Quando alguém fala em altas habilidades, ou superdotação, a imagem que aparece na cabeça é quase sempre a mesma. Aquela criança que aprendeu a ler antes de todo mundo. O menino que faz pergunta que o professor não sabe responder. O adulto que parece ter uma resposta pronta pra tudo. Gente que, aos olhos de fora, nasceu com a vida resolvida.
Só que existe um lado dessa história que quase ninguém conta. E eu vejo esse lado com frequência no consultório.
Ter uma capacidade intelectual elevada não é garantia de uma vida mais fácil. Às vezes é o contrário. E talvez o maior problema nem esteja na criança ou no adulto superdotado, mas na expectativa que a gente coloca em cima dessas pessoas, como se inteligência funcionasse como um escudo contra todas as dificuldades da vida. Não funciona.
Uma criança pode compreender conceitos que os colegas ainda não alcançam, ter um raciocínio sofisticado pra idade e, ao mesmo tempo, desmoronar diante de uma frustração relativamente simples. Conversa sobre assuntos complexos com os adultos, mas chora inconsolavelmente porque perdeu um jogo de tabuleiro ou porque alguma coisa saiu diferente do que tinha imaginado. Quantas vezes já ouvi de pais essa mesma pergunta, quase sempre com um tom de culpa: “doutora, como uma criança tão inteligente pode ter uma reação tão infantil?”
A resposta é que desenvolvimento intelectual e maturidade emocional não precisam andar na mesma velocidade. Na psicologia existe até um nome pra isso: desenvolvimento assincrônico. Os ritmos são diferentes, e isso pode acontecer em crianças com altas habilidades. Não é regra, mas acontece.
Mas afinal, o que são altas habilidades?
As altas habilidades ou superdotação são caracterizadas por capacidades, ou potencial, significativamente elevados em uma ou mais áreas do desenvolvimento humano. Repare que eu disse “uma ou mais áreas”. Não estamos falando só de inteligência medida por teste de QI, embora o QI possa fazer parte da avaliação. Esse potencial pode aparecer no raciocínio lógico, na linguagem, na criatividade, nas artes, na liderança. Tem gente com uma facilidade impressionante pra aprender certos assuntos. Tem gente que conecta ideias de um jeito que ninguém esperava. E tem gente que mergulha em um tema com uma profundidade que chega a assustar.
O psicólogo Joseph Renzulli, um dos principais pesquisadores da área, propôs a conhecida teoria dos três anéis. Pra ele, os comportamentos de superdotação surgem da interação entre três coisas: habilidade acima da média, criatividade e comprometimento com a tarefa. Gosto dessa teoria porque ela deixa claro que inteligência não cabe num boletim escolar nem no resultado de um teste.
E aqui tem uma coisa que me incomoda há bastante tempo.
A nossa sociedade confunde inteligência com desempenho. Se alguém é inteligente, esperamos que seja organizado, que aprenda com facilidade, que resolva problemas e, de preferência, que seja bem-sucedido. A vida não é assim. Uma pessoa pode ter um raciocínio extraordinário e dificuldades sérias pra organizar a rotina, começar uma tarefa ou administrar o próprio tempo. Pode ser brilhante numa área e absolutamente mediana em outra. Isso não é contradição, é só ser humano.
O médico Dr. Thiago Castro (CRM-PR 42029) chama atenção justamente pra esse equívoco. Segundo ele, acreditar que inteligência elevada significa facilidade em todas as áreas da vida é uma das ideias mais equivocadas sobre a superdotação. “Uma criança pode apresentar raciocínio extremamente desenvolvido e, simultaneamente, dificuldades de organização, planejamento, tolerância à frustração e regulação emocional”, explica.
Pense naquela criança que passa horas pesquisando sobre astronomia, explica buraco negro melhor que muito adulto, mas não consegue terminar uma lição repetitiva. Ou naquele adolescente que questiona tudo, enxerga incoerência em tudo, e por isso ganha o rótulo de “difícil”. Às vezes existe uma habilidade enorme ali. Ela só passa despercebida porque não veio no formato que os adultos esperavam.
O Dr. Thiago lembra que ainda associamos superdotação à figura da criança que tira dez em tudo, aprende rápido e tem desempenho escolar excepcional. Mas existem crianças com altas habilidades que não têm notas extraordinárias e que, inclusive, sofrem pra se adaptar à escola. Entre os sinais que merecem atenção estão a facilidade incomum pra compreender conceitos complexos, a aprendizagem acelerada em determinadas áreas, a curiosidade intensa, a criatividade, o vocabulário avançado e a capacidade de estabelecer relações pouco usuais entre informações. Algumas fazem perguntas que surpreendem, têm uma necessidade quase física de entender como as coisas funcionam, se aprofundam em assuntos muito específicos. Entretanto, como o próprio médico ressalta, “nem toda criança com altas habilidades será precoce, e nem toda criança precoce será necessariamente superdotada”.
