Existe uma conta que raramente aparece quando falamos sobre mulheres que chegaram ao topo da hierarquia corporativa: a conta do que sobra.
O que sobra do dia depois de uma reunião de conselho? O que sobra do corpo depois de uma semana de viagens, decisões e metas? O que sobra da energia depois de acompanhar os filhos, administrar a casa, cuidar dos pais que envelhecem e, já perto da meia-noite, ainda responder às mensagens que chegam do trabalho?
É justamente nesse território de “sobras” que tenho observado um processo silencioso de adoecimento mental.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Pesquisa citada pelo Movimento Mulher 360 aponta que o burnout alcança 66% das mulheres na alta gestão no Brasil. Dados reunidos sobre saúde mental e trabalho também mostram uma presença feminina importante entre os casos de adoecimento relacionado ao trabalho.
Como psiquiatra que atua com saúde mental no ambiente corporativo, considero importante fazer uma distinção: não estamos falando de fragilidade emocional nem de incapacidade para lidar com cargos de grande responsabilidade. Estamos falando de pessoas submetidas, durante anos, a uma combinação de pressão profissional, responsabilidade familiar, carga mental e dificuldade de estabelecer períodos reais de recuperação.
A jornada não termina quando acaba o expediente
Muitas mulheres que ocupam posições de liderança vivem uma rotina que, vista de fora, parece apenas muito produtiva. O problema aparece quando observamos o que acontece entre um compromisso e outro.
A executiva pode terminar uma reunião estratégica e, minutos depois, estar resolvendo um problema da escola do filho. Durante o almoço, organiza uma consulta médica para a mãe. No caminho de casa, responde mensagens da equipe. À noite, acompanha as tarefas dos filhos e, quando todos dormem, abre novamente o computador.
Mesmo quando existe ajuda doméstica, babá ou cuidador, muitas vezes permanece com ela aquilo que chamamos de carga mental: lembrar, organizar, antecipar, supervisionar e tomar decisões. A execução pode ser compartilhada, mas a responsabilidade por fazer toda a engrenagem funcionar continua concentrada em uma única pessoa. O texto-base aponta levantamento segundo o qual 83% das mulheres brasileiras enfrentam dupla jornada.
Do ponto de vista da saúde mental, isso importa porque nosso organismo precisa alternar períodos de ativação e recuperação. Quando o cérebro permanece continuamente em estado de alerta, sem espaço suficiente para descanso, começam a surgir sinais que frequentemente são normalizados.
Quando os filhos ainda precisam e os pais começam a precisar
Existe outro fenômeno particularmente importante entre mulheres que estão entre os 40 e 55 anos: a chamada “geração sanduíche”.
É justamente nessa fase que muitas profissionais atingem diretorias, vice-presidências e outras posições de grande responsabilidade. Ao mesmo tempo, os filhos ainda podem depender delas e os pais começam a envelhecer e necessitar de cuidados.
Dados citados do Ibre/FGV identificaram cerca de um milhão de brasileiros entre 35 e 49 anos vivendo simultaneamente com filhos dependentes e pais idosos sob seus cuidados, sendo mais de 60% desse grupo formado por mulheres.
A executiva pode estar negociando um contrato importante enquanto precisa decidir quem acompanhará o pai ao cardiologista. Pode estar preparando uma apresentação para o conselho enquanto recebe uma ligação sobre a cuidadora da mãe. São mundos diferentes competindo pelos mesmos recursos emocionais e cognitivos.
E esses recursos são finitos.
A pressão de precisar provar competência o tempo inteiro
Há ainda outro componente que não pode ser ignorado: muitas mulheres chegaram a posições de liderança em ambientes historicamente masculinos.
Isso pode produzir uma espécie de estado permanente de vigilância. A profissional sente que precisa estar mais preparada, cometer menos erros, controlar melhor suas emoções e demonstrar continuamente que merece ocupar aquele lugar.
Em alguns ambientes, comportamentos valorizados em homens podem ser interpretados de maneira diferente quando partem de mulheres. Uma postura firme pode ser vista como agressividade. Assertividade pode ser confundida com dificuldade de relacionamento. Ao mesmo tempo, demonstrar vulnerabilidade pode alimentar o medo de parecer pouco preparada para a função.
O resultado pode ser uma profissional extremamente competente por fora e permanentemente tensionada por dentro.
Esse esforço de adaptação, autocontrole e validação também consome energia psíquica. O material que deu origem a este artigo descreve inclusive relatos de profissionais que sentem necessidade de “criar uma casca grossa” para conseguir permanecer e ser ouvidas nesses ambientes.
O corpo costuma avisar antes
Na prática clínica, um dos aspectos que mais me chama atenção é que o adoecimento raramente começa no dia em que a pessoa procura ajuda.
