El Niño volta a preocupar — e pode afetar o preço da comida no planeta

O avanço do El Niño para o ciclo 2026/27 voltou a colocar a produção global de alimentos em alerta. O fenômeno pode pressionar safras em diferentes regiões do mundo, mas o cenário atual é um pouco menos alarmante do que em eventos anteriores, principalmente por causa dos estoques elevados de grãos acumulados nos últimos anos.

Ainda assim, especialistas seguem monitorando a evolução do clima com atenção. Secas mais intensas, chuvas fora de padrão e impactos regionais continuam no radar das previsões associadas ao fenômeno.

El Niño pode provocar secas e chuvas intensas, afetando diferentes regiões produtoras de alimentos ao redor do planeta. – Crédito: coffeekai – iStockPhoto

O que muda neste El Niño em relação aos anteriores

O El Niño costuma provocar calor e seca em grandes áreas da Ásia, além de chuvas mais fortes em partes das Américas. Em episódios passados, esses efeitos estiveram ligados a perdas agrícolas relevantes, incêndios florestais, enchentes e prejuízos bilionários.

Desta vez, informa a Reuters, o ponto de equilíbrio vem dos estoques globais, que cresceram após anos seguidos de boas colheitas em grandes países produtores. Isso altera a forma como o mercado reage ao risco climático, ao menos no curto prazo.

Para Shirley Mustafa, economista da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), existe um fator que ajuda a suavizar o cenário. “Há um lado positivo em relação aos estoques globais e às recentes colheitas de arroz e outros cereais”, afirmou. Ela ressalta que essas reservas podem amortecer parte dos impactos do fenômeno.

Os números ajudam a dimensionar esse colchão de segurança. O trigo deve alcançar quase 280 milhões de toneladas em reservas globais. O arroz já bateu um recorde superior a 196 milhões de toneladas. O milho passa de 303 milhões de toneladas, enquanto a soja segue próxima dos níveis mais altos já registrados.

Trigo, arroz, milho e soja estão em níveis elevados de estoque e ajudam a equilibrar possíveis impactos do El Niño. Imagem: Billion Photos/Shutterstock

Como grandes produtores tentam se antecipar ao clima

A Índia, responsável por cerca de 40% das exportações globais de arroz, chega a esse período com estoques bem acima das metas oficiais. Na prática, isso reduz a chance de novas restrições às exportações, algo que já ocorreu em outros episódios de El Niño.

Na Indonésia, agricultores adiantaram o plantio como forma de escapar dos efeitos mais fortes do clima. O governo também reforçou investimentos em irrigação e sistemas de bombeamento de água para lidar com possíveis períodos de estiagem.

Na Tailândia, um dos três maiores exportadores de arroz do mundo, os reservatórios estão no nível mais alto da última década. Isso ajuda a dar mais segurança às lavouras recém-plantadas caso o clima fique mais instável nos próximos meses.

El Niño pode provocar secas e chuvas intensas, afetando diferentes regiões produtoras de alimentos ao redor do planeta. – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Regiões em alerta e áreas menos afetadas

Nem todas as regiões devem sentir o El Niño da mesma forma. Austrália, Sudeste Asiático e Índia seguem entre as áreas mais expostas aos efeitos do fenômeno.

Na Europa, a relação com o El Niño é mais irregular e difícil de prever, segundo estudos recentes. China e a região do Mar Negro, por outro lado, não aparecem neste momento entre as principais áreas de preocupação.

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Na Indonésia e na Malásia, grandes produtoras de óleo de palma, o cenário ainda é de chuvas regulares, embora com menor frequência em algumas áreas. Variedades mais novas de palmeiras também vêm apresentando maior resistência a períodos de seca.

Mesmo com esse quadro relativamente favorável, o mercado não descarta turbulências. Em situações como essa, decisões de governos e eventuais restrições às exportações podem influenciar o abastecimento global tanto quanto o comportamento do clima.

Para Shirley Mustafa, da FAO, esse fator humano pesa bastante em momentos de risco. “Já vimos no passado como os governos reagem aos riscos de abastecimento e tomam medidas para garantir o fornecimento local suficiente”, afirmou.

No fim, o impacto do El Niño depende de uma combinação de fatores. O clima é um deles, mas as decisões dos países sobre estoques, exportações e segurança alimentar também podem ser determinantes nos próximos meses.

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