Vape ilegal: vídeos no TikTok ensinam menores a driblar leis e somam milhões de curtidas

Apesar da aprovação da lei que proíbe a venda de tabaco para pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009 no Reino Unido, uma investigação conduzida por pesquisadores britânicos acende um alerta sobre o consumo de informações digitais por menores de idade.

O estudo, publicado no periódico Addiction, revela que o conteúdo do TikTok apresenta o comércio e o uso de vapes ilegais de forma humorística, inofensiva e cotidiana.

O trabalho comparou os materiais educativos institucionais encontrados no Google com o engajamento de conteúdos publicados na rede social de vídeos curtos. Os resultados indicam um isolamento da comunicação oficial de saúde frente à realidade consumida diariamente pelos jovens.

Os números do mercado ilegal no TikTok

A equipe de pesquisa, liderada pela Norwich Medical School da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, monitorou hashtags populares ligadas ao mercado paralelo de cigarros eletrônicos, como #noIDvape e #puffbundles. A partir de uma amostragem de 58 vídeos analisados sistematicamente, os cientistas mapearam o alcance da plataforma:

Engajamento de massa: os conteúdos analisados acumularam, juntos, mais de 21 milhões de curtidas na rede social.

Desprezo pela legislação: a indiferença em relação à lei foi o tema mais comum, aparecendo em 57% dos vídeos, nos quais jovens celebram a compra de dispositivos sem checagem de identidade.

Humor como atrativo: o formato de entretenimento ou sátira foi identificado em 50% das publicações.

Abordagem positiva: cerca de 47% dos vídeos retratam o uso de vapes sob uma ótica explicitamente favorável ou incentivadora.

Táticas para enganar responsáveis e disfarçar produtos

O estudo detalha que vendedores utilizam o TikTok para comercializar dispositivos eletrônicos diretamente para menores de idade. Para escapar das diretrizes de segurança da rede social e dos sistemas de verificação de idade, os comerciantes adotam estratégias visuais dissimuladas.

Uma das táticas mais frequentes é a venda de “kits de maquiagem ou de doces” (puff bundles), nos quais o cigarro eletrônico é escondido em pacotes estéticos junto a gloss labial, cílios postiços e guloseimas. Os pesquisadores também identificaram a promoção de objetos de camuflagem, como garrafas de água falsas fabricadas com compartimentos internos projetados especificamente para ocultar os dispositivos de pais e professores.

Além da evasão de idade, há o risco sanitário direto: muitos desses produtos ultrapassam os níveis permitidos de nicotina ou estão adulterados com substâncias psicoativas perigosas, como o canabinóide sintético Spice.

Por que os alertas de saúde oficiais falham?

Em contrapartida ao engajamento do TikTok, a pesquisa avaliou 18 recursos educacionais institucionais listados nas primeiras páginas de busca do Google. Embora a qualidade técnica e a autoria dessas páginas tenham sido consideradas boas, elas falham na comunicação com o público jovem, conforme dados compartilhados pelo site EurekAlert.

De acordo com o levantamento, 28% dos materiais institucionais foram classificados como ruins em termos de apelo e relevância para a juventude. Os motivos apontados pelos pesquisadores incluem:

Uso excessivo de jargões técnicos e tom excessivamente formal;

Presença de grandes “paredões de texto” sem apelo visual ou interatividade;

Falta de informações específicas sobre os riscos dos vapes de mercado negro, focando apenas no vaping genérico;

Uso de comandos simplistas e pouco eficazes, como “Se você é uma criança, não fume”.

Os autores do estudo argumentam que barreiras legislativas isoladas não são suficientes para conter o avanço do vaping entre adolescentes. A recomendação da pesquisa é que as autoridades de saúde pública passem a produzir conteúdos diretamente com os jovens, utilizando a linguagem, o humor e os canais de vídeo que eles já consomem rotineiramente na internet.

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