Quando criança, eu sonhava em andar de trem. Não qualquer trem, mas sim aqueles que parecem atravessar outra época. Em casa, meus pais contavam sobre uma viagem de maria-fumaça que fizeram em Campinas, que atravessava fazendas antigas e outros interiores. Minha mãe diz até hoje que eu “estava lá”, mesmo que na barriga dela, e ainda lembra das brasas voando pela janela e da fuligem que ficou na roupa.
Por conta dessa história, cresci fascinada pela ideia de viajar sobre trilhos. Mas, vivendo em São Paulo, a experiência mais próxima que tive por muito tempo foi a CPTM lotada do cotidiano – o que não era exatamente o cenário que eu imaginava.
Ao embarcar no trem da Serra do Mar Paranaense, o momento que tanto acalentei ganhou corpo e trilhos. Depois de anos ouvindo histórias sobre viagens ferroviárias, finalmente eu estava entrando em um daqueles vagões que, por muito tempo, pareciam existir só em filmes – desta vez em um percurso considerado um dos mais bonitos do Brasil.
O trajeto foi considerada um dos mais bonitos do mundo pelo The Wall Street Journal e pelo The Guardian – quem ousaria discordar?Cecília Carrilho/Arquivo pessoal
Operado pela Serra Verde Express, o trajeto liga Curitiba a Morretes em cerca de quatro horas, atravessando a maior área contínua preservada de Mata Atlântica do país. No caminho, o trem passa por 13 túneis, dezenas de pontes e viadutos, paredões cobertos de mata, rios, cachoeiras e vales que aparecem de repente entre as curvas da serra.
Um flagrante do percursoCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Apesar do imaginário nostálgico, a experiência não é exatamente uma viagem ao passado. Os vagões têm um visual moderno, com exterior metálico em tons de verde e prata, e a estrutura lembra um trem contemporâneo, moderninho e sem fuligem. Ainda assim, existe algo de antigamente no ritmo lento da viagem, na contemplação das paisagens e até no ritual de embarque.
Cheguei à rodoferroviária de Curitiba pouco antes das 8h e o saguão já estava começando a ser tomado por uma turma ansiosa. O embarque começou às 8h30 e, aos poucos, os passageiros foram se espalhando pelos vagões das diferentes categorias: Econômica, Turística, Boutique e Litorina Luxo.
Uma regra importante do percurso é que não é possível circular entre os vagões durante a viagem. Cada passageiro permanece na categoria e no vagão escolhido do início ao fim, o que contribui para a segurança e para manter o fluxo mais organizado a bordo.
Minutos antes da Rodoferroviária de Curitiba encherCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Um vagão, um universo diferente
A Serra Verde Express opera o trajeto há mais de duas décadas e possui diferentes categorias de vagões, que mudam bastante a experiência da viagem. A classe Econômica, vendida apenas presencialmente, é a mais simples e costuma ser usada principalmente por montanhistas que seguem até o Parque Estadual do Marumbi. Nela, os assentos de plástico são mais básicos e duros, e não há serviço de bordo nem acompanhamento de guia.
A categoria Turística (R$ 206) concentra a maior parte da composição. É onde viaja a maioria dos passageiros: carros com grandes janelas, poltronas duplas estofadas e conforto básico. O passeio nos vagões inclui lanche, bebida e guia, que compartilha curiosidades históricas.
Na categoria Turística, as poltronas são para duas pessoas e os janelões abremSerra Verde Express/Divulgação
As categorias Boutique (R$475) e Litorina (R$ 525) são as mais sofisticadas da operação e mais caras. Cada carro boutique possui identidade própria, ambiente intimista e comporta menos passageiros em prol do conforto.
Na Boutique, que coube a mim nessa viagem, as bebidas são liberadas – água, café, refrigerante, cerveja e sucos – além de lanche e acompanhamento de guia de turismo. Muitos também possuem varandas abertas, um dos detalhes mais disputados do passeio, porque permitem “imersão” maior nas nas paisagens da Serra do Mar.
Dentro da categoria Boutique, o vagão Família Arruda entrega contemplação, com varanda central e vista aberta para vales, túneis e montanhas. O Barão do Serro Azul, com varanda na cauda do trem no trecho Curitiba-Morretes, é um dos favoritos de quem gosta de fotografia, já que dali é possível observar toda a composição serpenteando pela serra. Já o Bove se destaca por ter sido criado como o primeiro vagão pet friendly do Brasil, com espaço para os animais viajarem ao lado dos tutores, além de água e petiscos durante o percurso.
