Recomeçar depois de uma perda nem sempre significa deixar o passado para trás. O fim de um relacionamento, uma mudança profissional, a morte de alguém querido ou até a sensação de não se reconhecer mais podem trazer medo, culpa e insegurança. No livro “Coragem para recomeçar: Superando medos e dores, construindo novos caminhos”, o psicólogo Marcos Lacerda propõe olhar para essas experiências de outra maneira: em vez de apagar o que aconteceu, é possível integrar as marcas da trajetória e encontrar novos significados para elas.
Com mais de três décadas de atuação clínica, o autor reúne na obra conhecimentos de psicologia, psicanálise, filosofia, espiritualidade e mitologia para abordar temas como perdas, luto, medo e transformação. Entre as referências utilizadas está o Kintsugi, técnica japonesa que valoriza as marcas deixadas em peças de cerâmica quebradas, e a imagem da fênix, associada à ideia de renascimento.
A partir dessas reflexões, Lacerda apresenta exercícios que podem ajudar a transformar algumas dessas ideias em atitudes concretas. Confira cinco delas:
1. As marcas do passado também fazem parte da história
Tentar eliminar lembranças dolorosas ou fingir que determinadas experiências nunca aconteceram pode dificultar o processo de reconstrução. A proposta apresentada no livro é outra: reconhecer o que foi vivido e buscar novos significados para essa experiência.
A lógica se aproxima do Kintsugi, em que as marcas de uma peça quebrada não são escondidas, mas passam a integrar sua aparência. Na vida, experiências difíceis também podem fazer parte da trajetória sem determinar todos os capítulos seguintes.
Exercício: escreva sobre uma situação que ainda provoca dor. Depois, registre três aprendizados, características ou forças que você desenvolveu a partir dessa experiência.
2. Reconhecer o que não depende de você pode ajudar a seguir
Nem tudo pode ser controlado. Pessoas, acontecimentos e circunstâncias podem mudar independentemente da nossa vontade, e insistir em interferir no que está fora do nosso alcance pode aumentar a sensação de sofrimento.
Para o autor, reconhecer esses limites permite concentrar a atenção naquilo que ainda pode ser modificado.
Exercício: divida uma folha em duas partes. De um lado, coloque aquilo que você não pode mudar. Do outro, anote o que ainda pode fazer diante da situação. Para o primeiro grupo, escreva uma frase de aceitação. Em seguida, escolha uma atitude simples da segunda lista para realizar nos próximos sete dias.
Dicas para um novo recomeço. Foto: Magnific
3. O luto tem seu próprio ritmo
Não existe uma necessidade de acelerar o processo de luto para que a vida volte rapidamente ao normal. A perda exige uma reorganização interna, e sentimentos como tristeza, raiva e saudade podem fazer parte desse caminho.
Respeitar o próprio tempo é, portanto, uma das propostas apresentadas pelo psicólogo para lidar com as mudanças sem transformar a recuperação em uma corrida.
Exercício: faça uma autoavaliação e observe quais sentimentos estão mais presentes neste momento. Anote o que apareceu, sem julgamentos, e reflita sobre o que pode ajudar a acolher essas emoções com mais paciência.
4. Uma mudança pequena também pode abrir um novo caminho
Recomeçar não precisa significar tomar uma decisão radical de uma hora para outra. Pequenas escolhas podem modificar gradualmente a direção que uma pessoa dá à própria vida.
Lacerda relaciona essa ideia ao chamado “efeito panapaná”, expressão associada ao movimento de um grande conjunto de borboletas. A proposta é pensar que uma pequena mudança pode desencadear outras ao longo do caminho.
Exercício: escolha uma área da vida que você gostaria de transformar e pergunte a si mesmo: “Qual é a menor atitude que posso tomar hoje para começar essa mudança?”. Defina uma ação possível e coloque-a em prática nos próximos sete dias.
5. Recomeçar também envolve olhar para os próprios desejos
Atender continuamente às expectativas dos outros pode fazer com que uma pessoa perca de vista aquilo que realmente deseja ou considera importante. Dentro da proposta de individuação apresentada no livro, reconhecer as próprias necessidades e assumir responsabilidade pelas escolhas também faz parte do processo.
Isso não significa ignorar as pessoas ao redor, mas deixar de usar a aprovação externa como principal medida para tomar decisões sobre a própria vida.
Exercício: pense em diferentes áreas da sua vida e identifique uma decisão, hábito ou comportamento que você mantém principalmente para corresponder à expectativa de outra pessoa. Então, pergunte: “Se eu não precisasse agradar ninguém, o que escolheria?”. A partir da resposta, identifique uma mudança possível e dê o primeiro passo.
Reconstruir a própria trajetória envolve aceitar a impermanência, reconhecer a vulnerabilidade e se permitir começar novamente, mesmo quando o próximo passo ainda não está totalmente claro.
Resumo: Recomeçar depois de uma perda não significa apagar o passado. Segundo as reflexões apresentadas por Marcos Lacerda no livro “Coragem para recomeçar”, aceitar o que aconteceu, respeitar o tempo do luto, reconhecer os próprios limites e fazer pequenas escolhas pode ajudar a construir novos caminhos.





