Um novo medicamento aprovado nos Estados Unidos chama atenção por atuar diretamente sobre a massa muscular. O Isembyld, cujo princípio ativo é o apitegromab, recebeu autorização da agência reguladora norte-americana FDA para o tratamento de pacientes com atrofia muscular espinhal (AME), uma doença genética rara que provoca perda progressiva de força.
A novidade também interessa a uma área que vem ganhando espaço com o aumento do uso de medicamentos para emagrecer. O apitegromab está sendo estudado em combinação com a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, para avaliar se a estratégia consegue reduzir a perda de massa muscular que pode acompanhar o emagrecimento.
É importante destacar, porém, que os dois usos são situações diferentes. A aprovação nos Estados Unidos é para pacientes com AME. A utilização do medicamento para preservar massa muscular durante o tratamento com tirzepatida ainda está em investigação e não foi aprovada para essa finalidade.
O que é a atrofia muscular espinhal?
A AME é uma doença genética que compromete os neurônios responsáveis pelo controle dos músculos. Com a progressão da condição, o paciente pode apresentar perda de força e dificuldades para realizar movimentos.
Dependendo do quadro, as limitações podem afetar atividades como andar e, nos casos mais graves, até mesmo a respiração.
Os tratamentos já utilizados para a doença atuam principalmente sobre mecanismos relacionados ao gene SMN2. Nusinersen e risdiplam, por exemplo, aumentam a produção de uma proteína importante para a sobrevivência dos neurônios motores.
O apitegromab segue outro caminho. Em vez de atuar diretamente sobre esse mecanismo, ele age sobre a própria musculatura.
Como o novo medicamento age no músculo?
O apitegromab bloqueia a ação da miostatina, uma proteína que funciona como um regulador do crescimento muscular.
A miostatina está presente normalmente no organismo e participa do controle da quantidade de músculo que o corpo desenvolve. Ao bloquear sua ação, o medicamento busca favorecer o crescimento e a função muscular.
Essa atuação é diferente daquela dos tratamentos que já existem para a AME. Por isso, o apitegromab não substitui essas terapias. A aprovação é para que seja utilizado em conjunto com os tratamentos existentes.
Nos Estados Unidos, a indicação contempla pacientes com AME a partir dos 2 anos que já estejam em tratamento com nusinersen ou risdiplam.
O que o estudo com pacientes com AME mostrou?
A aprovação teve como base o estudo Sapphire, que acompanhou 188 pacientes entre 2 e 21 anos, em nove países, durante aproximadamente um ano.
Todos os participantes já recebiam tratamento com nusinersen ou risdiplam. Parte deles também recebeu apitegromab, enquanto o restante recebeu placebo.
Ao final do acompanhamento, os pacientes que receberam o novo medicamento apresentaram, em média, uma melhora de 2,2 pontos em uma escala utilizada para avaliar a função motora em pessoas com AME. No grupo que recebeu placebo, houve perda de função motora durante o mesmo período.
Uma diferença também apareceu quando os pesquisadores analisaram os participantes que alcançaram uma melhora de pelo menos três pontos na escala. Isso ocorreu em 34% dos pacientes que receberam apitegromab, contra 13,5% daqueles que receberam placebo.
Os efeitos adversos mais frequentes relatados no estudo incluíram infecções respiratórias, vômitos, tosse, dor de cabeça e reações alérgicas.
E o que o medicamento tem a ver com as canetas para emagrecer?
A relação está justamente na ação sobre a massa muscular. Medicamentos à base de tirzepatida, como o Mounjaro, são utilizados para determinadas condições de saúde e também estão associados à perda de peso. Durante um processo de emagrecimento, entretanto, o organismo pode perder não apenas gordura, mas também massa magra.
Preservar a massa muscular é uma preocupação durante o emagrecimento porque ela está relacionada à força e à capacidade funcional do organismo.
É nesse ponto que o apitegromab passou a ser estudado. Como o medicamento interfere em uma proteína relacionada ao crescimento muscular, os pesquisadores querem descobrir se sua utilização junto à tirzepatida pode ajudar a preservar parte dessa massa durante a perda de peso.
O que os primeiros testes com tirzepatida indicaram?
Um estudo de fase 2 avaliou a combinação de apitegromab com tirzepatida. Os resultados preliminares foram divulgados em julho.
Depois de 24 semanas, os participantes que receberam os dois medicamentos apresentaram preservação de aproximadamente 55% mais massa magra em comparação com aqueles que utilizaram apenas o medicamento para emagrecimento.
O resultado é inicial e precisa ser interpretado dentro das limitações de um estudo ainda em andamento. Ensaios de fase 2 são realizados para investigar eficácia, segurança e definir parâmetros para estudos posteriores, mas não são suficientes, sozinhos, para estabelecer uma nova indicação terapêutica.
O medicamento já pode ser usado para evitar perda muscular durante o emagrecimento?
Não. A autorização do apitegromab nos Estados Unidos é para o tratamento da atrofia muscular espinhal. O uso combinado com tirzepatida para preservar massa muscular ainda está sendo estudado.
Portanto, os resultados preliminares não significam que o medicamento esteja aprovado para pessoas que utilizam Mounjaro ou outras terapias para emagrecimento.
Também não significa que pacientes em tratamento com tirzepatida devam receber apitegromab para evitar perda de massa muscular. Qualquer combinação de medicamentos precisa ser avaliada em estudos específicos e, posteriormente, pelas autoridades regulatórias responsáveis por sua aprovação.
Por que preservar massa muscular importa durante o emagrecimento?
A perda de peso não representa necessariamente uma redução exclusiva de gordura corporal. Dependendo do processo de emagrecimento, parte da massa perdida pode ser composta por tecido magro.
Por isso, o acompanhamento do peso isoladamente não mostra tudo o que está acontecendo no organismo. Avaliar a composição corporal pode ser importante para entender de onde vem a perda de peso e acompanhar mudanças na massa muscular.
Atividade física, especialmente exercícios que envolvem resistência, e ingestão adequada de proteínas fazem parte das estratégias utilizadas para preservar massa muscular durante o emagrecimento. A necessidade de proteína e o tipo de exercício, porém, variam de acordo com idade, condições de saúde, alimentação e objetivos individuais.
EUA aprovam remédio para perda de massa muscular. Foto: Magnific
O que ainda falta descobrir?
Os resultados iniciais da combinação entre apitegromab e tirzepatida precisam ser confirmados em pesquisas maiores e com acompanhamento mais longo.
Ainda é necessário entender, por exemplo, a magnitude do efeito na composição corporal, a segurança da combinação, quais pacientes poderiam se beneficiar e se a preservação de massa magra observada no estudo se traduz em ganhos relevantes de força e função.
Por enquanto, o que existe é uma nova linha de pesquisa baseada em um medicamento já aprovado para uma doença muscular específica. A possibilidade de utilizá-lo para reduzir a perda de massa magra associada ao emagrecimento permanece em investigação.
Resumo: O apitegromab foi aprovado nos Estados Unidos para pacientes com atrofia muscular espinhal e atua bloqueando a miostatina, proteína envolvida na regulação do crescimento muscular. O medicamento também está sendo estudado junto à tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, para avaliar se pode ajudar a preservar massa magra durante o emagrecimento. Os primeiros resultados são promissores, mas essa segunda finalidade ainda não foi aprovada e depende de novos estudos.
Leia também:






