Em um estudo com 220 crianças de 6 a 12 anos publicado em junho de 2026, 60% das que tinham rinite alérgica relataram despertar durante a noite e 45% disseram ter dificuldade para se concentrar. Os números ajudam a explicar por que o nariz entupido, muitas vezes visto como incômodo passageiro, pode pesar no dia seguinte.
O tema esteve entre os debates sobre alergias da AAP Experience 2026, congresso anual da Academia Americana de Pediatria realizado de 2 a 6 de outubro em San Diego, nos Estados Unidos. A pediatra Anna Dominguez Bohn, presidente do Núcleo de Estudo da Criança com Deficiência da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP) e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), acompanhou o encontro.
“Quando pensamos em rinite, geralmente lembramos de uma criança espirrando ou com o nariz escorrendo. Mas precisamos olhar para o que acontece além disso. Como ela está dormindo? Consegue prestar atenção na escola? Está cansada, irritada ou deixando de participar das atividades? A rinite pode interferir em aspectos importantes do desenvolvimento e não deve ser banalizada”, explica.
O que o estudo encontrou
A pesquisa, feita na China e publicada na revista científica Frontiers in Pediatrics por Guo L. e colaboradores, comparou 110 crianças com diagnóstico de rinite alérgica a outras 110 sem a doença. No grupo com rinite, a congestão nasal apareceu em 92% dos casos. Os outros resultados:
Rinite em crianças: estudos ligam a doença a noites mal dormidas e dificuldade de concentração (Foto: Magnific)
60% tinham despertares noturnos;
51% demoravam para pegar no sono;
45% tinham problemas de concentração;
62% relataram fadiga;
52% apresentaram alterações de humor;
54% citaram limitações em atividades ao ar livre.
As crianças com rinite também tiveram qualidade de vida mais comprometida. Os pesquisadores avaliaram, além dos sintomas no nariz, dificuldades práticas, restrições nas atividades e o bem-estar físico e emocional.
“Uma criança que dorme mal pode passar o dia cansada, irritada e com dificuldade para se concentrar. Nem sempre os pais associam essas mudanças à obstrução nasal. Por isso, quando os sintomas são frequentes, é importante investigar também como está o sono e como a criança funciona durante o dia”, orienta Anna.
Rinite controlada, sono melhor
Um segundo trabalho de 2026, de Akoğlu H. A. e colaboradores, publicado no International Journal of Pediatric Otorhinolaryngology, focou o sono. A equipe comparou 65 crianças de 4 a 15 anos com rinite alérgica a 67 crianças saudáveis.
O grupo com rinite dormia pior, com mais despertares, mais dificuldade para acordar e mais problemas respiratórios à noite. Quanto menos controlados estavam os sintomas, maiores eram as dificuldades, e o tratamento esteve associado à melhora de diferentes aspectos do descanso.
“É comum que a família se acostume com a criança sempre fungando ou dormindo de boca aberta. Mas sintomas persistentes não devem ser considerados normais. É importante investigar a causa e avaliar se existe alguma condição prejudicando a respiração durante a noite”, ressalta a pediatra.
E o comportamento?
No estudo da Frontiers in Pediatrics, sono pior e pontuações mais altas em uma escala de ansiedade apareceram ligados a uma qualidade de vida mais prejudicada entre as crianças com rinite. A pesquisa identificou associações e não permite dizer que a rinite cause transtornos de ansiedade ou depressão.
“Não podemos atribuir toda mudança de comportamento à rinite. Mas também não devemos ignorar que sintomas persistentes podem afetar o descanso e o bem-estar da criança. O acompanhamento precisa considerar a saúde de forma integral, e não apenas a intensidade dos espirros ou da coriza”, afirma Anna.
Como a rinite alérgica é tratada
A rinite alérgica é uma inflamação das vias aéreas superiores provocada pelo contato com substâncias às quais a criança é sensibilizada, como ácaros, pólens e alguns alérgenos de animais. Pode durar anos, alternando fases de melhora e piora, e sintomas frequentes pedem avaliação médica para confirmar o diagnóstico.
O tratamento leva em conta a idade, a intensidade dos sintomas e as características de cada paciente. Entre as opções estão a lavagem nasal com soro fisiológico, o controle de fatores do ambiente e medicamentos como corticosteroides nasais e anti-histamínicos de segunda geração. Em casos selecionados, a imunoterapia com alérgenos pode ser considerada. A escolha é individual e precisa de orientação médica.
“Rinite não é uma condição que a criança simplesmente precisa suportar. Com diagnóstico e tratamento adequados, é possível controlar os sintomas e evitar que a doença interfira na rotina. Mas é fundamental não recorrer à automedicação, porque nem todos os medicamentos são indicados para todas as idades ou situações”, destaca.
5 sinais para observar além dos espirros
Nariz entupido o tempo todo, principalmente à noite, com respiração pela boca;
Sono agitado, com despertares frequentes, demora para adormecer ou sensação de descanso insuficiente;
Cansaço e irritação que persistem;
Desatenção ou mudança no rendimento escolar;
Sintomas que atrapalham brincadeiras, esportes e outras atividades habituais.
Nenhum desses sinais, sozinho, confirma rinite alérgica. Eles também podem estar ligados a outras condições, como aumento das adenoides e distúrbios respiratórios do sono, que precisam ser investigadas.
“Os pais devem observar não apenas os sintomas nasais, mas também como a criança está se sentindo e se comportando. Quando há prejuízo no descanso ou nas atividades habituais, é importante buscar orientação. A rinite pode ser comum, mas isso não significa que seus efeitos devam ser ignorados”, conclui Anna.
Resumo: Dois estudos de 2026 associaram a rinite alérgica infantil a sono pior, fadiga, alterações de humor e dificuldade de concentração; em um deles, com 220 crianças, 60% das que tinham rinite acordavam à noite. O controle dos sintomas esteve ligado a um descanso melhor, e o tratamento deve ser orientado pelo médico, sem automedicação.
Leia também: Dormir de boca aberta não é normal





