Gordura no fígado aparece até em quem não bebe álcool; veja o que está por trás de descoberta

A gordura no fígado costuma ser descoberta por acaso: uma alteração nas enzimas ALT e AST em um exame de sangue de rotina ou um achado inesperado na ultrassonografia do abdômen. Nas fases iniciais, o problema avança em silêncio e atinge também quem não bebe, porque alimentação, resistência à insulina e alterações no metabolismo bastam para acumular gordura no órgão.

“Existe a ideia de que o fígado só sofre quando há consumo excessivo de álcool. Mas o metabolismo também tem um papel importante nessa história. Uma pessoa pode não beber e, ainda assim, desenvolver acúmulo de gordura no órgão, muitas vezes sem perceber qualquer alteração”, explica o médico integrativo Rodolfo Gusmão, CEO do Instituto Aeon, que reúne nutrologia, dermatologia, odontologia e nutrição em atendimento personalizado.

Um nome novo para uma doença comum

A condição, antes chamada de doença hepática gordurosa não alcoólica, agora se chama doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, ou MASLD, na sigla em inglês. Está entre as doenças do fígado mais frequentes no mundo e costuma aparecer ao lado de obesidade, diabetes tipo 2 e outros fatores de risco do coração e do metabolismo.

Gordura no fígado aparece até em quem não bebe; açúcar e resistência à insulina estão por trás (Foto: Magnific)

Refrigerante, sim; fruta inteira, não

Os açúcares adicionados de refrigerantes, bebidas adoçadas e ultraprocessados estão no centro da questão. A frutose, presente nas frutas e também usada em adoçantes industriais, é metabolizada em grande parte pelo intestino e pelo fígado. Em excesso, principalmente em bebidas açucaradas e em uma dieta com calorias demais, ela favorece a lipogênese hepática, processo em que o organismo transforma substratos de energia em gordura.

A fruta inteira entra em outra categoria. Fibras, água e outros nutrientes, além das quantidades normalmente consumidas, mudam o efeito da frutose no contexto da alimentação.

“O problema não é comer uma fruta. O alerta está no consumo frequente e excessivo de bebidas açucaradas e produtos com alta concentração de açúcares adicionados, principalmente quando isso vem acompanhado de sedentarismo e alterações metabólicas”, destaca Rodolfo.

O papel da resistência à insulina

Quando as células passam a responder pior à insulina, o metabolismo da glicose e das gorduras se desorganiza. O tecido adiposo libera mais ácidos graxos, o fígado processa essas substâncias de forma alterada, e elas se acumulam nas células hepáticas. Esse é um dos mecanismos centrais da doença.

O quadro é mais comum em quem tem gordura abdominal em excesso, diabetes tipo 2 ou síndrome metabólica, mas também aparece em pessoas sem obesidade.

“Não podemos avaliar a saúde metabólica apenas pelo peso. Existem pessoas que não estão acima do peso e apresentam resistência à insulina ou acúmulo de gordura no fígado. Por isso, é importante considerar exames, histórico clínico, composição corporal e hábitos de vida”, afirma o médico.

A avaliação do fígado vai além do álcool

A saúde do fígado não deve ser medida só pelo consumo de bebidas alcoólicas. Hábitos alimentares, resistência à insulina, alterações metabólicas e predisposição individual também precisam entrar nessa conta.

“Uma pessoa pode passar anos sem consumir álcool e ainda assim desenvolver gordura no fígado. Por isso, é importante olhar para o metabolismo como um todo. Quanto mais cedo identificamos os fatores envolvidos, maiores são as possibilidades de intervir e evitar a progressão da doença”, afirma Rodolfo.

Exame normal não descarta o problema

As enzimas hepáticas podem ficar dentro dos valores de referência mesmo em quem tem a doença, então um resultado normal não exclui alterações no fígado.

Muitos pacientes têm apenas a esteatose, que é o acúmulo de gordura. Em uma parte deles, porém, surgem inflamação e lesão das células, a chamada esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH). Em alguns casos, o quadro evolui para fibrose e, nos estágios avançados, para cirrose.

“A ausência de sintomas não significa ausência de risco. O fígado pode passar muito tempo acumulando gordura sem provocar desconforto. O objetivo da investigação é identificar essas alterações antes que exista um comprometimento mais importante”, diz Rodolfo.

Dá para reduzir a gordura no fígado

Mudanças no estilo de vida ajudam a diminuir a gordura hepática e a melhorar os fatores metabólicos ligados à doença:

cortar bebidas açucaradas e ultraprocessados;
manter uma alimentação equilibrada, em padrões como o mediterrâneo, com vegetais, frutas, leguminosas, grãos integrais, azeite e peixes;
praticar atividade física com regularidade, o que reduz a gordura no fígado mesmo sem grande perda de peso;
perder peso de forma gradual, quando houver indicação.

“Não se trata de fazer detox ou buscar uma solução rápida para limpar o fígado. O cuidado envolve melhorar o funcionamento metabólico do organismo, reduzir os fatores de risco e acompanhar a evolução da doença”, explica o médico. O tratamento varia conforme o estágio da doença e as condições associadas, e alguns casos pedem acompanhamento especializado e terapia específica.

Resumo: A gordura no fígado, hoje chamada de MASLD, pode surgir em quem não bebe, impulsionada por excesso de açúcar adicionado e resistência à insulina. A doença costuma ser silenciosa e pode evoluir para inflamação, fibrose e cirrose. O médico integrativo Rodolfo Gusmão explica como identificar e reduzir o problema.

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