Falta de vitamina B12 pode atingir o cérebro da criança antes mesmo de causar anemia

Atraso para falar ou andar, dificuldade na escola, fraqueza e formigamento podem ter uma origem que muitas famílias não imaginam: a falta de vitamina B12. O tema foi levado ao 42º Congresso Brasileiro de Pediatria, realizado de 13 a 17 de outubro, em Belo Horizonte (MG), pela pediatra Anna Dominguez Bohn, presidente do Núcleo de Estudo da Criança com Deficiência da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP) e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

A vitamina participa da formação das células do sangue, da produção do DNA e do funcionamento do sistema nervoso. Nos primeiros anos de vida, quando o cérebro se desenvolve em ritmo acelerado, a carência pede cuidado redobrado.

O sistema nervoso pode dar sinais primeiro

Muita gente associa a falta de B12 apenas à anemia, mas o quadro vai além. “A deficiência de vitamina B12 não provoca apenas anemia. Ela também pode comprometer o sistema nervoso, e as manifestações neurológicas podem aparecer antes das alterações hematológicas. Por isso, é fundamental reconhecer os sinais precocemente, já que o atraso no diagnóstico e no tratamento pode deixar sequelas permanentes”, explica a pediatra.

Atrasos no desenvolvimento, alterações neurológicas, dificuldades escolares, fraqueza e formigamento estão entre os sinais que justificam uma investigação.

Falta de vitamina B12 pode atingir o cérebro da criança antes mesmo de causar anemia (Foto: Magnific)

Quem corre mais risco

No caso dos bebês, a carência costuma estar ligada aos níveis baixos da vitamina na mãe, principalmente durante a amamentação. Crianças com dieta restritiva, seletividade alimentar importante, doença celíaca ou doença inflamatória intestinal também entram no grupo de atenção. “É importante avaliar a alimentação da criança e também as condições nutricionais da mãe, especialmente durante a amamentação. Lactentes de mães com deficiência de vitamina B12 e crianças com dietas restritivas estão entre os grupos que precisam de atenção especial. A seletividade alimentar também deve ser considerada na investigação”, destaca Anna.

Outro ponto que costuma passar batido: o problema não se restringe a famílias vegetarianas ou veganas. Segundo a pediatra, há estudos que apontam prevalência de até 30% em determinadas populações que comem carne, ovos e laticínios, o que ajuda a explicar por que a deficiência pode ser subdiagnosticada.

Remédios e cirurgias também interferem

Na adolescência, a lista de fatores cresce. “Hoje temos diversas situações que precisam ser consideradas na pediatria, especialmente na adolescência. O uso de medicamentos como a metformina e o omeprazol, além de cirurgias gastrointestinais, incluindo a bariátrica, pode comprometer a absorção da vitamina B12. Os medicamentos para obesidade, como os análogos do GLP-1, também merecem atenção pelas possíveis repercussões sobre a alimentação e o estado nutricional. Por isso, é importante que as famílias estejam atentas aos sintomas e conversem com o pediatra sobre a necessidade de investigação”, orienta a médica.

Como é feito o diagnóstico

O ponto de partida é a dosagem da vitamina no sangue. Quando o resultado deixa dúvida, o pediatra pode pedir exames complementares, como ácido metilmalônico, homocisteína e holotranscobalamina. O tratamento é definido a partir dessa avaliação, de acordo com a gravidade do quadro e a causa da carência.

Suplemento para todas as crianças não traz ganho extra

Uma revisão sistemática da Cochrane, publicada em junho de 2026, reuniu 16 estudos clínicos randomizados com 4.083 crianças menores de 12 anos, de dez países. A suplementação reduziu o risco de deficiência: em três desses estudos, com 642 crianças, a carência apareceu em 7,6% do grupo que recebeu placebo e em 1,8% das que tomaram a vitamina.

Por outro lado, os pesquisadores não encontraram evidências consistentes de benefício para crescimento, cognição, desenvolvimento motor ou prevenção da anemia, e a certeza das evidências para vários desses resultados ainda é baixa.

“Os estudos mostram que a suplementação é eficaz para reduzir a deficiência de vitamina B12, mas não demonstram que oferecer a vitamina indiscriminadamente melhore o crescimento, a cognição ou o desenvolvimento motor. Precisamos diferenciar a importância de prevenir e tratar a deficiência da ideia de que suplementar todas as crianças trará benefícios adicionais. Quando a deficiência é identificada, no entanto, a suplementação adequada é fundamental para evitar complicações, especialmente neurológicas”, esclarece a especialista.

Resumo: A falta de vitamina B12 na infância pode afetar o sistema nervoso antes de provocar anemia. Bebês de mães com carência, crianças seletivas ou com dieta restritiva e adolescentes que usam certos remédios exigem atenção. Uma revisão Cochrane de 2026 mostrou que suplementar reduz a deficiência, mas não traz ganhos extras para crianças sem carência.

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