Desregulação emocional

Por que algumas pessoas explodem por tão pouco e demoram tanto para se recuperar? A psicologia e a neurociência ajudam a entender o que acontece quando sentimos mais do que conseguimos administrar.
Você já se perguntou por que algumas situações conseguem estragar o nosso dia inteiro? Imagine que você está atrasado para o trabalho e alguém fecha seu carro no trânsito. Na hora, o coração acelera, vem a irritação, você fala o que não deveria e segue seu caminho. O problema é que a situação termina, mas a raiva continua. Você chega ao trabalho impaciente, responde mal a alguém e, horas depois, ainda está pensando naquilo. Quando finalmente se acalma, vem o arrependimento. Afinal, por que uma situação tão pequena provocou uma reação tão grande?

Na psiquiatria, existe um nome para essa dificuldade de administrar a intensidade e a duração das emoções: desregulação emocional. Não se trata de um diagnóstico específico, mas de um fenômeno que pode aparecer em diferentes condições, inclusive em pessoas que não apresentam nenhum transtorno mental. Todos nós perdemos a paciência, sentimos ciúmes, ficamos frustrados ou reagimos mal em algum momento. A diferença está na frequência com que isso acontece, na intensidade das reações e, principalmente, nas consequências que elas trazem. Nosso cérebro possui circuitos responsáveis por identificar situações emocionalmente importantes e organizar nossas respostas. A amígdala cerebral participa desse processo, especialmente diante de possíveis ameaças. Já o córtex pré-frontal está envolvido na avaliação das consequências e no controle dos impulsos. Quando estamos sob estresse, privados de sono ou emocionalmente sobrecarregados, a capacidade de pensar antes de reagir pode ficar prejudicada.

Mas não é apenas uma questão cerebral

A psicologia nos mostra que muitas vezes não reagimos ao que aconteceu, mas ao significado que atribuímos à situação. Uma crítica no trabalho, por exemplo, pode ser recebida por alguém como uma oportunidade de melhorar. Para outra pessoa, pode representar uma confirmação de que nunca é boa o suficiente. O acontecimento é semelhante, mas a interpretação muda completamente a experiência emocional.
Nossa história tem uma participação importante nisso. Quem cresceu ouvindo críticas constantes pode se tornar mais sensível à desaprovação. Quem passou por experiências de abandono talvez interprete determinados comportamentos como rejeição, mesmo quando essa não era a intenção do outro. Não significa que tudo tenha origem na infância, mas que nossas experiências ajudam a construir a maneira como percebemos o mundo.
E existe algo curioso: muitas vezes, nem percebemos esses pensamentos. A emoção aparece primeiro e só depois tentamos entender por que ficamos tão magoados, irritados ou inseguros.
No consultório, vejo essa dificuldade com frequência em pacientes com TDAH. Embora o transtorno seja conhecido principalmente pela desatenção e impulsividade, muitas pessoas também apresentam dificuldades importantes para regular as emoções. São adultos que se frustram facilmente, sofrem muito com críticas, reagem de maneira intensa e depois se culpam por não terem conseguido agir de outra forma.
A desregulação emocional também pode aparecer em quadros de ansiedade, depressão e outros transtornos psiquiátricos. Entretanto, é preciso cuidado para não transformar toda reação emocional intensa em uma doença. Estar irritado não significa ter transtorno bipolar, assim como sofrer com uma rejeição não é suficiente para estabelecer qualquer diagnóstico.
Outro aspecto que merece atenção é o que fazemos depois de uma situação desagradável. Algumas pessoas conseguem seguir em frente, enquanto outras passam horas reconstruindo mentalmente a conversa, imaginando o que deveriam ter dito ou tentando entender por que aquilo aconteceu. Na psicologia, esse processo é conhecido como ruminação e pode prolongar o sofrimento emocional muito além do acontecimento original.

E como mudar isso?
O primeiro passo é começar a reconhecer os próprios padrões. Perceber quais situações despertam reações mais intensas, quais pensamentos aparecem nesses momentos e como o corpo responde. Às vezes, aquilo que parece uma explosão repentina é resultado de vários dias de cansaço, preocupações acumuladas e pequenas frustrações que não foram percebidas.
A psicoterapia ajuda justamente nesse processo. Abordagens como a terapia cognitivo-comportamental trabalham a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos. Já a terapia comportamental dialética, desenvolvida pela psicóloga Marsha Linehan, oferece estratégias para lidar com emoções intensas, tolerar frustrações e melhorar as relações interpessoais.
Também precisamos olhar para hábitos que parecem não ter relação com nossas emoções, mas têm. Dormir pouco, viver constantemente sob pressão, passar o dia sem se alimentar adequadamente e não ter momentos de descanso podem aumentar nossa irritabilidade e dificultar o controle das reações.
É importante entender que regular emoções não significa deixar de sentir. A raiva pode sinalizar que um limite foi ultrapassado. A tristeza pode aparecer diante de uma perda, e o medo pode nos proteger de situações perigosas. O problema não está na existência dessas emoções, mas na dificuldade de lidar com elas.
Muitas pessoas passam a vida ouvindo que são exageradas, difíceis ou sensíveis demais. Com o tempo, acabam acreditando que esse é simplesmente o jeito delas e que não há muito o que fazer.
Mas existe uma diferença entre ter uma tendência a reagir intensamente e estar condenado a repetir sempre as mesmas reações.
Talvez você não consiga evitar aquela primeira onda de raiva, tristeza ou frustração. Mas pode aprender a reconhecer o que está acontecendo, compreender por que determinadas situações mexem tanto com você e escolher melhor o que fazer depois.
No fim, amadurecer emocionalmente não é se tornar alguém que nunca perde a paciência ou que permanece tranquilo diante de tudo. É conseguir sentir raiva sem precisar machucar alguém, receber uma crítica sem transformar aquilo em uma sentença sobre o próprio valor e compreender que nem tudo o que sentimos precisa determinar nossas atitudes.