Quando uma executiva chega ao consultório depois de uma crise de ansiedade, de um episódio de choro incontrolável ou porque simplesmente percebeu que “não consegue mais”, frequentemente descobrimos uma história de sinais que começou muito antes.
Primeiro veio a dificuldade para dormir.
Depois, a irritabilidade.
A dor de cabeça ficou mais frequente. Surgiram tensão muscular, problemas gastrointestinais, dificuldade de concentração, lapsos de memória, palpitações ou aquela sensação permanente de estar cansada, mesmo depois de uma noite de sono.
A pessoa se adapta.
Toma mais café. Trabalha mais. Usa o fim de semana para tentar recuperar o atraso. Aprende a conviver com a dor. Diz que é apenas uma “fase puxada”.
Só que a fase pode durar anos.
O problema é que muitas profissionais de alta performance aprenderam a interpretar a capacidade de ignorar o próprio corpo como uma virtude. Continuar produzindo apesar do cansaço passa a ser visto como competência. Descansar provoca culpa. Pedir ajuda parece fraqueza.
Até que o organismo deixa de pedir atenção discretamente.
A crise de ansiedade aparece no meio de uma reunião. Uma palavra simples desaparece durante uma apresentação. O choro surge no estacionamento sem um motivo proporcional ao que acabou de acontecer. A pessoa começa a fantasiar não necessariamente em abandonar a carreira, mas simplesmente em desaparecer durante alguns dias e ficar inacessível.
Esses episódios podem parecer repentinos, mas muitas vezes são o ponto de chegada de um processo que vinha se desenvolvendo silenciosamente havia muito tempo.
Burnout não se resolve apenas com autocuidado
Precisamos ter cuidado com uma mensagem muito difundida atualmente: a ideia de que o profissional adoecido precisa simplesmente aprender a cuidar melhor de si.
Atividade física, meditação, alimentação adequada, lazer e sono são fundamentais para a saúde. Mas não podemos transformar autocuidado em mais uma obrigação colocada sobre alguém que já está sobrecarregado.
Não existe aplicativo de meditação capaz de compensar indefinidamente uma rotina estruturalmente adoecedora.
O enfrentamento precisa acontecer em diferentes níveis.
Individualmente, é necessário recuperar a percepção dos próprios limites e aprender a reconhecer alterações persistentes de sono, humor, concentração, irritabilidade e energia como sinais que merecem atenção. Dependendo da intensidade e da duração, uma avaliação médica ou psicológica pode ser necessária.
Também precisamos falar sobre delegação. Delegar não significa apenas contratar alguém para executar uma tarefa. Significa dividir responsabilidade, planejamento e tomada de decisão.
Nas relações familiares, isso pode exigir conversas difíceis sobre a divisão das tarefas domésticas, o cuidado dos filhos e, cada vez mais, dos pais idosos.
E existe uma responsabilidade que pertence às empresas.
Não podemos falar seriamente sobre saúde mental corporativa enquanto mantemos culturas que recompensam disponibilidade permanente, mensagens fora do expediente, jornadas intermináveis e a ideia de que o melhor profissional é aquele que suporta mais pressão sem reclamar.
Programas de saúde mental precisam ir além de palestras, aplicativos e campanhas internas. É necessário capacitar lideranças, estabelecer limites de disponibilidade, criar condições reais de flexibilidade e reconhecer que trabalhadores também podem ter responsabilidades importantes de cuidado fora da empresa.
Não existe prêmio para quem aguenta mais
Talvez uma das frases mais perigosas que uma profissional possa dizer a si mesma seja: “Eu dou conta”.
Dar conta durante uma semana difícil é uma coisa. Construir uma vida inteira baseada na obrigação de dar conta de tudo é outra.
A medicina não deveria esperar que o corpo entre em colapso para validar o sofrimento de alguém.
Também não precisamos transformar toda exaustão em diagnóstico. Cansaço faz parte da vida, assim como períodos de maior pressão profissional. O sinal de alerta aparece quando o organismo deixa de conseguir se recuperar, quando o sofrimento se torna persistente e quando sono, humor, memória, relações pessoais e capacidade de sentir prazer começam a ser afetados.
Mulheres chegaram a lugares profissionais que durante muito tempo lhes foram negados. O próximo desafio não deveria ser provar que conseguem permanecer nesses lugares suportando qualquer custo.
Precisamos construir ambientes em que sucesso profissional e saúde mental não sejam objetivos incompatíveis.
Porque não existe prêmio para quem consegue ignorar o próprio corpo por mais tempo. Existe apenas um organismo com limites, que normalmente começa a avisar muito antes de parar.
A questão é se estamos dispostos a escutá-lo.