No vagão Bove, pets são bem-vindosBruno Covello/Serra Verde Express/Divulgação
O Imperial mergulha na nostalgia, inspirado nos anos 1930, com lustres, luminárias retrô e decoração que remete aos antigos trens de luxo. O Camarote, também de ares clássicos, funciona como pequenas cabines privativas sobre trilhos, acomodando até quatro pessoas e sendo bastante procurado por famílias e grupos de amigos. Já o Guardiões do Marumbi homenageia o montanhismo paranaense, com referências às montanhas da Serra do Mar e aos exploradores da região.
O luxo retrô é o charme do vagão ImperialCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Fiz minha viagem a bordo do Carmen Silva, um vagão voltado à acessibilidade. Homenageando a paratleta paranaense Carmen Silva Santos, o carro foi adaptado para passageiros com deficiência ou mobilidade reduzida, sem abrir mão do conforto: poltronas largas, mesas entre os assentos e uma varanda aberta que rapidamente vira ponto de encontro de quem tenta registrar o máximo das paisagens.
O vagão Carmen Silva, com acessibilidade plena, é bastante solarSerra Verde Express/Divulgação
A categoria Litorina Luxo oferece uma experiência ainda mais sofisticada, com sofás, poltronas confortáveis, ar-condicionado e serviço premium. Com vagões batizados em homenagem a destinos brasileiros, a Copacabana tem inspiração no bairro carioca e estética neoclássica; a Curitiba aposta em uma leitura mais contemporânea, com iluminação elegante e atmosfera de lounge; e a Foz do Iguaçu faz referência às cataratas, misturando elementos clássicos e tons mais exuberantes.
A Litorina Copacabana resgata elementos do Rio de Janeiro dos anos 1930Serra Verde Express/Divulgação
Nas três Litorinas, que são os vagões mais caros, os passageiros são recebidos com espumante, as bebidas são liberadas, é servido lanche e tem acompanhamento de guia. São os vagões que mais se aproximam da ideia romantizada de uma viagem ferroviária de luxo.
Todos os vagões contam com banheiros a bordo, com exceção da Boutique Imperial. Nesse caso, os passageiros podem utilizar o sanitário do vagão ao lado, com acompanhamento do guia durante o trajeto.
O começo urbano
Assim que sentei, encontrei um mapa ilustrado do trajeto sobre a mesa, que antecipava parte das paisagens e pontos históricos das próximas horas. No verso apareciam os souvenires vendidos no trem: chaveiros, ímãs, baralho, cartões-postais, ecobag e até um livro com o roteiro completo.
O mapa é recheado de atrativosCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Antes de deixarmos Curitiba, os funcionários da estação começaram a se despedir dos passageiros com luvas estampadas com “bom passeio” e emojis. Pode parecer um detalhe pequeno, mas foi impossível não entrar no clima meio cinematográfico da viagem. O trem começou a se mover devagar enquanto as pessoas na plataforma continuavam dando tchau, como se estivéssemos embarcando rumo a algum universo paralelo.
Os primeiros minutos do percurso ainda passam pela área urbana de Curitiba e podem frustrar quem espera paisagens grandiosas logo de cara. O trem cruza bairros residenciais, fundos de casas – com varais lotados de calcinhas e cuecas – e galpões industriais enquanto avança em um ritmo tão lento que faz alguns passageiros se perguntarem se realmente vão chegar a Morretes em quatro horas.
Nosso guia, o Cuevas, tentava animar o trajeto, avisando que estávamos passando por trás do Jardim Botânico e de outros cartões-postais. Mas, na prática, mal dá para enxergar as primeiras atrações indicadas no mapinha. Aos poucos, Curitiba fica para trás e Pinhais e Piraquara passam a misturar conjuntos de casas e áreas rurais. É nesse momento que as araucárias começam a aparecer pela janela, como se anunciassem que a paisagem da serra finalmente estava começando.