Aqui eu peço cuidado. Muito cuidado, aliás.
Uma criança curiosa não é necessariamente superdotada. Uma criança inquieta não tem necessariamente TDAH. Essas características aparecem em diferentes condições e, muitas vezes, fazem parte do desenvolvimento esperado. Por isso a identificação precisa olhar a história daquela criança, as habilidades dela, o contexto em que vive e as oportunidades que teve pra desenvolver o que tem.
Altas habilidades e TDAH: onde a confusão começa
Essa discussão fica ainda mais delicada quando entra o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, o TDAH, porque algumas manifestações se parecem. Uma criança com altas habilidades pode demonstrar desinteresse, inquietação e dificuldade pra manter a atenção em atividades pouco desafiadoras, e isso não significa que exista um transtorno. A diferença, como explica Dr. Thiago Castro, está principalmente na persistência, na abrangência e no impacto funcional dos sintomas. “O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, caracterizado por sintomas persistentes de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade, que produzem prejuízos funcionais. Já as altas habilidades ou superdotação representam um perfil de desenvolvimento caracterizado por capacidades ou potencial significativamente elevados em uma ou mais áreas.”
Em termos práticos: no TDAH, as dificuldades de autorregulação aparecem em diferentes contextos, mesmo que a intensidade mude conforme o interesse e os estímulos. Nas altas habilidades, alguns comportamentos têm mais a ver com falta de desafio adequado ou com a intensidade dos interesses.
Mas as duas coisas podem coexistir. Isso tem nome: dupla excepcionalidade. Uma criança pode ter inteligência muito elevada e, ao mesmo tempo, TDAH, autismo ou um transtorno específico de aprendizagem. Em alguns casos, a inteligência compensa parcialmente as dificuldades, e aí o diagnóstico da condição associada demora anos pra aparecer. Em outros, são as dificuldades que chamam tanta atenção que ninguém enxerga as capacidades. E a criança cresce ouvindo que é preguiçosa, desorganizada, que “não aproveita o potencial que tem”. Eu já perdi a conta de quantos adultos chegaram ao meu consultório carregando exatamente essa frase.
“Não podemos diagnosticar TDAH simplesmente porque uma criança é agitada, questionadora ou desatenta na escola. Da mesma forma, não podemos excluir o diagnóstico de TDAH porque ela apresenta inteligência elevada”, alerta Dr. Thiago.
O peso de ser “o inteligente”
Imagine crescer ouvindo que você é muito inteligente, que tem um futuro brilhante, que consegue qualquer coisa se realmente quiser. Parece um elogio maravilhoso, não é? E na maioria das vezes é dito com a melhor das intenções. Mas dependendo de como essa mensagem chega, ela vira cobrança. A criança passa a acreditar que errar é decepcionar, que pedir ajuda é admitir incapacidade e que, se alguma coisa exige esforço, talvez ela não seja tão inteligente quanto todos imaginavam. Com o tempo, essa pessoa desenvolve uma relação difícil com o erro, evita o que não domina e adia projetos porque quer entregar algo perfeito. Ou não entrega nada.
Preciso esclarecer: perfeccionismo, ansiedade, procrastinação e baixa autoestima não são características obrigatórias de quem tem altas habilidades. Não existe um perfil emocional único. Quando essas dificuldades aparecem de forma persistente, causando sofrimento ou prejuízo, precisamos investigar o que está acontecendo, sem jogar tudo na conta da superdotação. O próprio Dr. Thiago destaca a importância de avaliar possíveis condições associadas, como TDAH, transtornos de aprendizagem e ansiedade.
Tem também a questão do pertencimento, que costuma passar batida.
Todos nós precisamos de gente com quem conversar, dividir interesses, brincar, discordar, nos sentir compreendidos. Pra algumas crianças com altas habilidades, isso é mais complicado. Não por dificuldade social, mas porque os interesses delas, ou o jeito como raciocinam, podem estar muito longe do que os colegas da mesma idade estão vivendo. Imagine uma criança de oito anos que quer discutir a origem do universo e não encontra ninguém na sala pra conversar sobre isso. Dá uma sensação de deslocamento. Dito isso, essa não é a experiência de todas as pessoas com altas habilidades. Muitas têm boas relações, se desenvolvem emocionalmente de forma saudável e encontram nas próprias capacidades recursos pra lidar com a vida.
