Terapia hormonal da menopausa: risco de câncer de mama é de um caso a cada mil mulheres

Para cada mil mulheres que usam terapia hormonal da menopausa durante um ano, surge um caso a mais de câncer de mama em comparação com quem não faz o tratamento. A conta é da ginecologista Lúcia Costa Paiva, professora titular de ginecologia da Unicamp e presidente da Comissão Nacional Especializada de Climatério da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), que considera o risco muito baixo diante do benefício para quem busca a terapia por causa dos sintomas.

Mesmo assim, o medo segue forte entre pacientes e médicos no Brasil. Um estudo brasileiro com 1.500 mulheres, publicado em 2022 no Journal of Adult Women’s Health and Medicine, mostrou que 87% delas tinham sintomas da menopausa. Pouco mais da metade (52,1%) saiu da consulta com alguma receita, e só 22,3% receberam indicação de terapia hormonal. Os outros 29,8% levaram prescrição de remédios como fitoterápicos.

O que a terapia repõe

O tratamento repõe hormônios que caem de forma abrupta na menopausa, principalmente o estrogênio, sozinho ou combinado com progesterona. A queda desses hormônios está por trás de ondas de calor, suores noturnos, insônia, secura vaginal e alterações de humor. Pelos dados do IBGE baseados no Censo de 2022, o país tem cerca de 33 milhões de mulheres entre 40 e 65 anos, e a maioria delas vai passar pelo climatério e sentir algum sintoma.

Terapia hormonal da menopausa: risco de câncer de mama é de um caso extra a cada mil mulheres (Foto: Magnific)

Lúcia lista como indicações as ondas de calor com suor, o sono ruim provocado por elas, o ressecamento vaginal, a dor na relação sexual e as fraturas por osteoporose. A terapia também vale para quem entra na menopausa antes dos 40 anos, por qualquer motivo, como retirada dos ovários ou quimioterapia. Melhora do humor, menor risco de diabetes e de doença cardiovascular e mais disposição aparecem como benefícios secundários, que não justificam sozinhos a prescrição.

De onde veio o medo

Em 2002, o estudo Women’s Health Initiative (WHI), publicado na New England Journal of Medicine com 16.608 mulheres, associou a terapia com estrogênio e progesterona ao câncer de mama. A notícia correu o mundo, e o uso da reposição despencou praticamente da noite para o dia.

O endocrinologista Alexandre Hohl, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e diretor do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), aponta as falhas do trabalho: as participantes eram mais velhas, parte delas fumava e o hormônio usado vinha da urina de éguas prenhas. Quando os pesquisadores separaram as mulheres mais jovens, não fumantes e sem contraindicações, o risco de câncer não apareceu. Alexandre avalia que hoje existe muito mais evidência a favor da reposição para quem precisa do que contra.

Em fevereiro, a FDA, agência que regula medicamentos nos Estados Unidos, retirou dos rótulos de seis remédios usados nessa terapia o retângulo preto com alertas sobre câncer de mama, doença cardiovascular e demência, o aviso de segurança mais severo do órgão. Os medicamentos vendidos no Brasil não trazem alerta semelhante, mas médicos brasileiros avaliam que a mudança deve dar mais segurança para as mulheres procurarem tratamento.

Quando a reposição está descartada

Ter ou já ter tido câncer de mama é contraindicação absoluta, porque alguns desses tumores usam hormônio para crescer. No útero, o estrogênio sozinho estimula o tecido que reveste o órgão e aumenta o risco de câncer, e a progesterona entra no tratamento como proteção para quem ainda tem útero.

Alexandre inclui na lista o infarto ou AVC nos últimos seis meses, a trombofilia e doença do fígado em atividade, como cirrose. Para quem teve problema cardiovascular há mais de seis meses, a decisão passa por uma calculadora de risco. Ter mãe ou irmã com câncer de mama não impede a terapia, e cada caso pede avaliação individual, já que histórias familiares diferentes envolvem tumores com características distintas.

O tipo de hormônio, a dose e o tempo de uso influenciam o pequeno aumento de risco de câncer de mama, e a mulher em tratamento precisa fazer exames pelo menos uma vez por ano, como mamografia e ultrassom das mamas.

Quando começar e quando parar

A chamada janela de oportunidade para iniciar a terapia já foi de cinco anos após o começo da menopausa e hoje é de dez anos, com possibilidade de reavaliação. Depois de muito tempo sem hormônio, reintroduzi-lo pode desestabilizar o endotélio, o revestimento dos vasos, e elevar o risco cardiovascular, explica Alexandre. Nesses casos, entram calculadoras de risco e exames específicos.

Não há prazo obrigatório para interromper. A cada consulta, médico e paciente reavaliam riscos e benefícios. Efeitos adversos ou uma lesão suspeita na mamografia levam à suspensão imediata, e há mulheres de 70, 75 e 80 anos que seguem usando o tratamento.

Libido, estética e acesso

A endocrinologista Karen de Marca, presidente da SBEM, alerta que a baixa libido, queixa comum depois dos 40 anos, não é indicação para a terapia e muitas vezes não melhora com estrogênio, porque envolve sobrecarga, relacionamento, ansiedade e outros fatores. Os médicos também veem com preocupação o uso de hormônios com fins estéticos, ligado a complicações como trombose, tumores no fígado, hipertensão, infarto e cálculos renais.

O acesso é outro obstáculo. No estudo de 2022, o tratamento durou em média oito meses, com 24 meses entre mulheres da classe A e apenas três nas classes D e E. Lúcia lembra que os sintomas costumam durar bem mais que isso e que os medicamentos não são distribuídos pelo SUS.

Resumo: Médicos afirmam que o medo da terapia hormonal da menopausa nasceu de um estudo de 2002 com falhas e que o risco extra de câncer de mama é de cerca de um caso a cada mil mulheres por ano. A reposição trata sintomas como ondas de calor e secura vaginal, tem contraindicações como câncer de mama e trombose e exige acompanhamento anual.

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