Paracetamol na gravidez: o que diz estudo sobre relação com autismo e TDAH?

O uso de paracetamol durante a gravidez voltou ao centro das discussões científicas depois que pesquisas anteriores levantaram a possibilidade de uma relação entre a exposição ao medicamento e alterações no desenvolvimento neurológico dos filhos. Uma nova revisão, porém, aponta que essa associação pode ser menos consistente do que os primeiros resultados sugeriam.

Publicado em setembro de 2026 na revista Developmental Medicine & Child Neurology, o trabalho reuniu sete meta-análises que, juntas, envolveram mais de 3 milhões de participantes. Os pesquisadores avaliaram não apenas os resultados encontrados, mas também a qualidade dos estudos e os possíveis fatores que poderiam distorcer as conclusões.

A análise mostrou que, quando todos os trabalhos eram considerados, apareciam pequenas associações entre o uso de paracetamol na gestação e autismo ou TDAH. Porém, essas associações diminuíam de forma significativa quando os pesquisadores davam maior peso às evidências consideradas metodologicamente mais confiáveis.

O que muda quando os pesquisadores olham para a qualidade das evidências

Uma das questões centrais da nova análise é que nem todos os estudos científicos apresentam o mesmo nível de confiabilidade. Pesquisas observacionais, por exemplo, podem identificar que dois acontecimentos aparecem juntos com maior frequência, mas isso não significa necessariamente que um tenha provocado o outro.

Pode usar paracetamol na gravidez? Foto: Magnific

No caso do paracetamol, existe ainda uma dificuldade específica: o medicamento geralmente é utilizado porque a gestante apresenta algum problema, como febre, dor, infecção ou inflamação.

Essas próprias condições podem estar relacionadas a desfechos da gravidez e do desenvolvimento da criança. Assim, separar o possível efeito do medicamento daquele relacionado à doença ou ao sintoma que levou ao seu uso é um desafio importante.

A nova revisão considerou justamente essas limitações. Segundo os autores, parte das associações identificadas em pesquisas anteriores pode estar relacionada a fatores de confusão e problemas metodológicos, e não necessariamente a um efeito causado pelo paracetamol.

Associação não é o mesmo que causa

Para Anna Dominguez Bohn, pediatra especialista em Neurociência e Desenvolvimento Infantil e presidente do Núcleo de Estudo da Criança com Deficiência da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), esse é um dos principais pontos para entender os resultados. “Associação não significa necessariamente causalidade. Uma pessoa tomou uma vacina no posto de saúde, saiu de lá e foi atropelada. Existe uma associação temporal entre os dois eventos, mas isso não significa que haja relação de causa e efeito”, explica.

A diferença é importante porque uma associação estatística pode ser interpretada de maneira equivocada quando transformada em uma afirmação de causa e efeito. Em temas relacionados à gravidez, esse tipo de interpretação pode ter consequências ainda maiores, já que pode levar mulheres a interromper tratamentos necessários por medo.

“Estudos fracos podem encontrar uma associação em que não se sabe se existe nexo causal e divulgá-la como se houvesse causalidade. Isso é muito perigoso, principalmente na velocidade com que as informações circulam hoje”, completa Anna.

Por que o paracetamol é tão utilizado durante a gravidez?

O medicamento é amplamente utilizado para aliviar dor e reduzir a febre durante a gestação. De acordo com a revisão, estimativas globais indicam que mais de 50% das gestantes utilizam paracetamol em algum momento da gravidez.

Um dos motivos é que diversas opções de analgésicos disponíveis para a população geral não são consideradas adequadas em determinados períodos da gestação.

“Existem vários analgésicos usados na população geral, mas que não podem ser usados durante a gestação. Seria muito complicado não poder utilizar o paracetamol, porque praticamente não existe outra opção segura”, afirma a pediatra.

Isso, no entanto, não significa que o medicamento deva ser tomado sem orientação. A própria revisão ressalta que ainda existem limitações nas evidências relacionadas à dose, à duração e ao momento da exposição durante a gravidez.

“Como qualquer medicamento, o uso prolongado pode ter potenciais eventos adversos. Quando bem indicado, deve ser utilizado pelo período e tempo necessários”, orienta Anna.

E quando a gestante está com febre?

A discussão sobre o paracetamol não pode ser separada do motivo pelo qual o medicamento foi utilizado. Uma gestante com febre ou dor também precisa ter o quadro investigado e, quando necessário, tratado.

Por isso, o receio em relação a possíveis efeitos do medicamento não deve fazer com que a mulher deixe de procurar atendimento ou decida suspender um tratamento por conta própria.

A especialista destaca justamente a importância de cuidar da saúde materna durante a gestação. “A saúde materna bem cuidada é o maior fator protetor para a saúde do bebê. Uma mãe com doença descompensada e sem tratamento pode ter riscos muito maiores, como parto prematuro, malformações e outras complicações”, afirma.

O estudo também considera que febre e dor não tratadas podem trazer consequências para a gestante e para o feto. Por isso, a análise não encontrou justificativa, com base nas evidências atuais, para uma mudança nas recomendações existentes.

O que fazer diante de dor ou febre na gestação?

O caminho mais seguro é informar o profissional responsável pelo pré-natal sobre qualquer episódio de dor ou febre. A partir daí, é possível investigar a causa e decidir se há necessidade de tratamento e qual conduta é adequada.

“Todo quadro de dor e febre precisa ser comunicado ao médico. Diante de um sintoma agudo, a gestante deve tratar os sintomas, principalmente a febre, pelos riscos que ela pode trazer para o bebê”, orienta Anna.

A nova revisão, portanto, não significa que medicamentos devam ser usados livremente durante a gravidez. O que os resultados indicam é que, até o momento, não há evidências robustas de uma relação causal entre a exposição pré-natal ao paracetamol e o desenvolvimento de autismo ou TDAH.

O estudo reforça, ainda, a importância de interpretar pesquisas médicas levando em consideração sua qualidade metodológica, possíveis fatores de confusão e a diferença entre uma associação observada e uma relação comprovadamente causal.

Resumo: Uma revisão publicada em setembro de 2026 analisou sete meta-análises sobre o uso de paracetamol durante a gravidez e possíveis relações com autismo e TDAH. Embora pequenas associações apareçam quando todos os estudos são considerados, elas perdem força quando a análise prioriza pesquisas de maior qualidade e menor risco de viés. O resultado não indica que o medicamento deva ser usado sem orientação, mas também não sustenta uma relação causal robusta com esses transtornos do neurodesenvolvimento.

Leia também:

OMS esclarece sobre uso de Paracetamol na gravidez