PET amiloide e PET-FDG ajudam a investigar o Alzheimer

Esquecer onde deixou as chaves ou o que foi buscar em outro cômodo pode acontecer com qualquer pessoa. Quando as falhas de memória se tornam frequentes, porém, passam a interferir na rotina ou vêm acompanhadas de outras mudanças, é importante procurar avaliação médica. A médica nuclear e especialista em exames de Medicina Nuclear e PET/CT Dra. Cristina Matushita explica que exames como o PET amiloide e o PET-FDG podem fornecer dados complementares para investigar alterações cerebrais, mas a indicação depende de cada caso.

O que muda no cérebro

A doença de Alzheimer é neurodegenerativa e provoca alterações progressivas no cérebro. Entre elas estão o acúmulo da proteína beta-amiloide, que forma placas entre as células nervosas, e alterações da proteína tau, que pode se acumular dentro dos neurônios.

Essas mudanças estão associadas ao funcionamento cerebral e podem acompanhar dificuldades de memória, linguagem, orientação e realização de tarefas cotidianas. Segundo Dra. Cristina, alterações biológicas podem surgir antes de os sintomas ficarem evidentes. Isso não significa, contudo, que um exame de imagem isolado seja suficiente para diagnosticar a doença ou prever como ela evoluirá.

A avaliação clínica continua sendo essencial. O profissional considera a história da pessoa, os sintomas, os testes cognitivos e outros exames, além de investigar causas que podem afetar a memória, como alterações da tireoide, deficiência de vitamina B12, depressão, distúrbios do sono e efeitos de medicamentos.

PET amiloide: investigação das placas

O PET amiloide é um exame de Medicina Nuclear que utiliza um radiofármaco  uma substância marcada por uma pequena quantidade de material radioativo para mostrar a presença e a distribuição de depósitos de beta-amiloide no cérebro.

Um resultado negativo pode tornar menos provável que a doença de Alzheimer explique os sintomas. Já um resultado positivo indica placas amiloides, mas não confirma, por si só, que elas sejam a causa das alterações cognitivas: esses depósitos também podem estar presentes em pessoas sem sintomas, sobretudo com o avanço da idade. Por isso, Dra. Cristina ressalta que o laudo deve ser interpretado junto com a avaliação clínica.

O exame pode ser considerado quando persiste dúvida sobre a causa do comprometimento cognitivo e quando o resultado tem potencial para orientar decisões de cuidado. As recomendações conjuntas de 2025 da Alzheimer’s Association e da Society of Nuclear Medicine and Molecular Imaging também destacam que o PET deve complementar uma avaliação clínica abrangente e ser solicitado quando puder influenciar a conduta. alz.org

PET-FDG: como o cérebro usa energia

O PET cerebral com FDG avalia o metabolismo da glicose, uma das fontes de energia utilizadas pelas células do cérebro. O exame pode mostrar padrões de menor atividade em determinadas regiões, que ajudam a equipe médica a investigar o funcionamento cerebral.

Na doença de Alzheimer, algumas áreas relacionadas à memória e a outras funções cognitivas podem apresentar padrões característicos de redução do metabolismo. O PET-FDG também pode contribuir para diferenciar o Alzheimer de outras condições que causam alterações cognitivas, embora o resultado precise ser avaliado no contexto dos sintomas e dos demais exames.

A Dra. Cristina explica que esse exame não mostra diretamente as placas de beta-amiloide. Ele oferece outra informação: como diferentes regiões cerebrais estão utilizando glicose. Por isso, pode complementar a investigação feita com o PET amiloide, que observa a presença dessas placas.

Foto: Divulgação

Exames diferentes, perguntas diferentes

De forma simples, os exames respondem a questões distintas: o PET amiloide investiga se há acúmulo significativo de beta-amiloide; o PET-FDG avalia padrões do metabolismo cerebral. A combinação dos resultados com a avaliação médica pode ajudar a esclarecer casos em que o diagnóstico não está evidente.

Isso não significa que toda pessoa com esquecimentos precise fazer esses exames  muito menos ambos. A indicação depende dos sintomas, da avaliação do profissional e da possibilidade de o resultado mudar o diagnóstico ou as decisões de cuidado. As diretrizes atualizadas para PET amiloide e tau reforçam o uso criterioso dos exames e sua interpretação em conjunto com a avaliação clínica. alz.org

Quando procurar avaliação

Esquecimentos ocasionais podem fazer parte do dia a dia. Vale conversar com um profissional de saúde quando eles se tornam repetidos ou progressivos, especialmente se a pessoa:

esquece com frequência conversas ou acontecimentos recentes;
repete as mesmas perguntas;
começa a ter dificuldade em tarefas que antes realizava normalmente;
fica desorientada em lugares conhecidos;
encontra dificuldade crescente para acompanhar conversas ou encontrar palavras;
apresenta mudanças de comportamento junto com alterações de memória.

O primeiro passo pode ser procurar um clínico, geriatra ou neurologista, que avaliará os sintomas e indicará os próximos procedimentos.

Informação para cuidar da autonomia

Um diagnóstico bem conduzido pode ajudar a pessoa e a família a compreender o que está acontecendo, organizar o cuidado e conversar com a equipe de saúde sobre as opções disponíveis. Para alguns pacientes em fases iniciais, tratamentos direcionados à beta-amiloide podem ser considerados conforme critérios clínicos e disponibilidade. A confirmação de uma alteração biológica pode fazer parte dessa avaliação, mas não determina sozinha a indicação de tratamento.

“Envelhecer não significa, necessariamente, perder a memória; e esquecer não significa obrigatoriamente ter Alzheimer”, destaca Dra. Cristina Matushita. Para a médica nuclear, mudanças persistentes merecem atenção e orientação profissional. A Medicina Nuclear oferece ferramentas que podem ampliar a investigação, mas o cuidado começa com uma avaliação individualizada.