As araucárias de Piraquara ficando para trásCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Dentro do vagão, o serviço de bordo já ajudava a forrar o estômago. Recebi uma caixinha com um lanche de queijo e presunto, além de amendoim e alfajor. Entre as bebidas liberadas, o suco servido era daqueles de lata da Del Valle. Mais tarde, também pedi um café e uma água, aproveitando o esquema à vontade.
Simples, porém apetitosoCecília Carrilho/Arquivo pessoal
A internet desaparece durante quase todo o trajeto e só dá sinal de vida novamente quando o trem se aproxima de Morretes. Sem notificações chegando o tempo inteiro, todo mundo passa a olhar mais para fora. Os passageiros circulam pelo vagão, vão até a varanda, trocam de lado atrás das melhores vistas e ficam atentos às explicações do guia, que o tempo todo indica para qual lado olhar – e também quando tomar cuidado com a cabeça ao se inclinar nas janelas.
Eu estava sentada do lado direito do vagão, mas rapidamente percebi que boa parte das paisagens mais impressionantes surgia à esquerda. Ainda assim, os dois lados entregam vistas bonitas em momentos diferentes.
Quando a Serra do Mar finalmente aparece
A paisagem muda completamente depois do Túnel 13, o mais longo do percurso, com mais de 450 metros de extensão. Quando o trem sai da escuridão, a Mata Atlântica toma conta da paisagem de forma quase abrupta. A partir dali começam a aparecer bromélias, paredões cobertos de vegetação, pontes suspensas e estações antigas parcialmente engolidas pelo tempo. Algumas das atrações mais conhecidas do percurso são a Estação Banhado e as ruínas da Roda d’Água e da Casa do Ipiranga.
A Casa do Ipiranga foi construída sobre a trilha do ItupavaCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Como a vegetação é densa e quase engole os trilhos, surge uma ansiedade constante por qualquer abertura na mata que revele vistas mais amplas da serra. Quando essas brechas finalmente aparecem – como na vista da Represa Caiguava, com sua chaminé isolada no meio da água – os 40 km/h do trem parecem rápidos demais, como se qualquer distração pudesse fazer você perder um pedaço da paisagem.
A chaminé brota no meio da Represa Caiguava, como se fosse um canudo giganteCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Quando o Rio Ipiranga surge ao lado do trem, as atrações aumentam ainda mais. O guia aponta o tempo todo para paisagens diferentes, como a Cruz do Barão e o Santuário Nossa Senhora do Cadeado, construído sobre um paredão da serra. Entre avisos para olhar à direita, à esquerda, para cima ou para baixo, bate até um medo de derrubar o celular enquanto tentamos registrar tudo ao mesmo tempo, boquiabertos.
A cruz marca o local onde o Barão do Serro Azul e seus cinco companheiros foram fuzilados em 1894, durante a Revolução FederalistaCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Além da paisagem, parte da graça da viagem está nos detalhes históricos. A ferrovia do trajeto, nomeada como Paranaguá-Curitiba, foi inaugurada em 1885 e é considerada uma das grandes obras de engenharia do período imperial brasileiro. O percurso atravessa um relevo acidentado, com túneis escavados na rocha, viadutos em curva e pontes metálicas trazidas da Europa. Em alguns momentos, a sensação é de que o trem simplesmente flutua entre as montanhas.
Natureza em cima dos trilhosCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Alguns trechos também são usados para transporte de carga, o que obriga os trens a aguardarem quando acontece algum cruzamento. Durante minha viagem, ficamos parados cerca de quinze minutos até a linha ser liberada novamente – mas, felizmente, nenhuma paisagem acabou bloqueada pelos vagões de carga.
O trecho que faz todo mundo correr para a janela
Quando os trilhos chegam aos 952 metros de altitude, a paisagem se abre para os picos montanhosos e os vales cortados pelo Rio Ipiranga – para ver melhor, é preciso estar do lado esquerdo do vagão. O primeiro grande impacto é o Cânion do Ipiranga, onde duas montanhas se abrem em “V” e revelam os morros verdes da Serra do Ibitiraquire ao fundo. Após o túnel 12, surge a Cachoeira Véu de Noiva, basta olhar para baixo e estar bastante atento para encontrá-la.
