Poucas vezes a medicina testemunhou uma mudança tão significativa no tratamento da obesidade quanto a proporcionada pelos medicamentos agonistas do GLP-1 e do GIP, como Ozempic®, Wegovy® e Mounjaro®. Eles representam um dos maiores avanços da última década ao possibilitar perda de peso consistente e reduzir o risco de doenças como diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares e esteatose hepática.
Mas, junto com essa revolução, surgiu outro fenômeno preocupante: a popularização do uso indiscriminado dessas medicações.
Todos os dias recebo pacientes que iniciaram o tratamento por conta própria, seguiram orientações encontradas nas redes sociais ou ouviram relatos de amigos e influenciadores. Muitos chegam ao consultório acreditando que qualquer desconforto digestivo faz parte do processo e que basta insistir para emagrecer mais rápido.
Esse talvez seja o maior erro.
As canetas emagrecedoras são medicamentos seguros quando prescritos corretamente e acompanhados por um médico. No entanto, quando utilizadas sem orientação adequada, podem aumentar o risco de complicações digestivas que poderiam ser facilmente evitadas.
Entre os erros que observo com mais frequência, destaco sete.
1. Acreditar que todo efeito colateral é “normal”
É verdade que náuseas, sensação de estômago cheio, azia ou prisão de ventre podem aparecer nas primeiras semanas de tratamento. Na maioria das vezes, esses sintomas diminuem à medida que o organismo se adapta.
O problema é quando o paciente passa a considerar qualquer sintoma como esperado.
Dor abdominal intensa, vômitos persistentes, incapacidade de se alimentar, constipação prolongada ou perda de peso muito acelerada merecem investigação. Persistir com a medicação sem avaliação médica pode transformar um efeito colateral esperado em uma complicação.
2. Continuar comendo como antes
Esses medicamentos reduzem o esvaziamento do estômago e aumentam significativamente a sensação de saciedade.
Mesmo assim, muitas pessoas continuam fazendo refeições volumosas, comem rapidamente ou mantêm uma alimentação rica em gordura.
O resultado costuma ser previsível: mais náuseas, refluxo, sensação de empachamento e episódios de vômitos.
O organismo passa a funcionar de maneira diferente. A alimentação também precisa mudar.
3. Esquecer da hidratação
Quando a fome diminui, é comum que a ingestão de líquidos também caia sem que o paciente perceba.
A consequência pode ser desidratação, piora da prisão de ventre e maior desconforto digestivo.
Beber água continua sendo uma das medidas mais importantes durante todo o processo de emagrecimento.
4. Comer menos, mas pior
Outro erro bastante frequente é reduzir drasticamente a quantidade de alimentos e esquecer da qualidade da dieta.
Fibras presentes em frutas, verduras, legumes e cereais integrais são fundamentais para manter o funcionamento intestinal, favorecer a saciedade e preservar a saúde digestiva.
Emagrecer não significa apenas comer menos. Significa comer melhor.
5. Aumentar a dose por conta própria
A ansiedade pelos resultados leva alguns pacientes a anteciparem o aumento da dose sem orientação médica.
Essa prática pode intensificar os efeitos colaterais, dificultar a adaptação do organismo e até levar ao abandono precoce do tratamento.
Cada etapa da escalada de dose existe por um motivo: permitir que o organismo se adapte gradualmente à medicação.
6. Ignorar doenças digestivas já existentes
Pacientes com refluxo gastroesofágico importante, hérnia de hiato, cálculos na vesícula, pancreatite, doenças inflamatórias intestinais ou histórico de cirurgias digestivas precisam de uma avaliação individualizada antes de iniciar o tratamento.
Isso não significa que não possam utilizar essas medicações. Significa apenas que o acompanhamento deve ser ainda mais cuidadoso.
Também é importante lembrar que qualquer emagrecimento rápido, independentemente do método utilizado, aumenta o risco de formação de cálculos na vesícula.
7. Acreditar que a caneta resolve tudo
Talvez este seja o maior equívoco.
As canetas não substituem alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado nem acompanhamento médico.
Elas são uma ferramenta extremamente eficaz, mas fazem parte de um tratamento muito maior.
Sem mudanças consistentes no estilo de vida, aumenta o risco de recuperação do peso após a suspensão da medicação.
Emagrecer com segurança é tão importante quanto emagrecer
As canetas emagrecedoras abriram uma oportunidade inédita para tratar uma doença complexa como a obesidade. Os benefícios são reais e podem transformar a saúde e a qualidade de vida de milhões de pessoas.
Mas nenhum medicamento deve ser visto como uma solução isolada.
O sucesso do tratamento depende da combinação entre acompanhamento médico, alimentação adequada, atividade física e monitoramento dos possíveis efeitos colaterais, principalmente em pessoas que já apresentam doenças do aparelho digestivo.
Meu conselho é simples: não normalize sintomas importantes e nunca ajuste a medicação por conta própria. Quanto mais cedo identificamos alterações relevantes, maiores são as chances de corrigi-las sem interromper um tratamento que, quando bem conduzido, pode trazer benefícios duradouros para a saúde.
Em medicina, o objetivo nunca é apenas perder peso. É emagrecer com segurança, preservar a saúde digestiva e construir resultados que possam ser mantidos ao longo da vida.
Dr Rodrigo Barbosa, cirurgião digestivo sub-especializado em cirurgia bariátrica e coloproctologia do corpo clínico dos hospitais Sírio Libanês e Nove de Julho. Sou também CEO do Instituto Medicina em Foco





