A possibilidade de uma explosão solar provocar um grande apagão da internet parece roteiro de ficção científica, mas é um cenário que desperta a atenção de pesquisadores e especialistas em infraestrutura digital.
Embora seja considerada uma hipótese remota, uma explosão solar de grande intensidade poderia afetar sistemas de comunicação, satélites e redes que sustentam boa parte da vida moderna. “É improvável, mas tecnicamente possível”, afirma Adriana Valio, física com PhD em Astronomia, professora titular da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisadora do Centro de Rádio Astronomia e Astrofísica Mackenzie (CRAAM).
Representação visual de uma superexplosão solar em direção à Terra – Crédito: Imagem gerada por IA/Gemini
“Um evento comparável ao Evento Carrington de 1859 (a maior tempestade geomagnética registrada) poderia danificar em larga escala os repetidores dos cabos submarinos de fibra óptica, derrubar satélites de comunicação e sobrecarregar transformadores de alta tensão nas redes elétricas”, disse a professora em entrevista ao Olhar Digital. “Sem eletricidade e sem os nós críticos de transmissão, a internet simplesmente pararia. Uma tempestade de grande intensidade poderia causar interrupções significativas e prolongadas em partes da infraestrutura global”.
Explosão solar extrema poderia comprometer parte das conexões que mantêm a internet
O neurocientista e futurista Álvaro Machado Dias, colunista do programa Olhar Digital News, destacou que eventos recentes mostraram como estruturas consideradas essenciais podem ser mais frágeis do que aparentam. “A pandemia nos jogou na cara o fato de que as nossas redes de distribuição logística são muito mais frágeis do que imaginávamos”.
Na avaliação do especialista, essa mesma lógica pode ser aplicada à internet. Caso uma explosão solar extremamente poderosa atinja a Terra, os impactos poderiam alcançar diferentes camadas da infraestrutura tecnológica responsável pelas comunicações globais. “É algo que, eventualmente, pode sim acontecer e nos levar a perceber a mesma coisa: que as nossas redes logísticas não são tão estáveis e fortes quanto pensamos”.
Também chamadas tempestades solares, essas explosões ocorrem quando o Sol ejeta enormes quantidades de energia e partículas carregadas em direção ao espaço. Dependendo da intensidade, esses eventos podem interferir em satélites, sistemas de navegação, redes elétricas e equipamentos eletrônicos. Em um cenário extremo, uma explosão solar poderia comprometer parte das conexões que mantêm a internet funcionando em escala global.
“Apagão” seria uma catástrofe muito maior do que a queda das redes sociais
Machado Dias explica que o problema não estaria em ficar sem redes sociais, vídeos ou aplicativos de entretenimento. O impacto mais grave atingiria o sistema financeiro, altamente dependente da conectividade digital. Transferências bancárias, pagamentos eletrônicos, compensações financeiras e inúmeras operações econômicas funcionam por meio de redes conectadas continuamente. “Compensações bancárias e outros processos ligados a dinheiro tendem a se tornar inoperantes, e isso fatalmente atingiria a todos: as pessoas precisam das movimentações financeiras para se locomover, para comer, para tudo”, ressalta.
Sem acesso a esses sistemas, milhões de pessoas poderiam enfrentar dificuldades para realizar tarefas básicas, como fazer compras, pagar contas ou movimentar recursos. Segundo o futurista, seria justamente nesse ponto que surgiria o verdadeiro caos, já que praticamente toda a economia moderna depende da circulação digital de informações e dinheiro.
Como ficaria o mundo se acabasse a internet global? – Crédito: Pranch/Shutterstock
A comunicação também sofreria consequências importantes. Atualmente, aplicativos de mensagens e plataformas digitais são utilizados para contatos pessoais, atividades profissionais e situações de emergência. Em um cenário de interrupção causada por uma grande explosão solar, até mesmo informar familiares sobre sua situação poderia se tornar um desafio.
“Não seria a falta de uma postagem nas redes sociais que configuraria uma situação caótica, mas sim a inabilidade de pessoas que dependem de ferramentas como o WhatsApp e outras mais até mesmo para informar que estão bem”, observou Machado Dias. Ele acredita que um colapso temporário da internet representaria “um grande caos na humanidade”, uma vez que a sociedade atual foi construída sobre uma infraestrutura digital que conecta pessoas, empresas, governos e serviços essenciais.