Quem só descobre na vida adulta
Algumas pessoas só reconhecem esse perfil depois de adultas. Na infância, foram vistas como crianças comuns, distraídas ou “diferentes”. Tinham facilidade em algumas áreas, mas sem um desempenho escolar que chamasse atenção. Outras aprenderam cedo a esconder os interesses pra caber no grupo. E aí, lá pelos trinta, quarenta anos, começam a revisitar a própria trajetória e a enxergar características que nunca tinham entendido.
Mas aqui vale o mesmo cuidado de antes. Sentir-se diferente, pensar demais ou ter muitos interesses não basta pra afirmar que alguém tem altas habilidades. A identificação precisa de avaliação abrangente, considerando o desenvolvimento e evidências consistentes de capacidades elevadas.
Ainda assim, fico pensando em quantas pessoas passam a vida inteira tentando consertar o que acreditam ser defeitos, sem nunca terem tido a chance de entender o próprio funcionamento. Pessoas que sempre tiveram facilidade em algumas coisas e dificuldades inexplicáveis em outras. Que foram chamadas de inteligentes, mas também de preguiçosas. Talentosas, mas complicadas. Reconhecer altas habilidades não explica automaticamente tudo isso, claro. Mas entender a própria história ajuda a construir uma relação diferente consigo mesmo. E isso, por si só, já é muita coisa.
E a escola?
A escola tem uma responsabilidade enorme nessa conversa. Durante muito tempo prevaleceu a ideia de que criança com altas habilidades não precisava de atenção especial, afinal “já aprende sozinha”. Mas imagine passar anos numa sala onde grande parte do conteúdo você já sabe, onde quase não existe espaço pra aprofundar nada e onde perguntar demais é visto como inconveniência. O que deveria alimentar a curiosidade acaba produzindo tédio e frustração. Enriquecimento curricular, aprofundamento de conteúdo e oportunidades pra desenvolver interesses específicos são fundamentais. E o cuidado com as necessidades emocionais e sociais, também.
Como bem observa o Dr. Thiago Castro, “nossa sociedade ainda confunde inteligência com desempenho escolar e desempenho escolar com capacidade intelectual. São conceitos diferentes”. Uma criança pode ter um potencial extraordinário e não conseguir mostrá-lo num modelo educacional que não reconhece as particularidades dela. E o contrário também vale: boletim cheio de dez não significa superdotação.
Uma contradição nossa
Talvez exista uma reflexão maior por trás de tudo isso. Vivemos numa sociedade que valoriza muito a inteligência, mas que nem sempre sabe o que fazer com quem pensa diferente. Admiramos a genialidade quando ela dá resultado, quando cria alguma coisa extraordinária, quando gera reconhecimento. Mas não temos a mesma paciência pra compreender as necessidades de quem carrega esse potencial, principalmente na infância, quando tanta coisa ainda está sendo construída.
Queremos crianças inteligentes, mas não aguentamos as perguntas delas. Queremos criatividade, mas cobramos resposta padronizada. Incentivamos a autonomia, desde que ela não questione demais o que já está estabelecido.
Talvez seja aí que mora uma das nossas maiores contradições.
Reconhecer altas habilidades não é colocar ninguém num pedestal. Não estamos falando de gente melhor ou mais importante. Estamos falando de capacidades que precisam ser compreendidas e de necessidades que também merecem atenção. Uma criança com altas habilidades continua sendo criança. Precisa brincar, fazer amigo, receber carinho, aprender a lidar com limite e descobrir que o valor dela não depende de ser a mais inteligente da sala. Precisa ter o direito de não saber, de errar e até de não querer transformar todas as suas capacidades em grandes conquistas.
E pros adultos, talvez essa compreensão seja libertadora. Afinal, quantas pessoas continuam carregando a obrigação de corresponder a um potencial que os outros enxergaram nelas? Quantas ainda sentem que deveriam ter feito mais, conquistado mais, sido mais?
Ter altas habilidades não significa ter todas as respostas, nem viver sem dificuldade. Significa ter capacidades que merecem ser reconhecidas e desenvolvidas, sem esquecer que existe uma pessoa inteira por trás delas. Porque alguém pode ter uma mente brilhante e ainda assim precisar de ajuda pra encontrar o seu lugar no mundo.
E uma coisa não diminui a outra.
Sobre a autora
Jéssica Martani (@dra.jessicamartani) é médica psiquiatra, doutoranda pela Universidade de Buenos Aires (UBA), presidente do Instituto TDAH e coordenadora da Pós-Graduação em TDAH e observership Columbia University em Nova York. Atua há mais de 10 anos na medicina, com foco em saúde mental, neurociência, comportamento e estilo de vida, além de ser professora, palestrante e criadora do canal brilhantemente no YouTube.
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