Quando pensamos nos efeitos do calor intenso sobre o organismo, geralmente lembramos da desidratação, da queda de pressão, do cansaço e dos riscos da exposição excessiva ao sol. Mas existe uma parte do corpo que costuma ser esquecida nessa conversa e que está em contato direto com o ambiente durante praticamente todo o dia: o nariz.
O assunto merece ainda mais atenção diante das previsões climáticas para os próximos meses. Em comunicado divulgado em 29 de outubro, o Governo Federal alertou que grande parte do Brasil poderá enfrentar temperaturas entre 1°C e 2°C acima da média entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, sob influência do fenômeno El Niño, com possibilidade de ondas de calor em diferentes regiões.
Como otorrinolaringologista, considero importante explicar que o calor, isoladamente, não é necessariamente um inimigo da saúde nasal. O problema está na combinação de fatores que frequentemente acompanham os dias quentes, como baixa umidade do ar, poluição, desidratação e permanência prolongada em ambientes com ar-condicionado.
Para entender essa relação, precisamos lembrar que o nariz não serve apenas para sentir cheiros ou permitir a passagem do ar. Ele funciona como uma espécie de sistema de climatização natural do organismo.
Antes de chegar aos pulmões, o ar que respiramos passa por um processo de filtragem, aquecimento e umidificação. Esse trabalho é realizado principalmente pela mucosa nasal, uma estrutura delicada, rica em vasos sanguíneos e responsável por ajudar a proteger nossas vias respiratórias.
Quando o ar está muito seco, essa mucosa precisa trabalhar mais para fornecer a umidade necessária. Dependendo das condições ambientais e da sensibilidade de cada pessoa, podem surgir ardência, coceira, formação de crostas, sensação de obstrução e até pequenos sangramentos.
Por que algumas pessoas sangram pelo nariz nos dias quentes?
Uma das situações que mais assustam os pacientes, especialmente os pais de crianças pequenas, é o sangramento nasal, chamado tecnicamente de epistaxe.
A explicação está na anatomia do nosso nariz. Na parte anterior do septo nasal, que divide as duas narinas, existe uma região com vários vasos sanguíneos muito próximos da superfície. Quando a mucosa fica ressecada, pequenas fissuras podem surgir, deixando esses vasos mais vulneráveis.
Basta um atrito, uma coçada ou até o hábito de assoar o nariz com muita força para provocar um sangramento.
É importante esclarecer que nem todo sangramento nasal está relacionado ao calor ou ao ressecamento. Existem outras causas, como traumas, processos inflamatórios, alterações anatômicas e determinadas condições de saúde.
Por isso, episódios frequentes ou intensos precisam ser investigados.
Também existe um erro bastante comum que merece ser corrigido: quando o nariz começa a sangrar, muitas pessoas inclinam a cabeça para trás. Essa prática não é recomendada porque favorece a passagem do sangue para a garganta, podendo provocar náuseas e vômitos.
O correto é sentar-se, inclinar levemente a cabeça para a frente e apertar continuamente a parte macia do nariz por 10 a 15 minutos, sem interromper a compressão para verificar se o sangramento parou.
Se o sangramento for volumoso, vier acompanhado de tontura ou dificuldade respiratória, ou não cessar com a compressão adequada, é necessário procurar atendimento de urgência.
O ar-condicionado ajuda a enfrentar o calor, mas pode incomodar o nariz
Outro ponto que merece atenção é o uso do ar-condicionado. Em dias de temperaturas elevadas, ele pode ser fundamental para proporcionar conforto térmico e reduzir os riscos associados ao calor excessivo. Entretanto, o uso prolongado também pode provocar desconfortos nasais.
Isso acontece porque muitos aparelhos retiram parte da umidade do ar durante o processo de refrigeração.
Quem permanece muitas horas em ambientes climatizados pode perceber o nariz mais seco, irritação na garganta, formação de crostas e até uma sensação de nariz entupido, principalmente ao acordar.
E aqui existe uma curiosidade: nem sempre sentir o nariz obstruído significa estar gripado ou com excesso de secreção.
A própria irritação da mucosa pode desencadear respostas inflamatórias locais, contribuindo para a sensação de dificuldade na passagem do ar. Em algumas pessoas, especialmente aquelas que já apresentam rinite, essas alterações são ainda mais perceptíveis.
Outro cuidado importante envolve a limpeza dos aparelhos. Filtros sem manutenção adequada podem favorecer a circulação de poeira e outros contaminantes, agravando sintomas respiratórios em pessoas mais sensíveis.
Isso não significa que devemos abandonar o ar-condicionado durante o verão. A questão é utilizá-lo de maneira adequada, evitando ambientes excessivamente secos e mantendo a manutenção em dia.
Cinco atitudes simples podem ajudar a proteger o nariz
A boa notícia é que algumas medidas bastante simples podem contribuir para preservar a saúde nasal, mesmo durante períodos de calor intenso.
A primeira é manter uma hidratação adequada ao longo do dia. Nosso organismo precisa de água para desempenhar inúmeras funções, e prevenir a desidratação é especialmente importante quando as temperaturas estão elevadas.
A segunda é observar a umidade dos ambientes. Permanecer por muitas horas em locais excessivamente secos pode aumentar o desconforto nasal. Em algumas situações, um umidificador pode ser útil, mas é fundamental controlar a umidade e manter o equipamento higienizado. O excesso de umidade também pode favorecer a proliferação de mofo e ácaros.
A terceira medida é utilizar soro fisiológico nasal quando necessário. A solução salina pode ajudar a hidratar a mucosa e facilitar a eliminação de secreções e crostas. Diferentemente dos descongestionantes vasoconstritores, o soro fisiológico não provoca o chamado efeito rebote, caracterizado pela piora da obstrução após o uso repetido desses medicamentos.
A quarta recomendação é evitar manipular excessivamente o nariz. Retirar crostas com os dedos, coçar a parte interna das narinas ou assoar com muita força são hábitos que podem provocar pequenas lesões e sangramentos.
Por fim, vale reforçar a importância da manutenção do ar-condicionado. A limpeza dos filtros e a higienização periódica dos equipamentos ajudam a reduzir a exposição à poeira e a outros agentes irritantes.
Quando o nariz está dando um sinal de alerta?
Embora o ressecamento nasal seja frequentemente um desconforto passageiro, não devemos considerar todos os sintomas como consequências normais do clima.
Sangramentos recorrentes, obstrução persistente, dor importante, secreção com sangue e alterações prolongadas do olfato são situações que merecem avaliação de um otorrinolaringologista.
Também é importante observar se os sintomas aparecem apenas em determinados ambientes ou se permanecem mesmo após mudanças na rotina. Essas informações podem ajudar a identificar fatores desencadeantes e orientar o tratamento adequado.
Acredito que precisamos ampliar nossa maneira de pensar os cuidados com a saúde durante o verão. Proteger a pele, beber água e evitar a exposição excessiva ao sol continuam sendo atitudes fundamentais, mas não são as únicas.
O nariz é uma das primeiras estruturas do organismo a entrar em contato com o ar que respiramos. Ele trabalha continuamente, muitas vezes sem que percebamos, para ajudar a proteger nossas vias respiratórias.
Em um cenário de temperaturas cada vez mais elevadas e episódios de calor intenso, prestar atenção aos sinais dessa pequena, mas importante estrutura também é uma forma de cuidar da saúde.