Daria para voltar a viver como antes?
Diante dessa possibilidade, muitas pessoas imaginam que seria possível simplesmente voltar aos métodos de comunicação utilizados antes da internet. No entanto, o especialista considera essa alternativa pouco realista.
Para ilustrar a situação, ele utiliza a comparação com os carros elétricos. Em uma sociedade onde todos os veículos funcionassem exclusivamente com eletricidade, os postos de combustíveis provavelmente desapareceriam com o tempo, assim como parte da infraestrutura ligada aos combustíveis fósseis. Caso ocorresse uma longa interrupção no fornecimento de energia, não seria possível simplesmente voltar a abastecer carros a gasolina, porque a estrutura necessária para isso já não existiria mais.
Segundo Álvaro Machado Dias, não daria para, simplesmente, “voltar ao que era antes”. – Crédito: João Pires de Oliveira Dias Neto
O mesmo ocorre com a internet. Hoje, atividades econômicas, sociais e profissionais dependem fortemente das redes digitais. Por isso, não existe uma alternativa pronta capaz de substituir rapidamente toda a infraestrutura construída ao longo das últimas décadas.
Segundo Machado Dias, a solução mais viável em uma crise seria restaurar a própria internet o mais rápido possível. “Não há nada para substituir”, alertou o futurista. “A resposta mais racional não é voltar a protocolos de comunicação anteriores ao surgimento da internet, muito pelo contrário: é a reconstituição da internet que representa o caminho mais fácil e rápido”.
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Como o mundo pode se prevenir
A prevenção também apresenta limitações. Embora cientistas consigam monitorar a atividade solar e detectar uma possível explosão solar ou tempestade geomagnética com algumas horas de antecedência, o tempo disponível para proteção costuma ser reduzido. Além disso, medidas capazes de blindar completamente a infraestrutura global exigiriam investimentos extremamente elevados.
Adriana explica que a prevenção passa por três frentes: monitoramento, proteção técnica e resiliência da rede:
Monitoramento: equipes da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), da Agência Espacial Europeia (ESA) e do Estudo e Monitoramento Brasileiro do Clima Espacial (EMBRACE), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), rastreiam continuamente a atividade solar e emitem alertas com horas de antecedência. “Como as ejeções de massa coronal (CMEs) levam de um a quatro dias para chegar à Terra, é tempo suficiente para acionar protocolos de emergência”, diz a cientista, complementando que o evento Carrington levou 17h para chegar à Terra e afetar a rede de telégrafos da época.
Proteção técnica: desligar preventivamente transformadores críticos, colocar satélites em modo de segurança e blindar equipamentos sensíveis em gaiolas de Faraday pode limitar os danos.
Resiliência da rede: investir em redundância (múltiplas rotas de cabo, sistemas distribuídos e backups locais) torna a internet menos vulnerável a falhas em cascata. “O problema é que blindar toda a infraestrutura global exigiria investimentos gigantescos, algo que ainda não existe como política coordenada entre os países”, ressalta.
Machado Dias concorda que, como a probabilidade de uma explosão solar capaz de provocar um apagão global permanece muito baixa, dificilmente governos e empresas investirão recursos gigantescos para se preparar exclusivamente para esse cenário.
Outro ponto importante é que um colapso total da internet é considerado menos provável do que falhas regionais ou interrupções entre continentes. Parte significativa das comunicações internacionais depende de cabos submarinos e outras estruturas consideradas mais vulneráveis.
“É muito mais fácil a gente ver disrupções conectivas entre os continentes, porque elas passam debaixo do mar, onde de fato esse efeito acontece, do que a interrupção de redes locais”, explicou.
Embora a discussão frequentemente envolva a ameaça de uma explosão solar, Machado Dias lembra que conflitos internacionais também podem representar riscos para as telecomunicações. Ataques contra satélites, centros de dados e sistemas de comunicação podem fazer parte das estratégias militares do futuro, ampliando os desafios para a conectividade global.
Por enquanto, o chamado “apocalipse da internet” segue apenas como uma hipótese distante. Ainda assim, o debate sobre os efeitos de uma grande explosão solar serve como alerta para a enorme dependência da sociedade moderna das redes digitais. Caso um evento dessa magnitude ocorra, os impactos poderiam atingir desde a economia e os serviços essenciais até a comunicação entre bilhões de pessoas ao redor do planeta.
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