todos os dias e mantém uma alimentação extremamente controlada, pode acabar considerando preguiçoso quem não consegue fazer o mesmo”, afirma Brunna Boaventura.

Números alarmantes e a régua injusta

Os dados refletem o tamanho do problema. Entre 2021 e 2025, os afastamentos por Síndrome de Burnout no país saltaram de 823 para 7.595 — um aumento impressionante de cerca de 823%, segundo o Ministério da Previdência Social.

Por outro lado, impor um padrão único de bem-estar ignora que cada colaborador vive uma realidade diferente fora do escritório, com demandas de deslocamento, filhos e orçamento restrito.

Falta de tempo: Nem todos possuem a mesma disponibilidade para rotinas longas de treino.

Sobrecarga invisível: Tarefas domésticas e familiares impactam diretamente no descanso.

Medo de julgamento: A tentativa de cumprir metas irrealistas para agradar a liderança gera constante insatisfação.

“Saúde não deveria ser uma competição. Uma pessoa não é menos disciplinada ou menos competente porque não consegue reproduzir a rotina de outra. Quando o autocuidado passa a ser mais uma cobrança, ele perde justamente a função que deveria ter em relação ao bem-estar, pois o receio de perder o emprego, ou ser julgado e discriminado por seus hábitos, pode fazer com que o colaborador tente cumprir algo que não consegue, aumentando ainda mais a autocobrança e a insatisfação com o trabalho e com a vida no geral”, diz a médica.

Entenda o que é o wellness burnout. Especialista alerta sobre os riscos da pressão por hábitos saudáveis no trabalho e na rotina – Canva Equipes/zamrznutitonovi de Getty Images

O verdadeiro papel das empresas

Com as atualizações da legislação, oferecer aplicativos de meditação ou convênios com academias já não é o suficiente. É preciso transformar a cultura organizacional.

“Não adianta incentivar o funcionário a meditar se ele precisa responder mensagens fora do horário, nem falar em qualidade de vida quando jornadas excessivas são tratadas como demonstração de comprometimento. O bem-estar também depende da forma como o trabalho é organizado”, destaca a nutricionista.

Para Brunna Boaventura, as corporações precisam ir além do wellness básico e focar no bem-estar integral: “É preciso expandir a visão de bem-estar dentro das organizações, não apenas incentivando ações de wellness, as quais são voltadas a aspectos de hábitos de saúde, mas proporcionar atividades que promovam o bem-estar geral dos colaboradores, com o foco no florescimento de cada um, resgatando inclusive o senso de propósito nas atividades laborais”.

Em suma, querer cuidar do corpo e da mente é ótimo, mas transformar esses hábitos em uma obrigação diária traz prejuízos. A especialista conclui lembrando que desacelerar também é fundamental: “Isso não significa fracasso. Descansar também faz parte de uma vida saudável”.

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