O Cânion do Ipiranga dando o seu alô!Cecília Carrilho/Arquivo pessoal
Depois de passar pelos túneis 11 e 10, é possível ver o cânion por outro ângulo e notar a existência de uma fenda escura na rocha, chamada de Garganta do Diabo. A luz atravessando a serra naquele momento criava uma cena difícil de explicar – daquelas que nenhuma foto ou vídeo consegue reproduzir direito.
O Pico do Diabo, também conhecido como Pico Coroado, fica em frente à Garganta do DiaboCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Mais adiante surge a Ponte São João, a mais emblemática entre as mais de 40 pontes do percurso. Inaugurada em 1884, a estrutura de aço com 113 metros de comprimento foi fabricada na Bélgica a partir de um projeto brasileiro. A travessia já é empolgante por si só, mas o mais impressionante é observar o arco metálico surgindo no meio da mata.
Para construir a Ponte São João, a logística foi complexa; era preciso distribuir em Morretes o aço na ordem inversa de montagem e levar para o local em pequenas quantidades, já que não havia espaço para estocagem.Marquinhos – EMPETUR/Divulgação
Pouco depois, o trem chega ao Viaduto Carvalho, outro cartão-postal da ferrovia. Como os trilhos acompanham uma curva do Pico do Marumbi, quem olha para baixo do lado esquerdo do vagão tem a sensação de estar suspenso sobre a serra. Da varanda do vagão deu para sentir melhor a dimensão da paisagem – e também o friozinho na barriga.
O Conjunto Marumbi fica ainda mais visível quando atravessamos a Estação MarumbiCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Quando o celular volta a transbordar de notificações, é sinal de que o passeio está chegando ao fim. Nesse momento, os funcionários aproveitam o retorno da internet para começar a vender os mimos que aparecem no verso do mapa entregue no início da viagem.
O desembarque em Morretes
Depois de 4h30 de viagem, o trem finalmente chegou a Morretes, cidade histórica no litoral paranaense conhecida pelo casario colonial e pelo barreado, prato típico da região.
Chegamos na simples – e quente – Estação de MorretesCecília Carrilho/Arquivo pessoal
O desembarque acontece devagar porque a plataforma é pequena para a quantidade de passageiros. Assim que saí da estação, a primeira sensação foi térmica: Curitiba amanheceu fria, mas Morretes tinha clima de litoral úmido e quente.
Para quem faz os pacotes completos da Serra Verde Express, o passeio continua com city tours e almoço. Mas mesmo quem vai apenas pelo trajeto de trem consegue circular facilmente pelo centro histórico. As ruas têm lojinhas de artesanato, casarões coloridos e restaurantes especializados em barreado. O prato, preparado lentamente em panela de barro, costuma ser servido com farinha de mandioca e banana.
Quando cheguei, aproveitei para almoçar o famoso barreado no restaurante StazioneCecília Carilho/Arquivo pessoal
A volta para Curitiba pode ser feita de van, ônibus ou novamente de trem no chamado passeio Pôr do Sol.
Vale a pena escolher a categoria Boutique?
A experiência muda dependendo do vagão escolhido. Quem busca apenas fazer o trajeto provavelmente ficará satisfeito com a categoria turística, que já oferece janelas amplas e boa visibilidade da paisagem. Mas os vagões Boutique tornam a viagem mais confortável – especialmente pelas varandas abertas.
No fim, o grande protagonista continua sendo o lado de fora. Mesmo com decoração temática, serviço de bordo e bebidas liberadas, chega uma hora em que todo mundo esquece o próprio vagão para ficar olhando a Serra do Mar passar lentamente pela janela ou varanda.
Serviço
A Serra Verde Express está localizada na Rodoferroviária de Curitiba, na Avenida Presidente Affonso Camargo, n° 330. É possível comprar as passagens pelo site e pelos telefones (41) 3888-3488 (da sede em Curitiba) e (41) 3888-3480 (da estação de Morretes). Também é feito o atendimento pelo WhatsApp (41) 3888-3472, mas as mensagens devem ser enviadas com antecedência. Os bilhetes para viagens de trem no percurso Curitiba-Morretes custam a partir de R$ 206. Já os pacotes com traslados e passeios podem ser adquiridos a partir de R$ 488.
A viagem de trem acontece ao longo de todo o ano. Na alta temporada – dezembro, janeiro, fevereiro e metade de julho – as saídas são diárias. Já na baixa temporada, o passeio ocorre às sextas, sábados, domingos e feriados.
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