Por Dr. Leandro de Paula Gregório – Cirurgião Plástico, Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
Durante muitos anos, a principal preocupação das pessoas que buscavam emagrecer era o número na balança. Hoje, um novo fenômeno tem chamado a atenção: pacientes que perderam muitos quilos, mas passaram a se incomodar com a aparência do rosto.
Popularmente conhecido como “Ozempic Face”, o termo ganhou força nas redes sociais para descrever a perda de volume facial observada em algumas pessoas após um emagrecimento acelerado, principalmente entre usuários das chamadas canetas emagrecedoras. Apesar do nome, é importante esclarecer que não se trata de um efeito colateral específico do medicamento. O verdadeiro responsável pela mudança é a perda rápida de gordura corporal.
A gordura da face desempenha um papel fundamental na sustentação dos tecidos. Ela funciona como uma espécie de “preenchimento natural”, responsável pelo aspecto jovem, saudável e descansado do rosto. Quando ocorre uma redução significativa desse tecido em pouco tempo, algumas mudanças tornam-se evidentes.
As maçãs do rosto ficam mais achatadas, as têmporas perdem volume, os sulcos ao redor da boca se aprofundam, a linha da mandíbula perde definição e a pele pode apresentar maior flacidez. Muitas pessoas relatam que parecem mais cansadas ou mais velhas, mesmo se sentindo fisicamente mais saudáveis.
O fenômeno não acontece apenas com quem utiliza medicamentos para emagrecer. Ele pode ser observado após cirurgia bariátrica, dietas muito restritivas ou qualquer processo de perda rápida e expressiva de peso.
Existe uma razão biológica para isso.
O organismo não escolhe de onde retirar gordura. À medida que o peso diminui, ocorre redução do tecido adiposo em todo o corpo, incluindo a face. Em pessoas acima dos 40 anos, esse efeito costuma ser ainda mais perceptível, porque o envelhecimento natural já provoca perda progressiva de gordura facial, diminuição da produção de colágeno e redução da elasticidade da pele. Quando esses processos se somam a um emagrecimento intenso, as mudanças tornam-se mais evidentes.
É possível reverter o “Ozempic Face”?
Sim, na maioria dos casos, é possível recuperar a harmonia do rosto. O tratamento depende da intensidade da perda de volume, da qualidade da pele, da idade do paciente e da velocidade do emagrecimento. A avaliação individual é fundamental para definir a melhor estratégia.
Quando a principal alteração é a perda de sustentação causada pela redução da gordura facial, uma das opções é a enxertia de gordura autóloga, procedimento em que a própria gordura do paciente é retirada de outra região do corpo, preparada e reinjetada em áreas estratégicas da face. Além de devolver volume de forma natural, a gordura contém células com potencial regenerativo que podem contribuir para melhorar a qualidade da pele.
Outra alternativa bastante utilizada são os bioestimuladores de colágeno, que estimulam o organismo a produzir novas fibras de sustentação. O resultado não é imediato, mas ocorre de forma progressiva ao longo dos meses, promovendo melhora da firmeza e da flacidez.
Em pacientes com perda moderada de volume, os preenchedores à base de ácido hialurônico também podem ser indicados para restaurar regiões como maçãs do rosto, têmporas, mandíbula e sulcos faciais. Quando utilizados de forma criteriosa, proporcionam um aspecto descansado e natural, sem exageros.
Nos casos em que houve grande emagrecimento e excesso importante de pele, principalmente em pacientes após cirurgia bariátrica ou perda expressiva de peso com medicamentos, pode haver indicação de cirurgia plástica facial, como o lifting (ritidoplastia), que reposiciona os tecidos profundos da face e do pescoço, tratando a flacidez de maneira mais definitiva.
Em muitos pacientes, a melhor estratégia não é um único procedimento, mas a combinação de técnicas. A associação entre bioestimuladores, enxertia de gordura, preenchimentos e tecnologias para estímulo de colágeno permite resultados mais naturais e duradouros, respeitando as características individuais de cada rosto.
O objetivo não é devolver ao paciente o rosto que ele tinha antes de emagrecer, mas restaurar proporções e preservar sua identidade. O emagrecimento trouxe benefícios importantes para a saúde e isso deve ser valorizado. A cirurgia plástica e os procedimentos estéticos entram como aliados para harmonizar essa nova fase, sem transformar completamente a aparência.
Mais do que corrigir um efeito estético, o tratamento deve acompanhar uma tendência crescente da cirurgia plástica moderna: valorizar a naturalidade. O conceito atual não é criar rostos padronizados, mas devolver equilíbrio, suavizar os sinais da perda de volume e preservar as características que tornam cada pessoa única. O melhor resultado é aquele em que o paciente parece saudável, descansado e bem consigo mesmo — e não simplesmente mais jovem.





